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      InícioOpiniãoRelações Portugal-China, 45 anos de desenvolvimento

      Relações Portugal-China, 45 anos de desenvolvimento

      Foi em 8 de fevereiro de 1979 que Portugal estabeleceu relações diplomáticas oficiais com a China, contudo Portugal é uma das nações europeias que mantém as relações de amizade mais longas com a China. Desde o século 16 que a Língua Portuguesa começou o seu relacionamento com a língua, a escrita e a cultura Chinesas, o impacto do mandarim no estrangeiro não iria mais parar. Com o desenvolvimento económico-social da China, nas últimas décadas, a Língua e Cultura Chinesas abriram-se ainda mais ao mundo e, por iniciativa conjunta da China, das suas universidades e de universidades estrangeiras nos vários continentes, foram criados 489 Institutos Confúcio e 817 Salas (de ensino não superior), envolvendo 158 países e regiões, segundo os dados oficiais de 2021. Nos países lusófonos estão em funcionamento cerca de 20 Institutos Confúcio (destacando-se Cabo Verde, com a disponibilidade do ensino do Chinês nos currículos de vários cursos universitários e secundários). Em Portugal estão em plena atividade 5 Institutos Confúcio, nas cidades de Braga, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa. Na China mais de 40 universidades ensinam a Língua Portuguesa a estudantes chineses.

      A difusão da cultura chinesa no Ocidente começou antes da idade média, trazida pelos povos islâmicos à Península Ibérica. Contudo, foi só com os religiosos e os mercadores portugueses e europeus que ela se expandiu a toda a Europa. Os Portugueses ficaram de tal forma fascinados com a sofisticada e avançada civilização chinesa (nomeadamente pelas sedas, porcelanas e pela importância dos letrados no comando da administração pública), que foram agentes pioneiros na difusão da cultura chinesa às restantes nações ocidentais, o que viria a influenciar o próprio Iluminismo e a moda europeia, com um gosto à chinesa (conhecido como chinoiserie).

      Os sucessos civilizacionais do sistema socialista chinês, ao ter o seu povo no centro da ação política do seu governo e devido ao desenvolvimento da China, permitiram o feito histórico de retirar 850 milhões de habitantes da pobreza (segundo o próprio FMI), com o acesso universal ao trabalho, saúde, habitação e educação. Segundo o Banco Mundial, a China passou a ser, desde 2017, a Nação mais rica, a nível mundial, em índice de Poder de Compra Comparado e a segunda mais rica em Produto Interno Bruto.

      Com o desenvolvimento económico, os chineses ampliaram a sua abertura ao mundo, assumindo mais responsabilidades no apoio às agências das Nações Unidas, nomeadamente, no combate às pandemias e no apoio aos esforços na pacificação de conflitos mundiais.

      Apesar da tentativa frustrada dos Estados Unidos da América, e de setores radicais da União Europeia, de parar o desenvolvimento da China, grande parte do tecido empresarial e social da Europa reconhece que sem a recuperação da China, pós pandemia, a economia mundial estaria em crise e no caso da Europa estaria em recessão ainda maior que a verificada em países como a Alemanha.

      O crescimento económico da China permitiu um novo máximo histórico, nas trocas comerciais totais entre os Países de Língua Portuguesa e a China, que atingiram 220,869 mil milhões de dólares em 2023, mais 2,81% do que em 2022, de acordo com os Serviços de Alfândega da China. Globalmente o movimento foi muito positivo, pois as exportações para a China (147,470 mil milhões de dólares) aumentaram 6,24%, em comparação com 2022, enquanto as importações da China (73,399 mil milhões de dólares), feitas pelos países lusófonos, se reduziram em 3,45% face a 2022. Permitindo ao conjunto dos Países de Língua Portuguesa ter uma balança de pagamentos positiva recorde face à China de 74,1 mil milhões de dólares.

      Contudo, temos de ter em conta que o maior crescimento das exportações se deveu ao Brasil, cujas vendas subiram de forma recorde 11,9% (122,4 mil milhões de dólares), só seguido do aumento recorde de exportações de Moçambique de 33,9% (1,79 mil milhões de dólares) e as vendas de Cabo Verde para a China mais que triplicaram (72 mil dólares). Os outros países de Língua Portuguesa diminuíram as respetivas exportações para a China.

      No caso de Portugal, as vendas de mercadorias para a China desceram 4,1% (2,91 mil milhões de dólares). Os dados mais recentes mostram que de janeiro a dezembro de 2023, as trocas comerciais totais entre Portugal e a China atingiram 8,704 mil milhões de dólares (representando menos 3,2% face a 2022). Portugal importou da China mercadorias no valor de 5,792 mil milhões de dólares, e exportou 2,911 mil milhões de dólares. Em 2023, a China continuou a ser o maior parceiro comercial de Portugal na Ásia e o stock de investimento chinês em Portugal atingiu os 3,473 mil milhões de euros, e o investimento português na China também tem crescido de forma constante.

      Portugal é relevante para a China, também, pelas suas intensas relações com a restante Europa e com os Países de Língua Portuguesa. Portugal, para se salvaguardar das crises das economias ocidentais, deve saber diversificar os seus circuitos económicos a outras economias, nomeadamente, na África, na América do Sul e na Ásia, intensificando a sua cooperação com a China, em energia limpa, veículos verdes, entre outros campos tecnologicamente avançados, que incorporem mais valor nos produtos a produzir. Será fundamental reforçar a participação portuguesa na Iniciativa Chinesa da nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota), particularmente com a criação da dupla conexão de Sines, com a ferrovia intraeuropeia ligada a Madrid por um lado, e com o porto oceânico de Sines à Rota Marítima da Seda.

      A sociedade civil tem também uma atividade muito diversificada e importante, desde as relações económicas às culturais e às científicas. É intensa a atividade de diversas associações de promoção do comércio e indústria de grandes, médias e pequenas empresas (umas mais consolidadas outras mais recentes), como é o caso da jovem União de Associações de Cooperação e Amizade Portugal China. Nas relações culturais, o Ano Novo Chinês, da iniciativa das diferentes comunidades chinesas, em especial do Norte e Centro de Portugal, com apoio da Embaixada da China, é sempre uma grande festa pública que mobiliza a população portuguesa das respetivas cidades. Durante o ano de 2023 foram organizadas várias conferências, espetáculos e exposições sobre a China. Receberam-se inúmeras delegações chinesas em Portugal e muitas outras portuguesas se deslocaram à China.

       

      Devido ao serviço público científico e cultural, que presta a nível internacional, destaco a Biblioteca Digital Macau-China (http://purl.pt/26918/1/EN/index.html). O Observatório da China e a Biblioteca Nacional de Portugal organizaram (novembro de 2023 a março de 2024) a exposição de cartografia e arte – A China vista da Europa: séculos XVI-XIX (Exposição | A China vista da Europa, séculos XVI-XIX | 29 nov. ´23 – 2 mar. ’24 (bnportugal.gov.pt), com o apoio de centros de investigação e universidades de Portugal, de Itália da América e da China.

      A Comunidade portuguesa na China e a Chinesa em Portugal têm crescido desde a criação da Região Administrativa Especial de Macau de tal forma que, para além da Embaixada em Beijing e do Consulado em Macau, Portugal abriu um novo consulado em Guangzhou. Por outro lado, a Comunidade Chinesa em Portugal tem vindo a crescer moderadamente, sendo a décima maior comunidade estrangeira do país, composta em 2023 por cerca de 35 mil chineses e sino portugueses.

      As relações entre Portugal e a China devem (como sempre aconteceu) continuar a aprofundar-se com benefício e respeito mútuos!

       

      Rui Lourido

      Historiador e presidente do Observatório da China