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      Morreu Nuno Júdice, poeta e ensaísta que se aproximou da poesia chinesa

      Morreu no domingo o poeta, ensaísta e professor universitário Nuno Júdice. Ao PONTO FINAL, Yao Jingming, que traduziu a obra do poeta e o trouxe à Ásia, assinala a reflexão humana presente nos seus poemas e lembra a proximidade de Júdice face à poesia chinesa. Felipe de Saavedra recordou o “furacão no campo dos estudos camonianos” em que Nuno Júdice se viu envolvido.

       

      Nuno Júdice morreu no domingo, em Lisboa, aos 74 anos. O poeta, ensaísta, ficcionista e professor universitário é recordado pela sua reflexão sobre a condição humana e sobre a própria poesia. A China também fez parte do seu percurso.

      A notícia foi avançada no domingo pela editora Dom Quixote, que, numa nota divulgada à imprensa, afirmou: “Foi com profundo pesar e sentida consternação que na Leya e principalmente na Dom Quixote tomámos conhecimento da triste notícia do falecimento de Nuno Júdice, hoje [domingo], em Lisboa, vítima de doença. Uma notícia que abalou todos os que trabalharam mais de perto com Nuno Júdice mas, com toda a certeza, todos os seus muitos leitores e admiradores. E que sem dúvida deixa mais pobre a literatura e a poesia portuguesas”.

      Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande, em Portimão, no distrito de Faro, em 1949. Foi professor associado da Universidade Nova de Lisboa, instituição onde se doutorou em 1989 com a tese “O espaço do conto no texto medieval”.

      Poeta, ensaísta e ficcionista, Nuno Júdice foi, até 2015, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Júdice desempenhou o cargo de director da revista literária Tabacaria (1996-2009) e foi comissário para a área da Literatura da representação portuguesa na 49.ª Feira do Livro de Frankfurt. Desempenhou funções como conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris (1997-2004) e director do Instituto Camões na capital francesa. Organizou a Semana Europeia da Poesia, no âmbito da Lisboa’94 – Capital Europeia da Cultura, e dirigiu a Revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian.

      Literariamente, estreou-se em 1972 com o livro de poesia “A Noção de Poema”. Ao longo da carreira literária, Nuno Júdice foi distinguido com diversos prémios, entre os quais o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, em 2013, o Prémio Pen Clube, o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus. Recebeu também o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, por “Meditação sobre Ruínas”, finalista do Prémio Europeu de Literatura.

       

      YAO JINGMING RECORDA LIGAÇÃO À POESIA CHINESA

       

      “É uma grande perda para a literatura e para a poesia de Portugal, bem como para a própria língua portuguesa”, afirmou Yao Jingming ao PONTO FINAL. O tradutor e também poeta traduziu para chinês uma primeira antologia de poemas de Júdice, em 2018, e, em 2022, traduziu uma segunda antologia, intitulada “O Peso do Mundo”. Além disso, Yao Jingming recomendou Nuno Júdice para o “1573 – Prémio Internacional de Poesia” atribuído ao poeta em Sichuan, em 2018.

      Por outro lado, Yao Jingming também teve um papel de destaque na vinda de Júdice à Ásia, tendo indicado a Bei Dao o nome do poeta português para participar na edição de 2018 do International Poetry Nights, em Hong Kong, iniciativa organizada pelo conhecido poeta chinês. “Bei Dao leu os poemas que lhe mostrei e decidiu convidá-lo. Foi assim que ele veio a Hong Kong”, indicou Yao, acrescentando que, logo depois, Júdice seguiu viagem para Wuhan, no interior da China. Lá, Nuno Júdice conheceu e tornou-se amigo do escritor chinês Jidi Majia. Mais tarde, Júdice viria a traduzir textos de Jidi. “Nuno Júdice tem uma ligação muito forte com a poesia chinesa”, sublinhou Yao Jingming.

      Sobre a sua obra, Yao descreve-a como uma “reflexão sobre a humanidade e sobre a existência do ser humano no mundo”. “Gosto mais dos poemas que ele escreve sobre acontecimentos da vida quotidiana. Usa uma linguagem simples, mas que permitem uma reflexão bastante profunda”, notou, assinalando que traduzir a sua obra foi “um desafio muito difícil”.

