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      InícioParágrafoParágrafo #87VÍRGULA – Crónica

      VÍRGULA – Crónica

      Antes de embarcar para África

      África é um continente enorme, com inúmeras realidades, todas diferentes. Até em cada um dos seus países existe muito. Ainda assim, para quem a olha a partir de fora, para quem a recorda ou imagina, há uma grande quantidade de marcas que a distinguem. Apesar da sua imensa diversidade, existe uma unidade identitária que garante unidade àquele horizonte. É talvez por isso que tanta gente enche a boca com esse nome. Ao pronunciarem as sílabas de África, têm os rostos inundados de paisagens imensas, olhos que reflectem outros olhos, todos os olhares que os tocaram por lá. Com todas as dificuldades, vidas tão difíceis, tanto sofrimento, África é também um lugar de saudades eternas para quem lá nasceu ou para quem soube pisar esse chão e, ao mesmo tempo, é um lugar de sonhos desmedidos para quem tem alguma consciência do tamanho e da riqueza desse continente. O que será maior: África ou as saudades ou os sonhos de África?

      Eu conheço o cheiro da terra vermelha. Eu conheço aquele vento quente, que avança devagar. Estive pela primeira vez nesse continente em 1998. Na época, vivi mais de um ano seguido por lá. Depois, voltei sempre, mais do que uma vez por ano. Ao longo deste tempo, estive em vários pontos dessa área enorme. Aprendi que o silêncio mais verdadeiro não é composto pela total ausência de ruído, mas sim pelos ruídos mais próximos da natureza, da árvore, da pedra, da terra.

      Agora, neste momento, tenho as malas feitas. Estou preparado para o que já espero mas, além disso, há tudo o resto: o que não sei prever e o imprevisível.

      O ecrã tinha todo o tipo de possibilidades. Segui para o meu portão. Cruzei-me com gente que, amanhã, estará em todos os continentes. E cheguei aqui. Cheguei a esta cadeira e a este presente. Tenho tempo, tenho o meu computador e tenho alguém que irá ler estas palavras daqui a algumas semanas, quando já tiver levantado voo e aterrado, quando já tiver partido e, de volta a casa, for uma pessoa ligeiramente diferente.

      Aos poucos, chegam aqueles que vão embarcar comigo. Conferem o número do portão, olham para o bilhete e para o passaporte, confirmando talvez se continuam a ser quem são, e sentam-se. Procuro os detalhes que partilham e que demonstram que, dentro de algumas horas, estarão em África, a respirar, a pousar a atenção nessa paisagem. Encontro os padrões de alguns tecidos, a bagagem de mão, a pele macia, mas nenhum detalhe é tão certo como os rostos. Não a forma dos rostos, mas a calma. E, agora, aqui, sinto que uma tal sabedoria do tempo só é possível se fizer parte de um profundo conhecimento da vida e, também, da morte.

      A esta hora, no ponto de África para onde vou, o sol está a pôr-se. O horizonte é imenso. Entre estas paredes iluminadas por lâmpadas, uma senhora fardada avisa com voz bilingue que o embarque está aberto. Há pessoas à espera de entrar, mas sem sofreguidão. Às vezes, noutros voos, toda a gente está ansiosa para entrar. Esses são os mesmos voos onde, depois, toda a gente está ansiosa para sair. Aqui, não é assim. Não há pressa pela chegada do minuto seguinte. Da mesma maneira, também não há vontade de que esse mesmo minuto não chegue. Há sintonia. O futuro chegará. Agora, estamos aqui.

      Gostava de possuir essa clareza. Daqui a pouco, hei-de desligar o computador, estas palavras encaminham-se para a última. Depois, os meus pensamentos ficarão apenas para mim. No entanto, ainda aqui, não consigo deixar de me sentir diante de um lugar enorme que, neste momento preciso, me transcende. Esta noite, vou adormecer em África e tenho um continente de perguntas sem resposta à minha frente: que silêncio serei capaz de ouvir quando já tiver os olhos fechados à espera que o sono me cubra?

      Posso imaginar muito, conheço o cheiro da terra vermelha, conheço o vento, mas só quando chegar poderei saber ao certo. Em todas as vezes que lá estive, encontrei uma África diferente. É por isso que vou. Tenho os olhos prontos para ver, a pele pronta para sentir, os ouvidos, o paladar, o nariz. Tenho muita vontade e não me hei-de conter na hora de usá-la. Só não tenho pressa. O avião leva-me, mas é o tempo que leva o avião. E o tempo, já se sabe, é enorme, é imenso, muito maior do que aquilo que se pode controlar, como a natureza, como a vida inteira, como África.