Edição do dia

Domingo, 21 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva moderada
25.9 ° C
26.9 °
25.9 °
94 %
5.7kmh
40 %
Dom
25 °
Seg
25 °
Ter
25 °
Qua
25 °
Qui
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCultura“Mulheres conseguem falar, falar suavemente, mas são poderosas como os homens”

      “Mulheres conseguem falar, falar suavemente, mas são poderosas como os homens”

       

      A escrita é um processo de mergulhar fundo na nossa psique e, portanto, nem sempre é um processo fácil, defende Sonia Leung, poetisa de Hong Kong. A autora, que dedicou uma década a escrever e publicar a sua autobiografia, chamou a atenção do público às produções das escritoras e disse ser necessário dizer ao mundo que “estamos aqui e somos importantes”. Na sessão “Da Escrita Feminina à Auto-Afirmação” do Festival Literário Rota das Letras, as autoras Jojo Wong, Li Wenli e So Manlin abordaram também as dificuldades e desafios da escrita feminina.

       

      Os múltiplos papéis que as mulheres desempenham na sociedade, tanto como a independência do pensamento e da capacidade financeira, poderão ser os maiores desafios para as mulheres escritoras no tempo contemporâneo. Jojo Wong, autora de Macau, assumiu que as escritoras têm sempre de “pagar mais” para seguir o caminho [literário] que desejam devido às suas diversas identidades, enquanto Sonia Leung, poetisa de Hong Kong, descreveu que a criação literária feminina “não é um processo fácil”, mas é importante dizer ao mundo que “as mulheres conseguem falar, falar suavemente, mas são poderosas como os homens”.

      O tema da criação literária das mulheres foi abordado no painel “Da Escrita Feminina à Auto-Afirmação” que se realizou no sábado, no Festival Literário – Rota das Letras, sessão moderada por Zhu Ying, académica de literatura, com autoras convidadas que incluíram Jojo Wong, Sonia Leung, Li Wenli e So Manlin.

      “A escrita leva tempo. Como uma mulher, tem muitas identidades, como uma filha, uma esposa, uma mãe e uma nora nas relações familiares, uma gestora no meu escritório, também uma autora individual”, explicou Jojo Wong, salientando que a situação “é muito difícil para uma criadora”, e que “não se pode percorrer o caminho que se deseja a não ser que tenha todas as coisas bem realizadas. Há seis papéis sobre mim, tenho de pagar seis vezes mais os valores para alcançar a meta”.

      Ao falar sobre as dificuldades na carreira enquanto escritora, Sonia Leung apontou que muitas de autoras estão frequentemente a serem acusadas quando escrevem “algo um pouco mais profundo” delas próprias.

      “É muito fácil para o mundo afastar-nos e dizer que ‘aquilo são os teus problemas pessoais’, ou ‘as mulheres são apenas emocionais’, e não nos levarem a sério”, disse. Preste a lançar o livro ‘The Girl Who Dreamed: a Hong Kong Memoir of Triumph Against the Odds‘, Sonia Leung conta a sua experiência de uma violação, da migração para Hong Kong e de fugir da casa, onde não se sentia amada, para Taiwan.

      Sonia Leung deu o próprio exemplo de ter demorado dez anos para escrever a sua autobiografia e publicá-la, sublinhando que as mulheres também são dignas de escrever. “Precisamos de mulheres, escritoras como nós, para lançar mais livros e continuar a bater à porta das editoras e lembrá-las que estamos aqui e que somos importantes”, frisou.

      Na perspectiva de Leung, para a criação literária o escritor precisa de “mergulhar profundamente na sua psique” e “de tirar toda a sujidade dentro de si”, mas admitiu que a experiência real de uma pessoa é sempre a melhor matéria das obras literárias.

      Além das responsabilidades na sociedade e do olhar dos outros, as autoras lembraram a obra ‘A Room of One’s Own’ da escritora modernista inglesa Virginia Woolf, e enfatizaram que a independência a nível mental e económico é igualmente crucial para o desenvolvimento de uma escritora.

      “A escrita é uma auto-cura. Descobrimo-nos a nós próprias através da escrita e depois reflectimos sobre a sociedade”, observou So Manlin, autora de Hong Kong. “O género e a consciência são coisas incutidas em nós. Somos ensinadas como é uma mulher ou como é um homem”, disse So Manlin, concordando com a importância de as mulheres terem mais voz no público.

      Já Li Wenli, artista autodidacta e escritora sediada em Pequim, partilhou a sua experiência de iniciar a criação literária, afirmando que a escrita é um caminho da sua auto-afirmação. Nascida numa aldeia de onde seguiu para Pequim para trabalhar como trabalhadora doméstica, Li Wenli disse que tinha medo de falar porque sentia que a sua profissão era humilde.

      No entanto, a escrita tornou a sua vida muito mais significativa. “A literatura salvou-me. Sinto que há luz na minha vida, e isso aquece-me, estando muito mais auto-confiante”. “Estou em Macau pela primeira vez, e só através da literatura consigo ter a oportunidade de andar fora do ciclo da minha vida quotidiana”, assinalou.