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      InícioSociedadeFórum Macau é uma instituição “sem efeito real”

      Fórum Macau é uma instituição “sem efeito real”

      A professora de Economia do Instituto Superior de Economia e Gestão, Fernanda Ilhéu, defende que Macau deve procurar uma alternativa para a sua economia e que a definição de uma zona de comércio livre Macau/Hengqin e países de língua portuguesa pode ser o futuro.

       

      E se, de um dia para o outro, os casinos deixarem de operar? É a pergunta que a economista Fernanda Ilhéu faz, no seu trabalho “O modelo de sustentabilidade económica de Macau/Hengqin e os países de língua portuguesa”, apresentado nas Conferências da Primavera 2024, promovidas pelo Centro Científico e Cultural de Macau, entre 7 e 20 de Março, em Lisboa.

      Para a docente, a descida do PIB per capita, durante a pandemia de COVID-19, levantou algumas dúvidas sobre o futuro do território. Em 2019, o PIB per capita ascendia a 82.000 dólares norte-americanos, ao passo que em 2022 se situava nos 32.000 dólares norte-americanos. Ainda que com “reservas financeiras” que lhe permite funcionar durante muito tempo, incluindo durante a pandemia de COVID-19, o território tem fragilidades económicas, além de outras. “Um território que vive do jogo, tem debilidades sociais importantes”, acrescenta. “Não é a sustentabilidade económica a única que interessa, a social também.”

       

      Macau de fora das relações comerciais entre a China e os PLP

       

      Olhando para a história do território, Macau começou por ser um entreposto comercial, servindo como intermediário entre a China e outros países. Porém, com o aparecimento e posterior desenvolvimento da indústria do jogo, sobretudo a partir de 1999, a economia do território ficou totalmente dependente deste sector.

      Desde então, têm-se procurado alternativas para a economia, já que, “para a China, dentro dos princípios que defende, será um embaraço enorme ter um território com jogo, mas, se acabarmos com o jogo, Macau vai ao fundo.” Foi assim que se criou o Fórum Macau, em 2003, para acentuar o papel do território enquanto plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, mas, conforme se tem visto com o passar do tempo, “sem efeito real”.

      Ainda que, desde que o Fórum Macau foi criado, em 2003, tenha havido grande aumento no volume de negócios entre a China e os países de língua portuguesa, segundo a economista “nada disso tem a ver com Macau”. Aliás, “grande parte deste negócio é o Brasil que faz”, esclarece, acrescentando: “O nível de investimento acumulado de 2012 a 2023, da China e dos países de língua portuguesa, subiu para 129 mil milhões de dólares norte-americanos, mas o investimento não passa por Macau.” Apesar de a China apoiar o papel de Macau enquanto intermediário, não é no território “que se fazem os negócios” e a RAEM “não beneficia nada desta relação comercial entre a China e os países de língua portuguesa”.

      Na verdade, para Maria Fernanda Ilhéu, estas relações comerciais funcionam bem a dois, mas a triangulação não tem resultado. “Esta ideia de casar investidores portugueses com a China e os países de língua portuguesa não tem tido sucesso — o maior sucesso são os investimentos que uma China faz numa Mota-Engil e, como parceira, consegue fazer esta triangulação [com outros países]”, conclui.

       

      Um caminho possível

       

      “Que modelo se pode então encontrar para o desenvolvimento de Macau? Poderá Macau criar alguma riqueza nesta plataforma?”, pergunta a economista.

      Para chegar à resposta, a também presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda recorda que a República Popular da China criou zonas de comércio livre, dentro de um sistema económico aberto, com grande impacto. “Por exemplo, Shenzhen era uma aldeia de pescadores, e foi uma zona com grande desenvolvimento”, explica a economista.

      Em 2013, o Governo Central lançou a Nova Rota da Seda (Uma Faixa, Uma Rota – BRI), um projecto de infraestrutura e desenvolvimento para revitalizar as antigas rotas comerciais da Rota da Seda, que visa a “constituição de networks de zonas de comércio livre”, numa perspectiva de “cooperação para o desenvolvimento, pretendendo complementaridades e vantagens competitivas”.

      Olhando para o plano de desenvolvimento quinquenal de Macau, diz a economista, para além de o Fórum Macau ali continuar integrado, defende-se tambéma integração da RAEM na estratégia Uma Faixa, Uma Rota e a construção de plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa”, salienta, acrescentando: “Em 2018, foi assinado um acordo de cooperação para a construção da BRI [Uma Faixa, Uma Rota] com a RAEM – criar uma rede das zonas de comércio livre com as necessárias infraestruturas, coordenação política entre o Governo e desimpedimento de barreiras ao comércio livre, instituição de fontes de financiamento e cooperação entre os povos.”

      Mas para isto suceder, Macau tem de criar estas condições para esta rede. “Tem de criar uma base de operações processamento industrial, distribuição e marketing para produtos provenientes dos países de língua portuguesa ali acrescentarem valor e entrarem na China utilizando o acordo CEPA, entrando nos países da ASEAN [Associação das Nações do Sudeste Asiático], estabelecendo acordos bilaterais de comércio”, diz. Ainda assim, continua a faltar o essencial: espaço e mão-de-obra disponível.

       

      Macau como potencial centro de comércio

       

      No que toca à sustentabilidade económica, para um país ou região ser competitivo globalmente, o que é que tem de acontecer? Têm de ser centros de pensamento, centros de indústria e/ou centros de comércio. “Um centro de pensamento é especializado em conceitos, atrai cérebros, tem uma vantagem competitiva na inovação”, explica. Por outro lado, “os centros de indústria são especializados em competências de execução, que se podem distinguir ou por serem de custos muito baixos ou por serem de padrões de qualidade muito elevados, tecnologias avançadas.” Finalmente, os centros de comércio são especializados em relacionamentos, facilitando movimentação de bens e serviços entre países.

      Para Fernanda Ilhéu, Macau dificilmente poderá ser um centro de indústria, por não ter competências específicas para isso, nem um centro de pensamento, por faltar um determinado tipo de pessoas no território. Mas poderá ser um centro de comércio. “Macau é uma zona de comércio livre e pode apoiar a criação de zonas de comércio de livre em Hengqin e nos países de língua portuguesa”, destaca. Afinal, Macau tem a experiência e tradição nesse campo.

      Não propondo uma solução, Fernanda Ilhéu termina a sua apresentação, referindo que o objectivo foi traçar uma visão de caminho para o futuro do território e que espera que mais investigação seja feita nessa direcção.