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      Início Entrevista "Diferenciação só será possível se se mantiver o legado da portugalidade...

      “Diferenciação [de Macau] só será possível se se mantiver o legado da portugalidade e dos macaenses”

      Carlos Piteira, antropólogo e investigador que foi recentemente eleito presidente da Casa de Macau em Portugal, quer tornar a instituição e a comunidade macaense mais visíveis, sublinhou em entrevista ao PONTO FINAL. No seu entender, “tem havido uma diluição da funcionalidade que Macau tem para Portugal”, apesar de a região ter “muito potencial dentro daquilo que é a estratégia da China”. Na entrevista, Piteira defende que a população de Macau quer “manter uma lógica diferenciada em relação ao resto da China”, mesmo depois de 2049. “Essa diferenciação só será possível se se mantiver o legado da portugalidade e dos macaenses”, afirma.

      Carlos Piteira é antropólogo e tem investigado questões ligadas à comunidade macaense. Foi eleito em Dezembro do ano passado presidente da Casa de Macau em Portugal e, em entrevista ao PONTO FINAL, diz que quer revitalizar a instituição dando-lhe mais visibilidade junto da sociedade civil portuguesa e também fazendo crescer o número de associados. Piteira diz que o sentimento de pertença da comunidade macaense acaba por se diluir em acções informais. Sobre a forma como as autoridades portuguesas têm olhado para Macau, o investigador nota uma “diluição da funcionalidade” que a região tem para Portugal, ainda que Macau tenha “muito potencial dentro daquilo que é a estratégia da China”. No que toca ao desenvolvimento recente do território, Carlos Piteira assume que houve “uma aceleração em relação àquilo que iria acontecer eventualmente em 2049”, mas defende que a população de Macau quer manter “uma lógica diferenciada em relação ao resto da China”. Essa diferenciação, sublinha, “só será possível se se mantiver o legado da portugalidade e dos macaenses”.

       

       

      Foi eleito em Dezembro como presidente da Casa de Macau em Portugal. O que é que pretende desenvolver à frente da associação? Quais os planos de actividades?

      A preocupação está mais na dinâmica do que em promessas propriamente ditas. O que queremos é tentar que a dinâmica da Casa de Macau em Portugal ganhe mais visibilidade. A questão que se coloca é que actualmente a Casa de Macau existe, mas poucas pessoas sabem que ela existe. Não tem visibilidade na sociedade civil. A grande preocupação é tornar a Casa de Macau mais visível do ponto de vista da sociedade civil em Portugal. A Casa de Macau tem um papel e esse papel não está devidamente lançado no que toca à sua representatividade. A Casa de Macau tem tido uma funcionalidade endogâmica, muito fechada para dentro, para os sócios e para algumas actividades muito concretas. Não tem relevado o seu papel na sociedade.

       

      De que forma é que isso se pode alterar?

      Introduzindo uma dinâmica que permita que, a pouco e pouco, o papel de Casa de Macau seja visto como algo que representa a história, o legado e a continuidade. É bom não esquecer que a Casa de Macau é, das instituições ligadas a Macau, a mais antiga – existe desde 1966. Como tal, temos um papel na sociedade portuguesa. Há uma questão que vou lançando que tem a ver com a preposição: É a Casa de Macau de Portugal ou é a Casa de Macau em Portugal? É uma Casa de Macau que tem origem em Portugal? Ou é uma Casa de Macau em Portugal em termos do lugar que ocupa? Eu diria que esta nuance é interessante enquanto paradigma para relançar o debate.

       

      Na sua opinião, qual das duas opções está mais correcta?

      Teremos de ser nós a redefinir. Se quisermos assumir que a Casa de Macau é de Portugal, então lançamos para a responsabilidade do Governo português e de Portugal mantê-la. Se for uma Casa de Macau em Portugal, então lançamos o repto para a dinâmica que ela tem, tendo em conta que representa a RAEM, uma Casa de Macau em Portugal que estende as suas ligações a uma conjuntura de pós-transição. Esta preocupação pode lançar um novo paradigma.

       

      Falou do papel da Casa de Macau. Que papel é esse?

