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      “Nem os homens nem as mulheres têm completa consciência de que temos traços machistas e patriarcais”

      O professor Pedro d’Alte apresenta mais logo na Casa de Vidro da Casa de Portugal em Macau o resultado da sua mais recente investigação literária sobre a identidade feminina, que pegou em obras escritas por autores ligados a Macau e Timor, ou com referências ao Oriente. A ocasião do Dia Internacional da Mulher foi o mote ainda para uma conversa em torno das ideias feitas sobre o género feminino.

       

      Hoje, às 18h30, será apresentado na Casa de Vidro no Tap Seac o livro “Imagótipos femininos nas literaturas em português a Oriente”, de Pedro d’Alte. A obra será apresentada por Ana Paula Dias no Dia Internacional da Mulher, numa iniciativa da Casa de Portugal em Macau (CPM) que conta ainda com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura. O professor da Escola Portuguesa de Macau (EPM) e colaborador da Universidade Politécnica de Macau partilhou com o PONTO FINAL os resultados da sua investigação em torno da representação da mulher nas literaturas de Macau e de Timor, abordando ainda questões como a identidade da mulher chinesa e o ensino do português em Macau.

       

      O que é um imagótipo feminino?

      Sem querer parecer muito técnico, vou tentar uma aproximação generalista ao conceito. A Imagologia surge como um ramo da Literatura comparada. Estuda as questões da identidade, sobretudo, nas literaturas nacionais. Há uma expressão interessante de Roland Barthes que apelida as personagens de ‘seres de papel’. De facto, nesta lógica, podemos entender o modo como as personagens revelam e sentem a sua identidade em diferentes tempos e ambientes. Ao “imagótipo feminino” acresce a questão da assimetria de género.

       

      É a primeira vez que apresenta este livro? Quando foi escrito? Fez parte de algum contexto em particular, no âmbito de estudos seus?

      Em 2022, apresentei um projecto de investigação de pós-doutoramento à Universidade Aberta. O exercício intentava aproximar e dar a conhecer a produção estética de dois escritores: Henrique de Senna Fernandes (Macau) e Luís Cardoso (Timor) e, muito particularmente, o modo como a mulher era representada nos romances destes autores. Era impossível prever, à data, a quantidade de artigos ou de textos que poderiam resultar desta investigação. Porém, nos meses finais de 2023, fui percebendo que existia material suficiente para a criação de um livro que reunisse a crítica literária mais relevante. Felizmente, o projecto foi subsidiado pelo Fundo de Desenvolvimento da Cultura e contou com o apoio incondicional da Casa de Portugal que permitiram a concretização e a materialização do projecto.

       

      Qual é a importância deste livro para si?

      Penso que o livro é, de certa forma, um percurso de vida. Residi e trabalhei em Timor, cheguei com 23 anos, saí da Ilha do Crocodilo com quase 30. Ali, contactei com a escrita de Luís Cardoso que, infelizmente, ainda é mal conhecida. Um dia, talvez os portugueses descubram Cardoso como dos mais proeminentes escritores do nosso século. Títulos como ‘O plantador de abóboras’ ou ‘O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação’ bem poderiam receber maior atenção. Quando vivi em Angola, conheci, de modo mais profundo, a escrita de Ondjaki, de Agualusa, de Manuel Rui. Vim para Macau e descobri autores que desconhecia, como Henrique de Senna Fernandes ou Deolinda da Conceição. Creio que, nas escolas portugueses, somos pouco afinados para a literatura da margem, estamos muito presos a autores canónicos. Creio que estudei os mesmos autores que a minha mãe estudou, talvez não da mesma forma, mas seguramente os mesmos escritores. Os meus filhos, porventura, farão um percurso literário semelhante. Assim entendido, este livro tenta mostrar o que me seduziu nestas escritas. Permite dar atenção a autores que nem sempre têm a sua obra estudada e, também, ajuda estudantes locais ou interessados a ter alguma bibliografia de suporte para as suas investigações. Note-se que, sobretudo a partir de 2018, começam a surgir estudos sobre a mulher e sobre a literatura de Macau levados a cabo por estudantes chineses.

       

      Pode falar-nos de algumas das referências bibliográficas da obra? Que exemplos seleccionou?

      Tentei escolher autores que favorecessem a figura feminina na trama e, também, autoras. Dito de outro modo, livros escritos por mulheres. Assim, foram privilegiados escritores como Henrique de Senna Fernandes, Rodrigo Leal de Carvalho, Luís Cardoso, Deolinda da Conceição, Miguel Real, Agustina Bessa-Luís ou Maria Ondina Braga.

