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      UM e USJ recebem visita de sobrevivente de campo de concentração com projecção de documentário

      Andrei Iwanowitsch, um dos últimos sobreviventes de um campo de concentração nazi, vai estar hoje na Universidade de São José e na Universidade de Macau para acompanhar as duas sessões de projecção de “Ja, Andrei Iwanowitsch”, do realizador Hannes Farlock. O documentário retrata as histórias e força de vida de um dos últimos sobreviventes do campo Buchenward, que tem agora 97 anos e goza de uma vida plena de saúde, “contentamento e paz”.

       

      Hoje, pelas 9h30 na sala 604 do Campus da Ilha Verde da Universidade São José (USJ), e mais tarde, às 15h, na sala E4-1063 da Faculdade de Letras da Universidade Macau (UM), será projectado o documentário “Ja, Andrei Iwanowitsch”, a primeira longa-metragem documental de Hannes Farlock. O realizador alemão estará presente nas duas sessões, servindo também de tradutor e acompanhante do próprio protagonista do documentário, o sobrevivente de um campo de concentração, Andrei Iwanowitsch, que viajou de Minsk, Bielorrússia, até Hong Kong e Macau, apesar dos seus avançados 97 anos.

      Os organizadores da iniciativa referiram no documento promocional da projecção na UM que é “uma honra” receber pessoalmente Andrei Iwanowitsch, o “herói do filme”, e um dos últimos sobreviventes do campo de concentração de Buchenwald.

      Ao PONTO FINAL, o professor Glenns Timmermans, que colaborou na organização da palestra e projecção na UM, esclareceu que foi por iniciativa do realizador que Andrei Iwanowitsch vem à região, estando também previstas visitas a escolas e universidades em Hong Kong. “Como ele na verdade nunca viajou pelo mundo, o Hannes decidiu que embora ele tenha 97 anos, está em boa forma, e decidiu trazê-lo a Hong Kong”. Foi nessa sequência que surgiu a oportunidade de ele vir a Macau, uma oportunidade rara e surpreendente, já que é “impressionante” que um individuo com uma idade tão avançada possa estar em tão boa posse das suas capacidades, comentou de forma espirituosa Timmermans.

      Na sessão da UM, depois de ser apresentado o filme, haverá uma secção de perguntas e respostas que contará com a participação de alunos e académicos daquela instituição académica, assim como alguns membros da comunidade russa em Macau, já que o convidado de destaque nasceu na República Socialista Soviética da Ucrânia e actualmente reside em Minsk, na Bielorrússia.

      Timmermans, que já foi responsável por um evento que trouxe outro sobrevivente do holocausto a Macau, quis esclarecer que há uma diferença no caso de Andrei Iwanowitsch, já que este, em termos concretos, não é um sobrevivente do holocausto, porque não é judeu. “Como bem sabemos, os prisioneiros soviéticos de guerra foram também muito mal tratados pelos alemães, e havia muita gente nos campos de concentração, e o Andrei, como muitos, esteve em campos de trabalho forçados e era um prisioneiro de guerra russo”. De resto, no documentário, o protagonista é surpreendentemente “honesto” e refere-se a coisas como a sua vida sexual, o seu casamento, e outros pormenores da sua vida quotidiana, algo que contrasta com a ideia que possamos ter de um documentário do género, referiu Timmermans.

      Sobre a participação dos estudantes universitários de Macau, o académico conjecturou que vai haver pontos de ligação entre a história contada por Hannes Farlock e as histórias que estudantes ouvem de familiares seus que testemunharam a revolução cultural chinesa, e das dificuldades passadas durante o regime de Mao. “Ensino o Holocausto aos meus alunos, e muitas vezes eles referem-se às avós e às histórias que contaram sobre os japoneses, e a fome que passaram nos anos cinquenta, por isso acho que se vão relacionar com o Andrei mais do que se possa imaginar, especialmente os alunos do interior da China”, destacou. “Eles são muito abertos a novas ideias e curiosos sobre o mundo, ainda mais do que os alunos de Macau”.

      O documentário foi filmado entre 2016 e 2018 por Hannes Farlock, que é delegado e representante principal da Câmara de Indústria e Comércio da Alemanha em Hong Kong desde 2022. Natural de Erlangen, na Alemanha, o realizador fez o seu serviço civil em Cracóvia, na Polónia, onde cuidou dos últimos sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz. Foi aí que conheceu Andrei Iwanowitsch. Este estava a preparar-se para uma viagem à Alemanha, e queria aprender alemão, e por isso começou a encontrar-se com Hannes Farlock com maior frequência para praticar a língua. “Quanto melhor nos conhecíamos ao longo destes anos, quanto mais ele revelava coisas sobre si próprio, a sua vida, as suas crenças e sentimentos, mais me fascinava. Acabei por entender que era uma obrigação, uma necessidade e uma oportunidade maravilhosa fazer uma crónica de tudo isto. Não queria fazer mais um filme sombrio e didáctico sobre testemunhas contemporâneas dessa época. Queria criar algo próximo da vida, algo que reflectisse o espírito sereno e firme desejo de viver de Andrei”, partilhou Hannes Farlock.

      Apesar da notável idade, Andrei mantém-se “saudável e em forma”, com o  documentário a revelá-lo a viver uma “vida de contentamento e paz”, onde “cultiva o seu jardim, brinca com os vizinhos, trabalha, estuda e tem uma vida amorosa activa”. Andrei é um dos últimos sobreviventes do campo de concentração de Buchenwald. Primeiro foi enviado para um campo de trabalhos forçados em Leipzig, colocado numa prisão da Gestapo, sendo depois deportado para Buchenwald em 1944. Era o prisioneiro número 19.852.