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      Congresso camoniano acompanhou jornada do poeta, de Moçambique à Indonésia, passando por Macau

      Decorreu este fim-de-semana o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões. As sessões de sábado abordaram o papel do poeta português em África e na Ásia. Na sessão que abriu o congresso, Felipe de Saavedra, coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o evento, sugeriu até a criação de um centro interpretativo em memória de Luís de Camões em Macau.

       

      Realizou-se em Macau, ao longo deste fim-de-semana, aquele que é considerado o primeiro congresso mundial sobre os 500 anos de Camões. O Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, organizado pela Rede Camões na Ásia & África, trouxe a Macau congressistas que seguiram as pisadas do poeta e da influência da sua obra por África e pela Ásia.

      Felipe de Saavedra, coordenador da Rede Camões na Ásia & África, afirmou, na abertura deste congresso, que, “na rede de locais camonianos, Macau é a princesa”, lembrando, por exemplo, que a Gruta de Camões é alvo de romarias desde antes do século XIX e viajantes de todas as partes do mundo vêm a Macau para ler poemas e sonetos em frente ao busto.

      Assinalando que, em Moçambique, está a ser restaurada a Casa de Camões, onde será feito um centro interpretativo da memória do poeta, Felipe de Saavedra disse que essa é também uma ideia para Macau: “Também há a ideia da criação de um centro interpretativo para Macau, com uma geminação entre a Gruta de Camões em Macau e a Casa de Camões em Moçambique, para que depois fossem incluídos num roteiro turístico”.

      “Que este congresso seja o momento de lançamento de iniciativas, inspirados pela efeméride, que seja o lançamento de coisas novas, que não seja apenas um olhar para o passado. Actualizar a magnífica herança e projectar para o futuro trabalhos e iniciativas”, afirmou Saavedra na abertura do congresso.

      O congresso, que no sábado se realizou na Fundação Rui Cunha, contou inicialmente com uma alocução de boas-vindas de Rafael Custódio Marques, cônsul-geral de Moçambique. De seguida, o papel do poeta em África foi o tema principal, com um painel que incluiu Lourenço do Rosário, da Universidade Politécnica de Moçambique, Rui Pereira e Lurdes Rodrigues da Silva, da Universidade Eduardo Mondlane.

      Em entrevista ao PONTO FINAL, publicada na passada sexta-feira, o professor Lourenço Rosário já tinha indicado que iria falar sobre o eixo Macau-Goa-Moçambique no mundo de Camões, assinalando que este é um triângulo territorial “imaginário”, mas que, ainda assim, faz com que os três territórios se reconheçam entre si. É Camões que liga os três territórios, defendeu.

      Da parte da tarde, no sábado, o tema foi Camões na Ásia. Danny Susanto, investigador e tradutor ligado à Universidade de Jacarta, na Indonésia, traduziu “Os Lusíadas” para a língua indonésia num livro publicado em 2022 e, por isso, propôs-se a falar sobre as dificuldades na tradução da obra.

      Começando por referir que “a tradução de poesia ainda é objecto de considerável debate” devido nomeadamente às dificuldades de compreensão do contexto histórico e sociocultural em que a obra foi escrita, afirmou: “Apesar das críticas negativas quanto à tradução de textos poéticos, a realidade é que obras desse tipo existem e persistirão, pois representam a única forma de transmitir riqueza literária de uma cultura para outra”.

      Danny Susanto começou a pensar na tradução de “Os Lusíadas” para língua indonésia em 2021 a partir de uma sugestão de Felipe de Saavedra, que o propôs como forma de assinalar os 450 anos da primeira publicação da obra, confessou. Outra das motivações foi a ligação significativa da obra à Indonésia. “A estadia de Luís de Camões na Indonésia, juntamente com a ideia de que foi ali que ele começou a escrever a sua obra, confere um toque especial à tradução, destacando a ligação histórica entre a obra e o país”, afirmou o académico.

      Outra das dificuldades, admitiu, foi “transmitir as nuances culturais aos leitores de diferentes origens, dado que a obra original está enraizada na identidade portuguesa e na era das descobertas”. Há “elementos que são específicos da história e mitologia portuguesas”.

      Assim, na sua tradução de “Os Lusíadas” para língua indonésia, Susanto optou pelo uso de uma tradução mais literal “para manter a fidelidade ao texto original”. Para superar os desafios culturais e lacunas linguísticas, a tradução da obra incorpora mais de 1.400 notas de rodapé, indicou o professor e tradutor.

      Danny Susanto destacou ainda a “importância da tradução como um acto de mediação cultural”, com ênfase na “necessidade de os tradutores possuírem não apenas um profundo conhecimento linguístico, mas também compreensão transcultural”. Por outro lado, sublinhou que “o desafio de traduzir ‘Os Lusíadas’ para indonésio destaca a complexidade envolvida na transposição de obras literárias ricas em contexto cultural e histórico”.

      “A necessidade de sensibilidade cultural, adaptabilidade e escolhas estratégicas durante o processo de tradução torna-se evidente para preservar a essência da obra original e permitir que os leitores indonésios apreciam a sua riqueza”, concluiu.

      José Carlos Canoa, por sua vez, falou sobre Luís Gonzaga Gomes, figura de Macau do século XX e que tinha uma faceta de “camonista”, descreveu o investigador no âmbito da obra de Camões.

      Luís Gonzaga Gomes, historiador e coleccionador de livros, nasceu em 1907 em Macau, “um espaço estimulador para o conhecimento da vida e obra de Luís de Camões” e, por isso, traduziu “Os Lusíadas Contados Às Crianças e Lembrados ao Povo”, de João de Barros, para língua chinesa em 1942. Gonzaga Gomes foi aprofundando o seu conhecimento sobre o poeta e, em 1951, escreveu um texto intitulado “A Gruta de Camões”. No ano seguinte, escreveu outro texto: “A Rocha dos Cinco Metais”, um texto que, segundo José Carlos Canoa, fala sobre uma lenda antiga que dizia que na gruta havia uma pedra com minerais preciosos. Em 1972, quatro anos antes da sua morte, Luís Gonzaga Gomes publicou um estudo sobre a representação da iconografia da Gruta de Camões de Macau.

      Na tarde de sábado, o congresso retomou com uma intervenção musical de Fábio Vianna Peres, com um cancioneiro musical de Luís de Camões. Depois, as odes de Camões estiveram em destaque num painel que contou com a participação do professor Zhang Weimin, que falou sobre as dificuldades na tradução das odes para língua chinesa. Spencer Low falou sobre a tradução para inglês e Felipe de Saavedra abordou a “redescoberta” das odes do poeta. O dia terminou com um momento “musical camoniano” da autoria da compositora e cantora Scarlett Ma.

      No domingo, Telmo Verdelho, da Universidade de Aveiro, falou sobre a perspectiva diacrónica da língua portuguesa na obra do poeta. Depois, Luíza Nóbrega, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Brasil, e José Carlos Seabra Pereira, do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, em Portugal, abordaram a sua poética.

      Depois, o tema principal foi o papel de Camões na Índia. Este painel incluiu Chalakkal Joseph Davees, da Rede Camões na Ásia & África, Loraine Alberto, da mesma organização, e Irene Silveira, da Universidade de Goa, na Índia. Por fim, o congresso terminou com Eduardo Ribeiro a falar sobre a tradição e a historicidade da presença de Camões em Macau.