       

      O FURACÃO CAMONIANO E O CONGRESSO EM MACAU

       

      Felipe de Saavedra, coordenador da Rede Camões na Ásia e África e professor na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla em inglês), recordou ao PONTO FINAL o “furacão no campo dos estudos camonianos” que teve Nuno Júdice no epicentro.

      Em 2022, o poeta leu em público o soneto “Se Misericórdia e amor não vos atara”, que tinha encontrado no Cancioneiro de Manuel de Faria, e, numa entrevista, aventou a hipótese de este soneto se encontrar ainda inédito, sugerindo que deviam ser os camonianos a pronunciarem-se sobre isso. No entanto, as declarações precipitaram notícias falsas que diziam que Nuno Júdice tinha recuperado um soneto inédito de Camões.

      Contudo, o soneto em causa já tinha sido publicado três vezes e Felipe de Saavedra avisou, de forma privada, Nuno Júdice. “Mas os jornais de Portugal e do Brasil não se calavam com a notícia do singular achado, que tomou proporções tais que assustaram o Nuno. Quem alimentava a contestação era uma facção de supostos especialistas que defendia, contra toda a sensatez, que não existem mais poemas de Camões para resgatar e acrescentar à obra dele”, comentou Saavedra, acrescentando: “Tornava-se, pois, absolutamente necessário provar a existência de inéditos e tirar o Nuno daquele imbróglio em que o tinham metido. Conhecedor das minhas convicções sobre este assunto, ele lembrou-se de um velho manuscrito na Real Biblioteca da Ajuda onde jazia perdido um outro poema de Camões, este sim inédito, que em tempos ele tinha passado à Fiama para ela trabalhar, porém ela não conseguira fazer nada com aquele texto de teor teológico”.

      Nuno Júdice pediu, então, para que Felipe de Saavedra fosse buscar o manuscrito. “Assim fiz, e com os elementos que ele me deu redescobri essa joia de Camões identificada por ele anos antes, e que era um belíssimo vilancete sacro: ‘Duas grandes maravilhas / Vede se viu criatura'”. Nuno Júdice acabou por publicar um texto também com a leitura paleográfica de Saavedra.

      Depois disso, “o Nuno pôde então responder nos jornais que a circunstância do soneto não ser inédito já a conhecia ele” e que “havia realmente um inédito, mas não era um soneto e sim um vilancete”.

      Já este ano, Nuno Júdice foi convidado para participar no Congresso do Meio Milénio de Camões em Macau que se realizou no final de Fevereiro, organizado pela Rede Camões na Ásia & África. A saúde já não permitiu que Júdice viesse a Macau nessa ocasião, o que “lhe causava um enorme desgosto, dado que também ele amava a nossa bela princesa da Ásia”, contou Saavedra. Ainda assim, assistiu à sessão virtual do congresso e terá sido a última vez que apareceu em público.

      “Despediu-se das letras em ambiente camoniano. E eu gostaria muito que, lá para onde ele foi, possa encontrar-se com o nosso Camões”, terminou Felipe de Saavedra.

       

      Marcelo Rebelo de Sousa lembra “autor decisivo numa época de transição da poesia portuguesa”

       

      O Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou ontem a morte de Nuno Júdice, lembrando-o como “um autor decisivo numa época de transição da poesia portuguesa”. Numa nota publicada na página da Presidência da República, o chefe de Estado recordou que Júdice, “sendo um dos mais prolíficos poetas portugueses, e um dos mais traduzidos, era o mais reconhecido internacionalmente”. “A sua obra poética e o trabalho de décadas em diferentes instituições foram um contributo maior para a singularidade, o cosmopolitismo e a projeção da literatura portuguesa”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, no mesmo texto, que endereça o seu pesar à família, em particular à mulher, Manuela Júdice.