       

      Na sua perspectiva, os autores lusófonos dos séculos anteriores tinham uma visão que correspondia à realidade? Ou existiam ideias preconcebidas que iam sendo transmitidas sem se ter conhecimento da dinâmica interna da sociedade chinesa/local?

      Nunca é a verdade que se atinge num texto. Apenas uma representação que pode estar mais em linha, ou não, com o universo da experiência. Henrique de Senna Fernandes é, em relação à perspectiva cultural, um autor híbrido e consciente da diferença. Percebe-se que ele faz constantes contextualizações e comentários internos. Por exemplo, em relação às mulheres, tende a comparar os padrões de beleza entre o Ocidente e o Oriente. Maria Ondina Braga também faz importantes exames sobre a cultura chinesa, ora disfóricos ora enaltecedores. É comum, nos autores portugueses que residiram em Macau ou que por aqui passaram, a ideia de que a sociedade chinesa permanecerá por conhecer. Penso que o hiato entre o que se sabe e o que fica por conhecer é preenchido por estereótipos ou pela própria imaginação. Talvez seja esta, aliás, uma das forças da própria literatura. Em todo o caso, independentemente do grau de entendimento cultural ou da acuidade da informação, são relatos com força etnográfica, histórica e cultural e que permitem aos leitores conhecer a cosmovisão da época.

       

      Transpondo a temática para os dias de hoje, como homem ocidental a viver no Oriente, como sente que a mulher chinesa é vista em Macau? A identidade feminina libertou-se das limitações do passado?

      É uma questão bastante social, mas vou tentar fugir para a literatura. O último capítulo do livro debruça-se sobre dois símbolos femininos: o “pé” e o “cabelo”. Em diferentes romances existe a tentativa de, vamos chamar ‘colonização’ da mulher pelo homem e que é visível, entre outros, no apoderamento metafórico do pé e do cabelo femininos. Na China, houve a tradição secular dos pés de lótus. Em toda a Ásia, a beleza da mulher também se representa pelo cabelo. Na literatura de Luís Cardoso, há a destruição desses símbolos em personagens como Catarina ou Carolina. São mulheres que servem de coordenada ou de mapa para a mulher do futuro, mais autónoma em relação ao homem. Porém, tal como os estudos feministas apontam, os papéis sociais são preparados pelas gerações anteriores e servem, sobretudo, aos homens. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em “We should all be feminists”, defende, muito bem, que nem os homens nem as mulheres têm completa consciência de que temos traços machistas e patriarcais. O primeiro passo terá, forçosamente, que ver com o aumento do grau de consciência quanto aos impedimentos para a emergência de uma sociedade mais equitativa e menos assimétrica, em relação ao género. Agora, em relação à sociedade chinesa, os leitores, sobretudo os de Macau, podem ler a revista “Via do Meio” que, nas últimas edições, tem vindo a adereçar esta temática sob um ponto de vista histórico e social. Na minha opinião, a sociedade chinesa é, porventura, dos tecidos sociais que mais exigiu à mulher, desde a transição de uma sociedade marcadamente rural, para uma mais urbana e altamente tecnológica. Num período de tempo tão curto, talvez não tenha existido tempo para se reflectir, de um modo profundo e sistematizado, sobre o papel da mulher na sociedade actual e, sobretudo, em relação à sua importância.

       

      Que outro projecto tem em mente na área da investigação literária?

      O estudo das representações femininas tem sido, nos dois últimos anos, a minha área de eleição. Creio que continuarei a aprofundar este tema procurando construir conhecimento sobre territórios aos quais estou muito ligado afectivamente: Macau e Timor. Tenho esta filiação sentimental e artística. São lugares para os quais quero muito contribuir, da melhor forma que souber e me for possível.

       

      Como tem sido a sua experiência como professor na EPM? Há alguma diferença em particular que sinta, comparativamente com os outros locais onde leccionou?

