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      “Há muito trabalho a fazer nestes destinos que ficam a três ou quatro horas de distância”

      Há duas semanas, a directora dos Serviços de Turismo avançava três milhões como estimativa do número de visitantes internacionais em 2024, o mesmo número de 2019. De acordo com o especialista Glenn McCartney, embora as autoridades estejam a ir no bom caminho, é preciso fazer mais, porque as ligações aéreas e pacotes promocionais não bastam. É urgente o “upgrade” da cidade e das suas infraestruturas – transportes, hotéis, mão de obra qualificada – para que os turistas estrangeiros tenham uma experiência global satisfatória e partilhem o que viveram nas redes sociais.

      Glenn McCartney, vice-reitor da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau, esteve à conversa com o PONTO FINAL sobre um tema que não lhe é estranho: a dinamização do sector do turismo, e em particular das estratégias para atrair visitantes internacionais. Referindo-se muitas vezes a casos como Las Vegas, Singapura, Hong Kong ou capitais europeias nas suas palestras, há muito que o académico se debruça sobre os desafios que as cidades mundiais enfrentam na implementação de estratégias que aliem inovação a preservação do património, e num equilíbrio entre a salvaguarda da identidade local, e de abertura para com o mundo. O professor analisa o caso concreto de Macau, e dá o seu parecer sobre o que será preciso implementar para se concretizar a meta de três milhões de visitantes internacionais, avançada recentemente pela directora dos Serviços de Turismo (DST).

       

      Considera alcançável esta meta dos três milhões de turistas internacionais em 2024 avançada por Helena de Senna Fernandes?

      Acho que primeiro é preciso compreender aquilo que ao longos dos anos tenho voltado a repetir, que é a questão das entradas e dos visitantes, que são duas coisas diferentes. Os 3 milhões a que a directora da DST se refere estão de certa forma aumentados, porque, por exemplo, se viermos a Macau várias vezes num ano, cada vez que passamos a fronteira, somos contados. Portanto isto é o número de entradas, não é o número de visitantes. É preciso ter cuidado. Também uma coisa são pessoas que vêm cá e ficam hospedadas uma noite, ou as que vêm por exemplo de Hong Kong e regressam no mesmo dia. No entanto isto não responde à sua questão, do número de turistas internacionais. Quanto a isso, considero que é preciso ser cauteloso. É óptimo que o Governo tenha um número em mente, porque é bom para termos uma direcção e estabelecer uma trajectória entre o presente e daqui a seis ou nove meses. Dá-nos visão, objectivos e clareza. Mas claro, também é necessário desenvolver estratégias, tarefas que têm de ser cumpridas para alcançar esses objectivos. São os chamados “KPI” [key performance indicators], os dados que o Governo está a controlar nos bastidores. Dados como, por exemplo, calcular a quantidade de voos num ano, e ver qual a estimativa de visitantes da Coreia do Sul, do Japão, ou da Índia que esses voos podem trazer. Para mim, esse tipo de cálculos com os KPI é o mais importante. Depois, isso permite que se desenvolva estratégias para atingir os objectivos, e ver quais são as acções que podemos tomar, por exemplo, não só no aeroporto de Macau, mas também o de Hong Kong, ou até em parcerias com as seis concessionárias. Esse é outro ponto central, de trabalhar com elas e ver o que elas estão a fazer.  Por outro lado, organizar muitos eventos internacionais é positivo, mas acho que é preciso ver como é que esses eventos vão facilitar as visitas de turistas internacionais. Quando olho para os visitantes internacionais de 2019, vejo que a maior parte destes eram na verdade regionais, e vinham de países como a Coreia ou o Japão. Na minha perspectiva, há muito trabalho a fazer nestes destinos que ficam a três ou quatro horas de distância de um voo. Estou sempre a falar sobre voos porque, quer seja a partir do nosso, ou através da ponte e ligando com o aeroporto de Hong Kong, estes são os nossos pontos de acesso, e essencialmente, é assim que se traz visitantes internacionais a Macau.

       

      Imagino, portanto, que esteja satisfeito com algumas medidas que foram tomadas nesse sentido, como a de oferecerem bilhetes de autocarro gratuitos para passageiros que aterrem em Hong Kong e queiram vir para Macau. 

