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      Proprietário do clube Gare no Porto leva sonoridades introspectivas do Techno ao DD3  

      Amulador é o nome de palco de Pedro Rodrigues, homem por detrás do Gare Porto. Em digressão pela Ásia, vem a Macau pela primeira vez para tocar esta sexta-feira no Verandah DD3. O DJ esteve à conversa sobre Techno, o público chinês e japonês, e grandes festivais de música electrónica em Portugal como o Sónar, o Festival Boom, ou o Waking Life.

       

      Pedro Rodrigues, DJ profissional e gerente do espaço nocturno Gare Porto, na capital do norte de Portugal, toca esta sexta-feira, 16, no Verandah DD3, no Fisherman’s Wharf. Ao PONTO FINAL, esclareceu que o seu nome de palco – Amulador – funciona como uma homenagem às sonoridades típicas do subgénero de música electrónica que domina – o Techno. “O amulador, que afia facas e tesouras, e em Portugal é muito famoso”, recordou, era uma profissão que “antes havia mais, mas que continua a existir”. O ruído do afiar das facas serviu-lhe de inspiração. “O som do metal das facas é um som que eu ligo muito ao Techno”. Quanto ao género em si, Amulador diz que prefere fugir a ideias estanques, esclarecendo que as suas selecções tanto vão beber ao Ambient, como ao Deep Techno, e que os seus sets devem sobretudo ser experienciados de uma forma mais introspectiva. “Não é aquele estilo para se dançar de braços no ar, não é muito efusivo”, explicou. “É um estilo mais para fechar os olhos e viajar, seguindo o decorrer do set”.

      No sábado, dia 17, também irá actuar em Hong Kong. Desde o início do ano que Amulador está em digressão pela Ásia, tendo actuado no Japão, em Janeiro, e em Shenzhen e Guangzhou nos passados dias 2 e 3 de Fevereiro. Sobre o público chinês, diz ser bastante receptivo, e que “reage facilmente” à música que o DJ toca. “Correu muito bem, e eles gostaram muito”. A oportunidade de tocar na região surgiu por iniciativa de Gordon Yu, curador e organizador de eventos do género um pouco por toda a China. As chamadas noites “Asylum”, em que músicos internacionais vêm a clubes chineses, individualmente ou em parceria com estabelecimentos nocturnos europeus, têm vindo a ser desenvolvidas pelo também DJ de Macau há já vários anos.

      “O Gordon, um excelente ‘host’, acompanhou-me no Oil Club em Shenzhen e em Guangzhou, e também fez dois excelentes sets. É um excelente DJ e um excelente ‘giger’, excelente a receber as pessoas”, partilhou Pedro Rodrigues. Foi Gordon Yu que propôs a Pedro Rodrigues organizarem uma noite “Trésor”, do clube de Berlim, no Gare Porto, “algo que nem sabia que era possível”.

      Depois dessa noite, em que para além dos DJs de Berlim, tocou também o DJ de Macau, os dois permaneceram em contacto, e o músico português acabou por aceitar o desafio de vir tocar à Ásia, mas infelizmente, com a pandemia, deu-se uma paragem de dois anos, e só agora foi possível concretizar a digressão. Das duas actuações no Japão, em Hakuba e em Tóquio, Pedro Rodrigues guarda excelentes memórias. “Foram experiências maravilhosas, e estou completamente apaixonado pelo Japão”, confessou. Quanto ao público, diz que comparativamente com o chinês, é bastante diferente. “É um público muito apreciador de música, reconhece as músicas que se vão tocando. Nota-se que é um público muito conhecedor”.

       

      TURISTAS QUE SABEM AO QUE VÃO

       

      Os primeiros passos como DJ foram dados em 2001, começando na altura a tocar apenas com vinyl, tendo até sido proprietário de uma loja de vinis no Porto entre 2001 e 2005. Depois, “o digital apareceu”, e este acabou por se converter, fechando a loja discográfica e seguindo para Barcelona para estudar engenharia de som. Entretanto, Pedro Rodrigues compreendeu que a produção de música electrónica não era para si, porque exigia “muito tempo no estúdio”, e ele não é “pessoa de estar muito tempo parada”, e ao voltar de Barcelona, decidiu abrir um clube nocturno em 2008. “Ao abrir o Gare, continuei a fazer o meu trabalho de procura de música, desde o Ambient, ao Techno, Electro, e a tocar como DJ”.

      Quisemos saber como tem sido, assistir à evolução da noite portuguesa, com tantos visitantes a escolherem Portugal como destino de férias que também envolve noites em clubes nocturnos. “Muitos turistas aterram no Porto e são interessados por música electrónica, e já vêm com o Gare no radar”, partilhou. Como o espaço nas imediações da estação de São Bento já existe desde 2008, e sempre com “nomes bastante famosos a nível mundial, tornou-se num clube de referência”, e atrai muitas pessoas de outros países, o que para o responsável é algo positivo, já que as noites ficam com um “colorido diferente” que lhe agrada. “Não são só ‘locals’ a dançar, estão misturados com turistas” que “sabem ao que vão, o que querem ouvir e estão a ouvir”.

      Sobre os diversos “turnos” na cabine de som que exige a sua profissão, Amulador diz que tudo lhe agrada. “Gosto de abrir a noite, gosto de tocar a meio, gosto de tocar no fim, gosto de fazer sets mais curtos, de duas horas, como três, como nove ou 10 horas”. Os chamados ‘all-night sets’, entre sete a oito horas, diz ser algo que não faz com mais frequência porque “são muitas horas”, para além de estas apenas decorrerem “em datas especiais”. Quanto à altura da noite, admite ter uma afinidade pelo início, pelo ‘warm up’, em que se começa a aquecer a pista. “Tive muito a cultura de começar com menos bpm, a tocar Ambient, e gosto de ver as pessoas a entrar no clube, de jogar com elas, e fazê-las esperar um bocadinho, e vê-las a começar a dançar devagarinho… é algo que cultivo muito no meu clube no Gare”.

      Ser o DJ que toca antes da estrela convidada da noite, essa é uma missão que também não intimida nem incomoda o DJ do Porto. “Faço um trabalho normal de um ‘warm-up’. Percebo que o público que está ali está com aquele frenesi para ver o DJ principal, e eu faço o meu trabalho. Deixo as portas abertas para que a estrela da noite possa brilhar”.

      Depois de tocar em Macau e Hong Kong, Pedro Rodrigues regressa para Portugal, onde no fim de Março voltará a fazer parte do cartaz deste ano do Festival Sónar, em Lisboa. “Estou bastante ansioso para tocar este ano”, confessou. Sobre o conhecido evento que começou há duas décadas em Barcelona, e agora também tem edições em Lisboa e outras cidades como Buenos Aires, Reykjavik, Istambul e Hong Kong, o DJ diz ser um conceito de evento já com “bastantes anos, com uma visão muito futurista, com novos projectos mais experimentais também, a absorver todos os espectros da música electrónica”, e que actualmente se encontra numa fase de “expansão”, avaliou.

      Abordando outros festivais do género que fazem parte do calendário de eventos em Portugal, como o Festival Boom, ou o mais recente Waking Life, Pedro Rodrigues diz que estes eventos de renome internacional são a prova de que o seu país é ideal para receber este tipo de programas. “Acho que temos recursos naturais excelentes para festivais em ‘open air’, temos sítios lindíssimos”.

      Avaliando a forma como toda a cultura electrónica tem evoluído desde os anos 80 e 90, o DJ partilhou a visão de que nada se perdeu, e que tudo se ‘mesclou’. A música, diz, continua a ser reinventada, e “aqui e ali pode-se encontrar um bocadinho de tudo misturado noutros estilos”. Quanto à música que Amulador toca neste momento, esta também tem muita mistura, para além do Techno, e tanto tem Ambient, como Electro, como Tech House.