      A EPM tem a duplicidade da convivência de duas culturas milenares e a plasticidade de poder criar, inspirando-se e atendendo, precisamente, a dois universos distintos: o chinês e o português. Talvez aqui resida uma primeira diferença. Os códigos sociais e culturais aos quais os alunos aportam são híbridos, líquidos, isto é, paradoxalmente, aquém e além-fronteiras. Como professores, vamos aprendendo, neste ambiente, a traduzir as culturas para melhor as podermos viver e ensinar. Conscientes desta diferença, tanto eu como a professora Lia d’Alte temos vindo a investir, por exemplo, na criação de materiais personalizados e que tornam mais explícitos os elementos diferenciadores das duas culturas. Um segundo aspecto tem que ver com a mentalidade dos alunos. Vejo-os, na sua maioria, com uma resiliência férrea e um amplo gosto pela aprendizagem. São dedicados, e os pais apoiam a construção do seu percurso académico, tanto na escola, pela inscrição em clubes e actividades complementares, como fora da escola, pelo acesso a explicações, pela aprendizagem de música e de programação informática e, ainda, de actividades físicas. São horários altamente exigentes para os alunos. A consciência deste esforço torna qualquer professor mais humilde. Um terceiro ponto que merece a atenção é a estabilidade de toda a equipa, o que permite criar sinergias bastante positivas e um ambiente saudável. É uma escola interessante, na qual me sinto bem, e onde tenho aprendido bastante com toda a comunidade. Temos, à data, uma nova direcção, que se assume dinâmica, com visão estratégica e que, decerto, irá prolongar o trilho de sucesso para esta escola.

       

      Como vê a questão do ensino da língua portuguesa a crianças que, na sua maioria, estão tão física e culturalmente distantes de Portugal e da Europa? Subscreve a opinião de que o ensino da cultura portuguesa e dos países lusófonos é central na aprendizagem da língua?

      No contexto de Macau, Portugal deve ser uma referência, obviamente, desde logo pelas razões afectivas, históricas e, no que diz respeito à temática escolar, pelo próprio desenho curricular que, apesar das adaptações e dos ajustes, possui uma matriz portuguesa. Porém, há uma ideia que subscrevo. É preciso entender a língua portuguesa como pluricêntrica e não ancorada a Portugal ou à Europa. Mais, a lusofonia, a existir, é uma escolha. E, em qualquer um dos territórios, a escolha de ter este idioma como língua oficial foi soberana e unilateral. Neste sentido, a responsabilidade da promoção da língua é, desde logo, imputada ao país que tomou essa decisão e cabe-lhes encetar esforços para cumprir um diálogo lusófono. Em meu entender, podemos colaborar e contribuir para o sentimento de que a filiação linguística foi uma escolha acertada e procurar, enquanto professores e agentes de cultura, sedimentar, o mais rapidamente possível, o lugar de Macau como produtor e plataforma de culturas em português. Pessoalmente, creio ser interessante, e necessária, a criação de residências artísticas para artistas de renome e a reedição de obras e de filmes já produzidos. É crucial que as gerações mais novas percebam que Macau é palco de culturas e que artefactos culturais interessantíssimos que já foram produzidos. No âmbito da EPM, uma leitura pelos discursos de abertura também permite perceber a intenção de se intensificar o ensino em português e do mandarim. É uma ideia que une toda a comunidade escolar e é imperativo que a EPM crie, de facto, comunidades capazes de viver, linguisticamente, no território. É um ideal louvável.

       

      Quais são na sua óptica algumas das lacunas do programa do ensino primário e secundário português? Haverá áreas que estão desactualizadas, ou inversamente, será que se está a promover, por exemplo, o recurso a plataformas electrónicas cedo demais ou de forma inadequada?

      No seguimento do que afirmei, é importante que as gerações mais novas acedam à cultura local. É um trabalho complexo, pois grande parte das criações têm no adulto o seu público-alvo. O cumprimento das metas curriculares são, também, um entrave a tal intenção. No entanto, enquanto professores, devemos encontrar formas de desvendar e de promover o conhecimento sobre tais universos. Neste capítulo, a EPM terá que assumir um papel de destaque, pois é a que está em melhor posição para o fazer, desde logo pelas competências linguísticas que os alunos exibem, em português. Em relação à segunda parte da pergunta, é um ponto sensível e que, a espaços, é revisitado. Porém, apesar das críticas que vamos lendo, não há evidências, suportadas cientificamente, de que a leitura com recurso a um suporte digital desfavoreça a compreensão leitora. Aliás, com o recurso ao digital, existe maior democratização no acesso aos materiais, uma ampliação do público que o manuseia e, ainda, a simultaneidade de uso. De novo, sem prejuízo da compreensão leitora, em si. Muitas das fragilidades elencadas, essencialmente em jornais ou artigos de opinião, são associadas, se lidas com atenção, a comportamentos generalistas e que são decorrentes da emergência de sociedades bastante tecnológicas, nas quais as crianças vão perdendo os lugares e os tempos associados ao brincar. Com isto, vão perdendo faculdades motoras e musculares, ficando mais frágeis em habilidades tão simples como a percepção do corpo ou do espaço que o corpo do outro ocupa, em educação física, por exemplo. Retomando, a EPM, de modo consciente, faz uso de plataformas e de materiais digitais, acompanhando a evolução dos tempos, e dando resposta aos interesses dos alunos.