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      Camões no Rota das Letras: As dúvidas sobre o poeta e uma nova teoria para a sua data de nascimento

      Luís de Camões foi um dos temas centrais do primeiro fim-de-semana do Festival Literário Rota das Letras. Na sessão “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões”, Kenneth David Jackson, Fido Nesti e Felipe de Saavedra falaram sobre o que se sabe e o que ainda está por saber sobre a vida e obra do poeta. Saavedra chegou mesmo a avançar uma nova data para o nascimento de Camões: 25 de Fevereiro de 1525.

       

      “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões” foi o nome do painel que se realizou no sábado, no âmbito do Festival Literário Rota das Letras, e que procurou dar resposta a algumas das dúvidas que subsistem acerca do poeta, por exemplo, no que toca às diferenças entre cada edição e aos estudos camonianos. A sessão foi moderada por Sara Augusto e teve a participação de Kenneth David Jackson, Felipe de Saavedra e Fido Nesti, que ontem também apresentou “Os Lusíadas em Quadrinhos” [ver página seguinte].

      Uma das grandes questões relacionadas com o poeta é a sua data de nascimento. No final do ano passado, um grupo de cientistas da Universidade de Coimbra chegou a uma possível data de nascimento através da interpretação de uma passagem da obra de Camões e do estudo de efemérides astronómicas. A estrofe em causa é: “O dia em que eu nasci, morra e pereça/Não o queira jamais o tempo dar/Não torne mais ao mundo e, se tornar/, Eclipse nesse passo o Sol padeça”. Isto levou a que este grupo de investigadores, com base no estudo astronómico e da ocorrência de eclipses, a dizer que a data de nascimento do poeta foi 23 de Janeiro de 1524.

      No entanto, Felipe de Saavedra, especialista em Camões e coordenador da Rede Camões na Ásia e África, refutou a teoria e adiantou que, segundo os seus cálculos, Camões nasceu a 25 de Fevereiro de 1525.

      Saavedra disse, na sessão de sábado do Rota das Letras, que o eclipse de 23 de Janeiro de 1524 não foi sequer visto na zona de Lisboa, onde Camões terá nascido. Por sua vez, houve um outro eclipse, a 25 de Fevereiro de 1525, e terá sido esse a marcar o nascimento do poeta. O historiador baseou a teoria em registos de eclipses da NASA e indicou que, no futuro, irá apresentar os seus cálculos detalhados.

       

      TROPEÇÕES E ALTERAÇÕES NAS EDIÇÕES DE “OS LUSÍADAS”

       

      Outra das questões levantadas na sessão de sábado foi a das diferenças entre as primeiras edições de “Os Lusíadas”. Kenneth David Jackson, professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Yale e autor de uma compilação das primeiras edições da obra, falou sobre o tema e assinalou que, “em todos os livros impressos naquela época havia mudanças inconcebíveis”. “Não há exemplares iguais. Só no caso de ‘Os Lusíadas’, houve mais ou menos, depois dos primeiros volumes, 15 ou 20 impressões”, completou.

      A primeira edição de 1572 teve duas edições e ambas impressas por António Gonçalves. No entanto, com o tempo, foram surgindo mais. Terá sido contrafacção? “Contra quê?”, brincou Kenneth David Jackson, defendendo que todas seriam da autoria de António Gonçalves, devido aos elementos em comum que cada uma delas tinha. As mudanças em cada uma das versões são explicadas como “tropeções e mudanças no caminho”. Felipe de Saavedra concordou, dizendo que “o grosso ou até a totalidade” das edições da época seriam da autoria de António Gonçalves, salientando que “não há duas [edições] iguais, como qualquer livro da época”.

       

      FALTA DE ESPECIALISTAS

       

      A falta de especialistas na obra de Camões também foi falada nesta sessão do Festival Literário. Kenneth David Jackson, que fez o Doutoramento na Universidade de Wisconsin com Jorge de Sena, afirmou que “é difícil Camões entrar nos estudos renascentistas dos EUA por falta de especialistas”. “Os grandes especialistas são pessoas do passado, espero que o quadro mude. Camões não está a ser celebrado nos EUA por falta de especialistas e leitores”, referiu o professor universitário.

      Saavedra, que lecciona na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, sublinhou o interesse que os alunos que estudam no ensino superior de Macau têm na obra de Camões, nomeadamente os estudantes que vêm do interior da China: “Um dos pontos fortes da ligação que vão criando a Macau é a ligação a Camões. Cria-se uma dinâmica muito interessante. O coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, voltou a referir a necessidade de Macau estabelecer no território um centro interpretativo de Camões.