       

      Personalidades da cultura prestam homenagem ao poeta

       

      A morte do poeta Nuno Júdice foi assinalada por diversas personalidades e instituições ligadas à cultura portuguesa, que destacaram a sua importância na poesia contemporânea. Numa mensagem publicada na rede social X, o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, lamentou a morte do também ficcionista, ensaísta e professor, sem deixar de manifestar o seu pesar à família, aos amigos e aos alunos. “Atingiu particular reconhecimento pela sua obra poética, marcada por uma linguagem lírica e por profunda introspecção, tendo recebido numerosos prémios literários nacionais e internacionais. Além do conjunto dos seus livros, Júdice deu também uma contribuição decisiva para o debate cultural no nosso país desde o final dos anos 1960, sendo um destacado académico e crítico literário”, pode ler-se na nota partilhada pelo Ministério da Cultura. Já o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, recorreu à mesma rede social para declarar “muito triste a notícia da morte de Nuno Júdice, um dos grandes poetas contemporâneos em língua portuguesa”, expressando ainda a sua solidariedade à família. Entre as personalidades que já manifestaram a sua tristeza pela morte de Nuno Júdice está também o antigo ministro da Cultura João Soares, que recordou, através de uma mensagem publicada no Facebook, a amizade e a inteligência do poeta. “Era alguém de grande cultura e inteligência. Deixa uma obra notável sobretudo de poesia, mas não só”, referiu, acrescentando: “Perdemos um dos mais notáveis intelectuais do nosso tempo. À sua mulher, seus filhos, e família mais chegada deixo aqui testemunho do meu muito sentido pesar”. A Fundação José Saramago lembrou na rede social X o percurso de Nuno Júdice enquanto membro do seu conselho de curadores e lamentou “profundamente” a morte do poeta. Também nesta plataforma, a presidente desta fundação, Pilar del Rio, evocou não só o papel de Nuno Júdice na poesia, mas sobretudo “um amigo insubstituível, um sábio silencioso”, salientando a atribuição do prémio de poesia Rainha Sofia, entre outras distinções.

       

      Grupo Leya lamenta “dia muito triste para a cultura portuguesa”

       

      O director-geral do grupo Leya, Pedro Sobral, lamentou a morte do poeta Nuno Júdice, considerando que se trata de um “dia muito triste para a cultura portuguesa”. Em declarações à Lusa, após ser conhecida a morte do poeta, aos 74 anos, Pedro Sobral admitiu a sua tristeza e “um grande choque” com a notícia, destacando o homem além do poeta, ficcionista e ensaísta. “É uma grande tristeza, porque o Nuno Júdice, além de ser um poeta e ficcionista extraordinário e que marcará a literatura e a cultura portuguesa, era, acima de tudo, um homem extraordinário. Acho que tocou todos os que trabalharam com ele, era um homem muito cordato, gentil, discreto, mas um cavalheiro”, afirmou. Sublinhando que “a obra fala por ele”, numa carreira que se prolongou por mais de 50 anos, Pedro Sobral assinalou “a sensibilidade”, bem como “a própria melancolia da sua poesia”, e realçou a experiência pessoal enquanto membro do júri do prémio Leya. “De facto, era um prazer estar com ele, uma alegria imensa, por esta forma discreta, algo tímida, mas sempre com a palavra certa e muito ponderado, um saber à volta da literatura. A sua interpretação dos textos que iam àquele júri era absolutamente extraordinária, era um deleite ouvir o Nuno Júdice a fazer a sua interpretação dos originais que vinham ao júri”, frisou. Questionado sobre o legado que Nuno Júdice deixará na cultura portuguesa, o director-geral da Leya e actual presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) preferiu evocar a faceta do poeta enquanto professor. “Acho que o Nuno trouxe uma nova forma de escrever poesia durante todos estes anos. É um legado que certamente ficará, mas não nos podemos esquecer de que o Nuno Júdice foi professor durante muitos anos”, disse, continuando: “Muitas pessoas que nos iam bater à porta eram tocadas por aquilo que o Nuno Júdice ensinou, pelo entusiasmo e pela forma muito comprometida com a poesia em língua portuguesa”. Para Pedro Sobral, o legado de Nuno Júdice passará pelos “milhares de alunos que tocou e a quem passou o gosto pela poesia”, tanto no ensino secundário, como no ensino superior. “É um género relativamente esquecido e que não tem muitos leitores em Portugal, infelizmente. Se há algo que o Nuno Júdice conseguiu fazer – quer como poeta, quer como professor – foi formar muito a sensibilidade para a leitura da poesia, nomeadamente da poesia em língua portuguesa. Acho que este é o grande legado dele”, concluiu.