      A instituição congrega os interesses dos macaenses, ela está associada a este grupo específico que está espalhado por todo o mundo. Tem esta missão de congregação da diáspora macaense e dos macaenses em Macau. Esta é uma das questões que é fundamental preservar e manter como linha de identidade. Mas ela pode ir para além disso, ou seja, pode congregar interesses de um legado histórico, daquilo que são as relações de Portugal com a China, pode congregar questões de herança patrimonial quer física quer não-física, e de alguma forma também ser relevante do ponto de vista das relações entre o Oriente e o Ocidente. Esta reconstrução dos valores e a recuperação de um paradigma funcional é fundamental nesta fase em que, de algum modo, todos nós sentimos algum desaparecimento ou desvanecer de Macau até em Portugal.

       

      Quantos associados tem, actualmente, a Casa de Macau?

      Actualmente, temos 260 no activo. Essa é uma das vertentes que acho que é fundamental revitalizar. A Casa de Macau terá tendência para congregar e aglutinar todas as pessoas que tenham algum afecto para com Macau e 260 é pouco.

       

      Tem alguma meta para o número de associados?

      No programa, um dos pontos é a revitalização dos sócios através de um aumento numérico, mas também da idade média. A lacuna põe-se muito hoje em dia na questão do perfil dos associados, que é assente quase todo em pessoas já na idade da reforma.

       

      Qual a idade média dos associados?

      Posso dizer que rondará eventualmente pessoas que andarão entre os 50 e os 60 anos. Isto é um bocado preocupante porque a continuidade exige que haja gente mais nova ligada à Casa de Macau. Isto vai exigir eventualmente aspectos ligados às mensagens e à comunicação.

       

      Tem, então, de se alterar a forma de comunicação com a camada mais jovem?

      O eixo da comunicação é fundamental. Outra das preocupações é trabalhar conteúdos e mensagens. Os tempos de hoje são os tempos das redes sociais, dos conteúdos mais atractivos, de forma a que as pessoas também percebam que a Casa de Macau também tem essa vertente de ligar as pessoas mais novas que estiveram em Macau e que querem manter este sentimento de ligação. Para além da comunicação, temos de ver que tipo de iniciativas poderão ser feitas de forma a que eles aceitem encontrar-se na Casa de Macau em vez de se encontrarem num café ou restaurante. Recuperar o sentimento de pertença. Esse sentimento de pertença está diluído em acções informais e espontâneas que poderiam ser mais formalizadas através da Casa de Macau.

       

      Quando é que toma posse?

      A tomada de posse é só em Abril. Eu estou nesta fase de dinâmica interna com os actuais membros a reflectir e a tentar conjugar ideias.

       

      Enquanto antropólogo que se tem dedicado a estudar questões dos macaenses, como é que descreveria a comunidade macaense em Portugal? É uma comunidade que se tem mantido unida? Continua a manter ligação a Macau?

      As comunidades macaenses têm um perfil muito diferenciado de outras comunidades ou etnias. Elas não se segregaram nem ficaram em torno de um determinado espaço ou realidade. Ela está diluída a nível nacional. Os macaenses habitam de Norte a Sul, sendo que Lisboa terá uma boa componente. Aqui, a Casa de Macau tem conseguido congregar uma boa parte daquilo que são os macaenses que estão em Lisboa. Os macaenses, de alguma forma, acabam por estar ligados a Lisboa, mas não é uma comunidade que sinta a necessidade de estar permanentemente a afirmar-se. Geralmente, só se reúne nas questões festivas. A gastronomia é talvez o ponto central da unificação dos macaenses em Portugal, mais do que qualquer outra coisa. Mas não há uma questão de afirmação identitária, que seria bom que, a pouco e pouco, viesse a ser também lançada. Cada vez há mais curiosidade sobre a questão da identidade macaense.

       

      Como é que, na sua opinião, Portugal tem olhado para Macau? As autoridades portuguesas deviam, de alguma forma, estar mais presentes ou atentas ao que se passa aqui?

      Mais atentas e mais presentes. Tem havido uma diluição da funcionalidade que Macau tem para Portugal no pós-transição. Há uma comunidade portuguesa em Macau que, do meu ponto de vista, precisa do apoio integral do Estado português, e esse não tem sido feito. Já nem falo dos macaenses, falo apenas dos portugueses, que se sentem órfãos de apoio. O Estado português, na sua lógica diplomática, pouco mais tem feito do que marcar presença em determinadas datas festivas. Não há uma acção estratégica no sentido de potenciar os portugueses em Macau, a particularidade de Macau através do Fórum, que se tem diluído com menos importância da presença portuguesa.

       

      Mesmo a nível das trocas comerciais?

      Diria que sim. Portugal, nos primeiros dez anos, acabou por ter uma presença muito significativa no Fórum e actualmente é quase residual. A importância passou para os outros países de língua portuguesa. Portugal, mesmo na vertente económica, não tem assegurado o papel de importância no seio do Fórum. Isso tem a ver com questões de diplomacia e da importância que se dá a Macau. Macau tem muito potencial dentro daquilo que é a estratégia da China por vários motivos, tem especificidades muito dentro daquilo que é a estratégia “Uma Faixa, Uma Rota”, daquilo que é investimento tecnológico, daquilo que é o princípio “um país, dois sistemas”. Tudo isto está a ser desprezado pelo Governo português.

       

      E como é que olha para o desenvolvimento global de Macau ao longo dos últimos anos?

      Houve uma aceleração em relação àquilo que iria acontecer eventualmente em 2049, que é a integração plena na China. A população de Macau, no seu todo, vai querer manter uma lógica diferenciada em relação ao resto da China. E essa diferenciação só será possível se se mantiver o legado da portugalidade e dos macaenses. Este é o ponto sobre o qual o futuro de Macau deve assentar.

       

      Ao nível dos direitos e das liberdades civis, nos últimos anos, assistimos a orientações patrióticas dadas a jornalistas, deputados democratas impedidos de participar em eleições, uma nova lei de segurança nacional, fomentação do patriotismo junto dos jovens. Como é que olha para isto?

      Numa fase de plena integração na China, essa seria a normalidade. Mas há dois fenómenos que é preciso ter em conta. Primeiro, os acontecimentos de Hong Kong, que levaram a uma necessidade de intervenção mais abrupta para lidar com o fenómeno de contestação social. Isso acelerou o processo. Depois foi o Covid, que permitiu uma intervenção mais autoritária e directa. Isso trouxe a Macau uma novidade que ninguém tinha sentido. Mas em Portugal também sentimos isso, os princípios da liberdade foram todos cortados em qualquer lado do mundo. É óbvio que na China e em Macau isso veio mais ao de cima por questões de regime. Há danos colaterais provocados por estes dois fenómenos que acabam por introduzir antecipadamente alguma realidade que deveria ser gradual e lenta até 2049.

       

      Que efeitos é que esses “danos colaterais” têm junto da população?

      O que temos é um alargamento do sistema da República Popular da China a zonas onde, à partida, deveria haver alguma autonomia, como é o caso das regiões administrativas especiais de Macau e Hong Kong. Esta extensão da política da República Popular da China vem em conformidade com uma antecipação daquilo que provavelmente iria suceder em 2049. A questão do patriotismo nunca desapareceu nem vai desaparecer. A questão das liberdades coloca-se na China tal como noutros regimes idênticos. Para quem tenha vivido em circunstâncias diferentes, acabam por ser incomodativas, mas esse seria o resultado final num processo de transição gradual.

       

      Então, diria que se chegou ao destino final cedo demais?

      Diria que antecipámos uma parte daquilo que seria o destino final. Ainda há algumas salvaguardas da declaração conjunta.

       

      E neste contexto a comunidade portuguesa e macaense continuam a ter espaço?

      Eu diria que sim. Se houver uma estratégia de canalizar interesses portugueses e macaenses para Macau, a tendência será crescer do ponto de vista da intervenção dos agentes sociais. Se não nos preocuparmos com isso e deixarmos as pessoas saírem e não dermos apoio e não incentivarmos uma presença significativa do papel dos cidadãos portugueses de diferenciação com outros cidadãos estrangeiros em Macau, e dos macaenses enquanto realidade distinta, se deixarmos isto diluir naquilo que é a Grande China, então não vejo nada de bom para Macau. Mas, se conseguirmos nos próximos 25 ou 30 anos ir lançando bases para uma continuidade da importância da presença portuguesa enquanto estrangeiros diferenciados e dos macaenses enquanto nativos diferenciados, temos aí dois elementos fundamentais para que Macau sobreviva ainda com aquilo que é a sua singularidade.