      Sim, há anos que dizia que se devia ter feito isso. Embora se trate do aeroporto de Hong Kong, Macau tem de estar mais presente nesse local. Uso muitas vezes a ponte e vejo que podia haver muito mais informação a ser transmitida aos visitantes. Por isso apoio veemente o uso de mensagens e promoções. Contudo, a verdade é que muitas destas pessoas já se prepararam e tomaram decisões informadas antes de viajar para Hong Kong. A vinda a Macau tem de fazer parte do planeamento da viagem antes de ela começar, e não ao se aterrar em Hong Kong. Seria mais vantajoso para nós criar estratégias de incluir Macau no pacote de viagem a Hong Kong. Vouchers e cupões é algo bastante comum nos departamentos de turismo do mundo, e são uma boa táctica, mas que devia vir acompanhada de outros elementos. Se as pessoas estão a viajar pela primeira vez a Macau, e têm uma experiência positiva, podem depois passar a mensagem a amigos e nas redes sociais.

       

      E quem tem experiências negativas, como a dificuldade em apanhar um táxi ou autocarro público?

      Temos de melhorar essa situação, sem dúvida. Já o vivi, e sei que algumas das infraestruturas têm de ser melhoradas. Ainda mais porque as pessoas quando chegam, a primeira experiência que têm não é a dos resorts integrados, é a de passar pela imigração e encontrar um táxi ou autocarro. Os turistas começam a qualificar a experiência logo a partir do início. Portanto sim, temos de ver a experiência como um todo, não é só o momento em que entram num lobby destes fantásticos resorts ou no centro histórico de Macau, e ficam maravilhados. Eles já viveram algumas experiências que podem não ter sido muito positivas.

       

      E a indústria MICE? Acha que esse elemento vai ser central para a atracção de turistas internacionais? Haverá potencial para que essa indústria cresça mais?

      Sim, mas temos aqui uma situação de “engarrafamento”. Voltando à questão das infraestruturas, e os problemas dos transportes, também há o problema dos hotéis, que aos fins de semana estão praticamente cheios.

       

      Essa era outra questão que lhe queria perguntar, se temos capacidade hoteleira para acolher mais pessoas.

      Já sabemos há mais de vinte anos – pelo menos eu sei, dos estudos de turismo – que muitas pessoas vão ficar cada vez mais hospedadas em hotéis do outro lado da fronteira, em Zhuhai. A indústria dos hotéis em Zhuhai cresceu imenso, porque muitos viajantes consideram ser financeiramente mais vantajoso lá ficar, e também porque muitas vezes não há espaço durante os fins de semana nos hotéis do lado de Macau. Mas sim, a indústria MICE pode crescer, porque temos imensos espaços para reuniões de excelente qualidade. O Galaxy, por exemplo, abriu um óptimo centro de convenções. Portanto a questão não é a falta de centros para convenções e exposições – temos de olhar para outros pontos. Eu ensino, pesquiso, e publiquei textos sobre a indústria MICE ao longo dos anos, e é importante ultrapassar alguns destes bloqueios em torno desta indústria. As pessoas necessitam de hotéis, transportes, e de um acompanhamento que tem de ir ao encontro das expectativas elevadas deste tipo de pessoas, que são profissionais do mundo dos negócios. É que um viajante do sector dos negócios é um pouco diferente do típico viajante de lazer.

       

      E a questão da língua e outras barreiras culturais? Acha que as autoridades estão a tomar as medidas correctas para auxiliar quem não domina a língua chinesa a vir a Macau?

      Se eu estivesse numa empresa do estrangeiro, e não soubesse falar o dialecto local, isso não seria algo que me iria afectar negativamente. Eu já viajei para países onde não falam inglês, mas isso não significou que tive uma má experiência, porque há sempre a partilha de experiências de gastronomia, e outros elementos que não são comunicados através da linguagem. São transmitidos pela linguagem corporal, pela forma como as pessoas se exprimem fisicamente. Claro, a língua é um ponto importante na indústria de hospitalidade, e é parte obrigatória da formação que damos aos nossos alunos. Mas outros atributos do serviço ao cliente vão para além da língua. Temos de continuar a apostar nestas formações nas nossas universidades, e estendê-la a outros níveis, do pessoal básico aos profissionais em posições de liderança. É preciso investir em todos os níveis.

       

      Quanto à mão-de-obra, que por vezes não é suficiente para preencher essas posições de liderança, acha que vamos conseguir alcançar os objectivos de atrair quadros qualificados?

      Temos dado prioridade aos trabalhadores locais ao longo dos anos, e temos andando a investir em aumentar as qualificações dos funcionários de nível básico, e garantir que eles possam ser promovidos, algo que de resto é feito no mundo inteiro. É correcto fazê-lo, penso, mas ao mesmo tempo, quando existem falhas, em particular em algumas áreas que requeiram capacidades técnicas específicas, é preciso contratar pessoas do exterior. E isto acontece em diferentes áreas – no jogo, no entretenimento, eventos, mas também no sector médico. Quando olho para cidades mundiais e vejo a forma como atraem trabalhadores qualificados, isto é feito para ajudar a modernizar aquelas cidades, para as fazer avançar. É importante dar prioridade à qualificação da mão-de-obra local, claro, mas é central também preencher as lacunas existentes o mais rapidamente possível com mão-de obra estrangeira. Se não temos pessoas com essas competências aqui em Macau, e precisamos delas agora, temos de o fazer, se não a trajectória de evolução da cidade será bem mais lenta, obviamente.

       

      Os visitantes regionais, como diz, que vêm a Macau actualmente, acredita que vêm principalmente para jogar nos casinos, ou têm também outros interesses, de turismo cultural ou outras actividades paralelas?

      Desde o fim da pandemia que assistimos ao retorno dos turistas, mas agora observo que há mais direcção e propósito na forma como as pessoas viajam. As pessoas agora estão dispostas a passar mais tempo cá, e sobretudo querem viver experiências diferentes. O jogo, claro, vai estar sempre presente, mas este factor da experiência tem cada vez mais peso, e quando falo em experiências refiro-me à gastronomia, em visitar o centro histórico, museus, e ir a eventos, concertos, espectáculos. E Macau tem muita margem de manobra para criar pacotes nesse sentido, provavelmente em coordenação com o sector privado, envolvendo o lado histórico de Macau e o lado do entretenimento do Cotai. Tem imenso potencial. E depois também temos a evolução da geração mais nova, os adolescentes que tinham 18 ou 19 anos durante a epidemia: estes agora têm 22 anos – a geração Z – e querem passear, querem partilhar as suas experiências nas redes sociais, e têm muita facilidade no uso de aplicações para telemóvel e de qualquer tecnologia. Portanto estamos a assistir a um novo tipo de viajantes, que querem ir à vila da Taipa experimentar um pastel de nata e partilhar isso nas redes sociais. A forma como nós facilitamos esse tipo de experiências é muito importante. Se têm uma experiência negativa, ou positiva, vão partilhá-la, por isso é preciso ter em conta esta evolução.

       

      No campo académico, e nas universidades, também tem reparado em alguma transformação? Há mais estudantes internacionais a virem a Macau, e uma alteração nas relações com os países vizinhos?

      Sim, de facto. Durante a Covid-19, obviamente, houve um impacto negativo, mas agora temos cada vez mais estudantes estrangeiros – eu sou professor e orientador de tese de vários deles, aliás. E acredito que ainda virão mais. Porque Macau sempre foi, e continua a ser, uma boa plataforma para as pessoas conhecerem a China e a Ásia. Macau é uma ponte entre o oriente e o ocidente, mas também tem muitos elementos modernos, e é muito atractiva para os estudantes porque é um local com muita diversidade cultural. É um sítio onde as pessoas conseguem falar inglês, onde há tanta gastronomia diferente, etc. E depois também há o lado dos países de língua portuguesa. Recebemos muitos alunos desses países e eles podem beneficiar da presença da língua portuguesa, e de ficar a conhecer a China. E nós nas universidades também estamos sempre a participar em conferências. Eu este mês vou a uma na Austrália, para fazer uma apresentação sobre a diversificação de Macau. Portanto o nosso corpo docente também está sempre a dinamizar a situação. Estarei no Dubai em Março para falar sobre a indústria dos resorts integrados, portanto nós também damos exposição a Macau.

       

      Sim, essa tem sido uma das estratégias da DST, de participar em feiras turísticas e fazer ‘road shows’ em vários países para promover o turismo internacional.

      Eles fazem isso do lado deles, e nós como académicos, também o fazemos. Representamos a pesquisa e estudos sobre os resorts integrados, o mundo dos casinos, e tudo o que se está a passar em Macau. Viajamos por razões diferentes, mas estamos todos a contribuir para o desenvolvimento de Macau.