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      Início Parágrafo Parágrafo #86 “Clepsidra olha de forma crítica para a tradição literária portuguesa imperial”

      “Clepsidra olha de forma crítica para a tradição literária portuguesa imperial”

      Há uma nova tradução de Clepsidra, de Camilo Pessanha, em língua inglesa. O seu autor é Adam Mahler, para quem a poética do escritor está intimamente ligada a Macau e a tudo quanto é marítimo na lírica portuguesa. A importância do território na obra do poeta ainda está por aferir, acredita. Este ano, Mahler será um dos convidados do Festival Literário de Macau.

      A juventude de Adam Mahler pode surpreender os mais incautos. Aluno distinto em Yale, actualmente a fazer doutoramento em Harvard, especialista nas tradições poéticas medievais e modernistas de Portugal e Espanha, bolseiro da Fundação Fulbright, assinou no ano passado uma nova tradução de Clepsidra, de Camilo Pessanha. Clepsydra and Other Poems (Tagus Press, University of Massachusetts-Dartmouth) é um olhar actualizado sobre a obra maior de Pessanha.

      Conte-nos como chegou ao estudo da língua portuguesa e em particular da obra de Camilo Pessanha?

      Adam Mahler (A.M.) – Descobri a obra de Camilo Pessanha em 2013, quando era caloiro em Yale. Já tinha estudado português, de modo informal, antes de entrar na faculdade. Como havia pouca oferta em termos de cursos de português, inscrevi-me numa oficina de tradução literária liderada pelo grande tradutor de poesia hebraica, Peter Cole. Ainda não tinha conhecimentos robustos sobre a tradição literária portuguesa, então perguntei ao orientador, David Jackson, se havia alguma obra em língua portuguesa negligenciada pelos leitores norte-americanos. Sugeriu que lesse a Clepsidra, de Camilo Pessanha, dada a altíssima qualidade literária da mesma, bem como as intrigantes circunstâncias biográficas em volta do livro. Quando deitei a mão ao livro, fiquei logo maravilhado pelo seu grande mérito artístico.

      Em 2013 faz as suas primeiras versões dos poemas de Pessanha e da Clepsidra em inglês. Essas versões são bem diferentes das que chegaram agora ao formato livro – como vê a sua evolução enquanto tradutor à luz destes poemas?

      Ainda bem que fala disso. Essas traduções foram publicadas ilegalmente e ando há anos a tentar tirá-las do repositório digital onde estão hospedadas. Respondendo de forma mais concreta à sua pergunta, a diferença óbvia é que na altura não dominava o dificílimo registo linguístico que caracteriza a obra, portanto as traduções nem sempre correspondem de forma estreita ao texto original. Dito isto, nessa primeira aproximação à tradução de Pessanha, estava a experimentar vários métodos de tradução, por exemplo a tradução homofónica praticada pelo modernista Louis Zukofsky. As traduções que surgiram dessas precoces experiências literárias confirmam, acho, a vitalidade da obra de Pessanha.

      Esteve em Portugal a estudar com uma bolsa Fulbright. Quão importante foi esse período no país para compreender os poetas que até então apenas lia e traduzia? Em Portugal sentiu-se a “viver” esses poetas?

      Foi, de facto, importante “viver” a obra de Pessanha nesse ano da Fulbright. Foi então que me pus a traduzir a Clepsidra. A exposição que tive à língua portuguesa, na sua multiplicidade, foi um ótimo treino para a tarefa hercúlea que é traduzir um poeta simbolista do século XIX. Para além disso, foi sempre uma motivação saber do grande interesse que ainda hoje se desperta pela obra de Pessanha. Assim confirmei que, uma vez traduzida ao inglês, a Clepsidra teria um público receptivo.

      A época em que Pessanha viveu e a sua biografia estão, como quase sempre acontece, intimamente ligadas à sua criação artística e poética. Gostava por isso de lhe perguntar sobre Macau. Quando foi a primeira vez que ouviu falar de Macau na vida de Pessanha e que curiosidade lhe despertou esse lugar remoto para onde o poeta se encaminhou? Leu sobre a vida de Pessanha em Macau?

      Tem-se escrito muito pouco sobre o impacto que a sua longa estadia em Macau teve na vida e na produção de Pessanha. Pessanha tem sido vítima de uma lascívia biográfica, que visa reduzir o autor a um mero viciado em ópio. Tal retrato reduz, inevitavelmente, a cidade a casa de ópio. Por outro lado, muitos críticos literários preferem minimizar a cidade como factor na produção literária de Pessanha, salientando que muitos dos poemas que integram a Clepsidra foram escritos e datados desde a metrópole. Na minha produção científica, tenciono problematizar as duas tendências críticas, lembrando que muitos poemas foram escritos depois de o poeta se ter mudado para Macau, como afirma Paulo Franchetti, e analisando as escassas mas importantíssimas referências à cultura chinesa que salpicam a Clepsidra. É de notar, ainda, que o mais importante ensaio crítico assinado pelo poeta [«Macau e a Gruta de Camões», publicado em O Progresso] trata da relação entre Camões e Macau, o que parece afirmar o importantíssimo papel que a cidade teve no conceito que Pessanha teorizou em relação à poesia portuguesa/imperial.

      Como descreveria a importância que Clepsidra tem hoje em dia?

      Para leitores portugueses, julgo que a Clepsidra olha, às vezes de forma bastante crítica, para a tradição literária portuguesa imperial, mesmo que Pessanha a louve nos seus ensaios críticos. Foi muito inovador na sua aproximação literária ao “marítimo”, elemento que tem tido sobejo protagonismo na tradição portuguesa. Camões fala muito da chamada conquista do mar. Pessanha, por outro lado, canta um mar outrora conquistado, desde as margens do Rio das Pérolas, traçando-se um sujeito marítimo pós-colonial. Para quem o lê em inglês, mesmo tendo poucos conhecimentos da literatura portuguesa, podem saborear-se a música e as fascinantes imagens que surgem do colapso do sujeito lírico, o que prenuncia o modernismo literário em qualquer literatura europeia.

      Falemos da sua tradução. Descreve Pessanha como o “poeta do som”. Como captar essa musicalidade numa tradução de português para inglês e como preservar o que vai além do som?

      O próprio Pessanha dissolve as fronteiras entre som e imagem, então diria que se pode captar boa parte da musicalidade preservando as imagens do poeta, e vice-versa. Ao traduzir Pessanha, acrescente-se, cheguei a acreditar na ideia da “tradução transversal”, quero dizer, o que se perde localmente, num verso ou numa estrofe, recupera-se noutro sítio, seja na estrofe seguinte ou noutro poema. É esse o privilegio—o prazer—de traduzir um livro inteiro.

      O que lhe parece que distingue a sua tradução de outras já existentes?

      É bom podermos contar com várias traduções do mesmo livro. A capacidade infinita da retradução é, para qualquer tradutor, motivo de celebração. Posso dizer que, ao descartar o esquema de rima, creio ter resultado um Pessanha bastante “moderno”, o que pode ampliar o alcance do livro e promover novos diálogos literários.

      Uma pergunta que parece simples mas pode não ser: tem um poema favorito de entre os poemas de Pessanha?

      A resposta é mais simples do que imagina: “Phonograph” [Fonógrafo], sem dúvida, sendo esse o primeiro poema que traduzi. Esse, por motivos desconhecidos, foi-me fácil de traduzir, e portanto foi dando o incentivo tão necessário ao tradutor.

      Está convidado para a próxima edição do Festival Literário de Macau, que acontecerá em Março. Entusiasmado com essa viagem?

      Entusiasmadíssimo. Ando a escrever sobre a relação entre Pessanha e Macau, será muito importante conhecer a cidade, saber mais da sua recepção pelas pessoas de Macau hoje em dia, e descobrir outros poetas regionais, seja qual for a língua deles.