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      Início Opinião A AFIRMAÇÃO DOS NACIONALISMOS

      A AFIRMAÇÃO DOS NACIONALISMOS

      Durante as três últimas décadas do século passado tornou-se insistente a ideia que os principais conflitos militares internacionais poderiam ser solucionados pela diplomacia, pela intervenção das Nações Unidas e pela inteligência de líderes esclarecidos.

      Essa perspectiva alicerçada em obras teóricas importantes sobre “soft power” na política internacional, na afirmação de um mundo não-europeu que se libertava da pobreza crónica e na convicção que a ameaça da utilização de armas nucleares iria conter o deslize de conflitos além de limites incomportáveis claudicou com o surgimento de conflitos que a todos surpreenderam.

      Na década de 1990 parecia possível que rompida a bipolaridade Estados Unidos-União Soviética, a Rússia como grande nação histórica da região Euro-Ásia se convertesse às regras da vida internacional e aderisse ao sistema de economia de mercado. Ao tempo, a projecção da força militar parecia preocupação ultrapassada pelo conjunto de tratados celebrados com os Estados Unidos, pela obsolescência do acervo militar convencional e nuclear e pelo desejo dos russos de paz e prosperidade.

      Contudo, nos cálculos estratégicos dos arquitectos da política externa do Ocidente foi negligenciado o sentido de humilhação que o ruir da identidade de império teria no “mindset” da elite russa saída do colapso do partido comunista.

      Uma elite que rapidamente tomou as rédeas da privatização das antigas empresas do aparelho estatal soviético e enriqueceu nesse processo. O êxito de um político mediano, como Vladimir Putin, na política russa surge não pelo apoio de antigos comunistas mas dos oligarcas que aquela privatização criou. O discurso nacionalista da autonomia russa e da retoma da glória do antigo império caiu fundo nos eleitores desfasados da evolução que ocorria no lado ocidental da Europa. Assim se explica o sucesso do partido Rússia Unida (Yedinaya Rossiya) e a ausência de uma alternativa política democrática interna.

      A queda da dimensão de império teve outra consequência desvalorizada pelos Estados Unidos e pela Europa. O ruir dos países satélites da ex-União Soviética foi percebida como uma derrota, uma perda, uma humilhação. Sentimentos que foram exacerbados pela integração de vários desses países no bloco militar da Nato. O que passou a constituir uma ameaça à segurança da Rússia. Apesar dos avisos constantes de Vladimir Putin a estratégia de expansão para Leste da Aliança Atlântica continuou imperturbável.

      A invasão e anexação da Crimeia e depois a invasão da Ucrânia tornaram-se factos inevitáveis. Não apenas pela ambição de um líder militarista e nacionalista mas pela avaliação que se não se criasse um tampão de segurança a unidade da federação russa estaria em causa, a prazo.

      Este é o ponto em que está a guerra na Ucrânia, iniciada pela invasão de tropas russas faz, no fim deste mês, dois anos. Os planos iniciais de Putin mostraram-se irrealistas: o sucesso da operação em semanas, a adesão entusiasta dos ucranianos, a superioridade militar do exército russo. Mas o substancial apoio do Ocidente em termos financeiros, militares e políticos à Ucrânia não se traduziu em significativos ganhos na contraofensiva realizada nas zonas ocupadas do Donetsk, nem na contenção da ameaça de novos ganhos territoriais. Numa perspectiva optimista pode dizer-se que a situação no terreno está num stand-still. Se formos mais realistas há que reconhecer que a Rússia tem a “mão de cima”. A Rússia está ainda preparada para uma campanha prolongada.

      Não há números oficiais quanto às perdas russas, embora algumas estimativas as coloquem em 100 000 homens. O Ministério da Defesa da Ucrânia reportava, em Dezembro passado, 383 000 mortos com 125 000 desde o início da contraofensiva, pelo lado ucraniano. As estimativas de mortos e feridos são uma arma de propaganda de exércitos em confronto, mas é possível dizer-se que o espírito de sacrifício – por razões diferentes – dos militares e voluntários minimizam o impacto negativo das perdas humanas na moral dos combatentes e da determinação da liderança política.

      Em termos de futuro, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia será influenciada por dois factos políticos próximos. Por um lado, a reeleição de Vladimir Putin como presidente da Rússia, após cumprir o seu quarto mandato este ano. A revisão da Constituição do país, realizada em 2020, permite-lhe mais dois mandatos. Por outro lado, o fim do mandato de Joe Biden e a possível eleição de Donald Trump, em Novembro deste ano, nas eleições que terão lugar em Novembro de 2024.

      Se a hostilidade entre Biden e Putin se agravou nos últimos anos por razões de personalidade, a virtualidade da vitória de Trump, um político sempre alinhado com o líder russo, irá fazer recuar a política externa norte-americana a Novembro de 2016. Políticos seniores como Trump ou Putin não mudam de ideias com o avançar da idade. Agarram-se às ideias em que sempre acreditaram.

      Trump é um nacionalista e isolacionista convicto. Não quer envolvimentos externos dos Estados Unidos. Também não é favorável à causa ucraniana nem ao apoio financeiro e militar de Washington a Kiev considerando-o um desperdício. Não gosta da Nato e ambiciona desligar a política de defesa dos EUA das obrigações impostas pelo Tratado. Não tem simpatia pela União Europeia e desvaloriza as necessidades de defesa da Europa. Considera-as um problema exclusivo dos europeus. “America First” é mote de há oito anos já retomado na sua campanha.

      Putin sendo um político arguto percebe que tem em Trump um aliado que nada fará se tornar definitiva a ocupação de parte da Ucrânia e derrubar Zelensky do poder. A rendição da Ucrânia será inevitável até porque não se vê na Europa quem possa substituir os EUA como prestador de auxílio. Como Henry Kissinger disse, não há muito tempo, Putin terá que pôr fim à guerra sob pena dela matar qualquer hipótese da Rússia continuar a ser uma grande potência no futuro. A questão em aberto é qual será o futuro da Europa democrática se isto vier a acontecer.

       

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais