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Domingo, 14 de Abril, 2024
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      CRÓNICA

      Vintage Victorian style key engraving. Original from the British Library. Digitally enhanced by rawpixel.

      Dora Nunes Gago

      A chegada: no dorso do dragão

      Chega-se a Macau, a chamada “Las Vegas do Oriente”, depois de 27 horas de viagem, uns emplastros nas costas, curvada devido a fortes dores que começaram a habitar o corpo na véspera. Curvada sob o peso do futuro, da incerteza, da dor teimosa, das malas. Noite avançada, fim dos festejos do Ano Novo Chinês, conhecidos por implicarem a maior movimentação de pessoas do planeta. Chego montada no dorso do Dragão. Procuro, receosa, alguma torre onde possa ficar cativa, mas o que vejo é o turbilhão de gente, de malas. Ao contrário do bafo quente das visitas anteriores, desta vez é a humidade fria que me lambe a pele, que se me cola aos ossos. Um frio que, contrariamente ao que é normal, se prolongará até Abril, agasalhado por nuvens de aço. Também ainda não sei que em fins de Março verei uma nesga de céu azul durante meia hora e ficarei pasmada a olhar para cima, até essa pequena fresta ser devorada pela boca cinzenta das nuvens. Saberei que também a solidão é feita de um aço frio, afiado, que ceifa os dias como se fossem searas.

      No átrio do terminal reina o caos, não há sequer tapete rolante. As malas chegam empilhadas em contentores e uma massa de gente atira-se contra elas, como enxame a árvore florida. Afasto-me da confusão para não ser esborrachada pelos passageiros sedentos das suas bagagens, num apurado sentido de civismo que faz empurrar, espezinhar, como se o “outro” fosse transparente. No meio da turba, reconheço um rapaz muito alto, vindo no meu voo, e suponho que a minha mala talvez esteja perto das dele. Tomo-o como minha bússola e resulta. Resgatada a pesada mala, rastejo para mais de uma hora na fila para o táxi, dissolvida no meio de uma multidão. Entretanto, a adrenalina (ou a naftalina, como disse um dia um certo jogador de futebol) a subir, com a incerteza, o receio de não ser entendida pelo taxista. Trago o nome da Universidade escrito em caracteres chineses, o mapa assinalado, a foto, enfim, que mais poderia trazer? Como sempre, ninguém à minha espera.

      Desta vez, vou ficar alojada num apartamento na Universidade. Pergunto-me se à uma da madrugada conseguirei encontrar e comunicar com o mítico segurança incumbido de me dar a chave. Bem podia apanhar boleia no dorso do tal Dragão, sempre poupava tempo. Chega a minha vez, os desenhos, os caracteres e fotografias resultam. O táxi deixa-me na Universidade, junto a uma escadaria, mas sem qualquer vestígio da cabine do tal guarda. Ainda peço indicações a uns rapazes, provavelmente estudantes, com quem tento comunicar em inglês, sem resultado, depois por gestos. Eles, muito desconfiados com o meu desesperado teatro, terão percebido tudo ao contrário e indicam-me que suba a escadaria – proeza notável, após mais de um dia de viagem, muitas horas sem dormir, dores nas costas e… uma mala com mais de 25 kgs. A parte positiva é que, do ponto mais alto, consigo ver a tal cabine onde se aloja o guarda, na parte de baixo. Deslizo pela escada, novamente com a “naftalina” no auge, desta vez a tentar prever como comunicar com o guarda, explicar-lhe que quero a chave de um apartamento. Quantas ocidentais estranhas lhe irão pedir uma chave às duas da madrugada? Em desespero, gesticulo, tentando falar todas as línguas aprendidas e imaginadas, na esperança de lhe acender a luz do entendimento. De repente, caído do céu, talvez à boleia do dito Dragão, aparece o secretário do departamento de Português, que pede a chave e me acompanha ao apartamento.

      Desta vez, não há sequer nenhuma couve, nem alface com as quais possa lutar de fachis em riste. Mas há uma chaleira e pacotes de chá. Encho-a de água, acendo o fogão. Vou para o quarto enviar mensagens para dar sinais de vida à família, aos amigos mais próximos. De súbito, ouço buzinar e penso que talvez sejam ainda as comemorações ou algum protesto. Mas… de madrugada? Enfim, são hábitos. A buzina continua, cada vez mais estridente, numa histeria descontrolada com cheiro a queimado. Corro para a cozinha. A chaleira envolta numa nuvem de fumo negro arde, como se o meu amigo Dragão tivesse ali entrado, fazendo das dele. Nem por um momento me ocorreu que as chaleiras apitam quando a água ferve, nem que o buzinão podia acontecer ali, junto a mim, dentro do apartamento. E perguntei-me: quantas vezes procuramos lá fora as causas ou as soluções para os problemas que, afinal, se desenrolam apenas dentro de nós, das nossas próprias “cozinhas” interiores?

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau