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      CRÓNICA

      Paul French

      Ilustração de Rui Rasquinho

      O blaxploitation chega à Praia Grande – Cleopatra Jones and the Casino of Gold (1975) 


      No seu livro Hollywood Black, o historiador de cinema americano Donald Bogle escreveu: «Do nada, no início da década de 1970, surgiu um novo género de filme que deixou a indústria cinematográfica de pernas para o ar. Ninguém poderia ter antecipado o cinema Blaxploitation.»

      O público do início da década de 1970, habituado a actores negros em papéis fracos e subalternos e a actrizes negras que nunca passavam de empregadas ou vítimas, reagiu positivamente aos novos heróis – Shaft, Sweet Sweetback, Sper Fly – e também a uma nova heroína, Cleopatra Jones, «a Super Agente Mais Sexy de Sempre» (assim dizia o cartaz do filme). A actriz e modelo afro-americana Tamara Dobson, com 1,80 m de altura, a actriz principal mais alta de sempre em Hollywood, interpretou Cleo Jones, encarnando todas as capacidades de falar e usar armas dos heróis masculinos da Blaxploitation, mas com roupas selvagens e sensuais. Cleopatra Jones estreou em 1973, lutando contra os traficantes de droga que atacavam a sua comunidade local e os polícias corruptos de Los Angeles que trabalhavam com eles. Era divertido, Cleópatra era sexy, as piadas eram boas, as roupas sumptuosas, os carros de morrer e Cleo tinha um grande sentido de humor. O público – preto e branco – gostou do filme e de Cleo. O lucro dos estúdios esteve à altura.

      Depois, alguém – e não se sabe bem quem, as conclusões divergem – decidiu fazer uma sequela e levar Cleópatra Jones para Hong Kong e Macau. A Warner Bros estava interessada – um lugar exótico, um conjunto diferente de vilões e Cleo com bom aspecto e a dar pontapés. Também os lendários estúdios Shaw Brothers, de Hong Kong, estavam interessados em trabalhar com Hollywood e aproveitar todas as ondas da moda que pudessem, até mesmo o Blaxploitation, que não parecia ser uma opção natural para Run Run Shaw. Mas, na década de 1970, o estúdio estava a perder os êxitos de bilheteira para a Golden Harvest e precisava de ganhar algum dinheiro. Um franchise americano filmado em Hong Kong e Macau poderia fazer toda a diferença. E, assim, Cleopatra Jones chegou ao Oriente.

      A história é bastante simples. Dois dos agentes de Cleo, os irmãos Johnson, de fala acelerada e golpe de karaté a postos, são capturados em Macau pela “Dama do Dragão” (Stella Stevens), que dirige o Casino Dragon Lady, um casino de luxo de Macau. No andar de baixo desse casino, encontra-se o maior laboratório de heroína da Ásia. Em Hong Kong, à procura dos seus agentes, Cleópatra cruza-se com Mi Ling (interpretada por Ni Tien, uma actriz nascida em Xangai e trabalhando em Hong Kong) e o seu grupo de jovens motociclistas, adeptos do Kung Fu e bem-parecidos. Depois de uma boa perseguição de carro e de algumas lutas com muitos intervenientes em Hong Kong, dirigem-se para Macau.

      Acontece que a Dama do Dragão é uma americana branca, daí o facto de a Super Agente Cleo ter sido incumbida de a eliminar. Toda ela é maldade, mas o seu Casino Dragon Lady é muito cool, coberto de veludo vermelho e sedas, chinoiserie, roletas e (obviamente, dado o título) muito ouro. O trabalho sujo da Dama do Dragão é feito pelo seu capanga, Mendez, um assassino macaense e euro-asiático de fato feito à medida, enquanto ela se entrega aos gostos sáficos no seu harém de jovens mulheres.

      Cleópatra e Mi-Ling fazem uma entrada em grande no Casino Dragon Lady, cada uma com um milhão de dólares no bolso. Começam a apostar em grande – Cleo, claro, como estrela de Blaxploitation, aposta sempre no preto! Os apostadores do casino ficam pasmados – Cleo com um vestido dourado cintilante, Mi-Ling com um cheongsam incrustado de diamantes. É impossível que a Dama do Dragão (vestida de forma igualmente luxuosa) não dê por ela e sabe que veio atrás dos seus agentes – nas profundezas das masmorras da Dama do Dragão – e do seu negócio de narcóticos.

      A luta final é grandiosa – depois de uma perseguição pelas ruas de Macau (na verdade, um cenário de Hong Kong), o desfecho envolve motas, metralhadoras, muito kung fu e o Casino Dragon Lady a ser completamente destruído. A Dama do Dragão dá o melhor de si, mas é óbvio que nunca estará à altura de Cleópatra Jones.

      Valerão Cleopatra Jones e o Casino de Ouro 97 minutos do vosso tempo? «Foleiro», disse o New York Times em 1975. O filme não teve um bom desempenho nas bilheteiras, mas, sem dúvida, a moda do Blaxploitation já tinha passado em 1975. Na verdade, é um filme muito bom se o tratarmos como uma peça de época. Foi filmado no verão de 1974, em todo o seu glorioso exagero tecnicolor e de saltos altos. Tamara Dobson tem muita pinta, Ni Tien é um excelente ajudante, os irmãos Johnson não param de falar, as cenas de luta não são más e as acrobacias de carros e motas são impressionantes. É também uma boa maneira de ver a Hong Kong dos anos 70, uma vez que grande parte das filmagens foi efectuada nas imediações de Hollywood Road, nos Mid-Levels e em Kowloon. Infelizmente, todas as cenas de Macau são interiores, mas, mesmo para os padrões dos grandes casinos do cinema da Ásia Oriental, como o casino da Madame Gin Sling de Josef von Sternberg em O Gesto de Xangai (1941), o Club Obi Wan em Indiana Jones e o Templo Perdido (1984), o antigo clube nocturno de Zhang Yimou em Xangai Triad (1995), ou mesmo o Golden Dragon Casino de 007 em Skyfall (2012), o Dragon Lady Casino é muito especial!

      Pegue nas pipocas e vá pelas fantasias, as lutas e o Casino Dragon Lady. Mas fique para ver uma tempestade perfeita de modas cinematográficas dos anos 70 – Blaxploitation, pancadaria e exuberância, numa colaboração entre o excesso de Hollywood e as super acrobacias de Hong Kong, tudo num deslumbrante casino de Macau.

      Cleopatra Jones and the Casino of Gold está disponível no Youtube, Apple TV e Amazon Prime

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau