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      “Os atletas de Macau dedicam a sua alma e suor a este desporto”

      Ho I Cheang, ou Coco, como é mais conhecida, entrou para um lote muito restrito de pessoas de Macau que conquistaram um IFBB Pro Card, um dos maiores feitos que se podem alcançar na indústria do Bodybuilding, após um terceiro lugar na classificação geral no Tokyo Olympia Amateur, no Japão. Em entrevista ao PONTO FINAL, Coco descreveu um caminho de sacrifícios, mas também de reconhecimento e disciplina, considerando que há muitas pessoas em Macau que têm um grande potencial neste tipo de modalidade.

       

       

      Um terceiro lugar no Tokyo Olympia Amateur, uma das mais prestigiadas competições de culturismo para os atletas amadores que pretendem tornar-se profissionais, garantiu um IFBB Pro Card a Ho I Cheang. Depois de um percurso com altos e baixos e, sobretudo, de grande aprendizagem, a culturista de Macau conseguiu atingir o seu objectivo e aponta agora a voos ainda maiores no mundo do fitness.

       

      Conseguiu no Japão o IFBB Pro Card, um dos maiores feitos na indústria do Bodybuilding. Qual é a sensação?

      O meu treinador, Joseph Wu, e eu estamos muito felizes. Há mais de um ano que viajamos para diferentes países para competir, adquirindo conhecimentos e experiências valiosas ao longo do caminho. Foi uma oportunidade única na vida.

       

      Como foi o percurso até chegar a esta competição?

      Ir ao Japão e ser avaliada pelos juízes principais do USA Olympia foi algo ambicioso para nós. Antes de partirmos para o Japão estávamos muito concentrados no nosso treino para cumprir os critérios na competição de biquíni. Eu precisava de uma desintoxicação das redes sociais para me concentrar nesta realidade. Foi definitivamente stressante, mas uma experiência memorável.

       

      Como foi a preparação para o evento?

      Fisicamente, precisei de aguentar o desconforto de manter um baixo nível de gordura corporal, treinos de musculação de alta intensidade e exercícios cardiovasculares prolongados. Mentalmente, continuei a ter dúvidas, mas fui exposta a um forte sistema de apoio construído pelos meus amigos e família, especialmente o meu treinador e marido, que nunca duvidou das minhas capacidades e me encorajou a encontrar o meu melhor potencial durante o treino. Sou uma mulher de sorte.

       

      Depois de tantos sacrifícios em termos de dieta, assim que terminou a competição qual foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça e que queria comer?

      Durante a preparação nunca tive vontade de comer algo em especial. Tinha “fome” de ganhar o IFBB Pro Card. Mesmo depois da competição, continuo a comer as minhas refeições preparadas, só que com mais arroz. Estou grata por estar bem alimentada e não passar fome. Se me perguntassem qual é a minha comida preferida, teria de dizer donuts. Se me dessem a oportunidade, deliciar-me-ia com eles todos os dias, tal como um polícia americano.

       

      As pessoas que se dedicam ao fitness costumam ter as chamadas ‘cheat meals’. Qual é a sua?

      Este ano só tive um ‘cheat meal’ porque me sentia extremamente stressada e o meu corpo não estava bem. Normalmente não me permito fazer ‘cheat meals’, mas dessa vez comi gelado, hambúrgueres e bolo. Infelizmente, devido ao stress, não consegui apreciar a comida e pensei que seria da Covid. Agora já sinto novamente o sabor, por isso não se preocupem comigo.

       

      Como é que este feito vai afectar a sua carreira de culturista daqui para a frente?

      A partir de agora, deixarei de ser um atleta amador. Vou concentrar-me na qualificação para os Jogos Olímpicos. Ganhar o estatuto de profissional é definitivamente uma mudança de vida, mas ainda há muito a aprender como ser humano e atleta. Estamos realmente ansiosos pelo futuro.

      Como é o dia-a-dia de uma mulher culturista em termos de alimentação e de treino?

      Relativamente à minha alimentação, sigo a minha macro-nutrição e faço alterações de acordo com o processo de preparação para a competição. A minha alimentação diária é simples, principalmente arroz, carne, ovos e legumes. Nada de especial. No que diz respeito ao treino, concentramo-nos principalmente na parte inferior do corpo, uma vez que os critérios da parte de biquíni centram-se nos músculos da parte inferior do corpo. Treino cinco vezes por semana e descanso dois dias. Levantamento de pesos, cardio e um bom descanso são os segredos.

       

      Quais foram os maiores desafios ou sacrifícios que teve de fazer durante este percurso?

      O culturismo é um desporto egoísta. Como atleta, temos de investir 99% do nosso tempo no treino e concentrarmo-nos na preparação para as competições. Sacrifiquei o tempo que passava com a minha família e amigos, não podia ter reuniões ou jantares com outras pessoas e faltei a aniversários e a muitas outras festas. As pessoas provavelmente acreditam que viajar para diferentes países para competir é um processo agradável, mas ter um físico pronto para a competição é muito cansativo. Depois das competições não tinha muita energia para viajar, mas sei que os sacrifícios valem a pena.

       

      O que a fez começar a seguir este estilo de vida?

      Em 2021, o meu marido e eu começámos a gostar muito de fitness. Fomos fortemente influenciados por atletas do Olympia, como Ronnie Coleman, Lauralie Chapados, Janet Layug, Jennifer Dorie e Jeremy Buendia. Por isso, decidimos participar em competições depois de um amigo nosso o ter sugerido. No início, éramos dois novatos que não sabiam como se preparar para uma competição. Lentamente, à medida que íamos competindo noutras cidades, fomos aprendendo com os erros e os fracassos. A perda de lugares não afectou o nosso amor e paixão pelo culturismo; pelo contrário, fez-nos avançar. Esperemos que, no futuro, possamos encontrar os atletas olímpicos no palco como colegas.

       

      Como residente de Macau, o que acha do potencial dos culturistas da cidade?

      O culturismo é um desporto de nicho em Macau. As pessoas fora da comunidade do fitness podem não compreender o encanto do culturismo, mas os atletas de Macau dedicam a sua alma e suor a este desporto. Actualmente, existem apenas dois eventos de culturismo em Macau. Precisamos definitivamente de mais federações que ofereçam oportunidades aos aspirantes a atletas de Macau. Acredito que os atletas de Macau têm um bom potencial para competir com atletas de outros países. Lembrem-se que a nossa origem não decide o nosso destino.

       

      Nos últimos anos, abriram muitos ginásios em Macau. Isto é um sinal de que mais pessoas em Macau estão a entrar no mundo do fitness?

      Sim, creio que a Covid desempenhou um papel importante neste fenómeno. Depois da Covid, as pessoas estão a levar a sério a sua saúde e bem-estar. É bom ver que o fitness está a começar a tornar-se uma tendência em Macau.

       

      Ganhar o estatuto de profissional significa que terá algum patrocínio para futuras competições? Como é que isso funciona?

      O patrocínio surge quando se mostra às empresas que se tem influência como atleta profissional. Tenho de desenvolver as minhas redes sociais e ter boas classificações nas competições profissionais. Não tenho nenhum patrocínio agora, mas tudo virá naturalmente à medida que eu trabalhar duro para atingir os meus objectivos. Agradeço imenso a qualquer marca que queira patrocinar-me.

       

      Já se está a preparar para outra competição ou vai estar em descanso durante algum tempo?

      Mentalmente, nunca estarei fora deste ritmo, mas fisicamente, sim. Vou permitir-me ganhar alguns quilos, mas vou concentrar-me sobretudo em aumentar a massa muscular para ser competitiva nas competições profissionais. Apesar de estar fora de competição, vou fazer com que cada dia conte e não vou desleixar-me. Os exercícios cardiovasculares continuarão a fazer parte da minha rotina diária e continuarei a praticar a pose até que esta se torne o meu ponto forte. Tenho uma grande ambição, mas não um grande ego, e vou dar o meu melhor na minha estreia como profissional.

      Como é que compara a indústria do fitness de Macau com outras regiões da Ásia, por exemplo?

      Outras regiões da Ásia desenvolveram um sistema de apoio maduro para os atletas profissionais, como patrocínios e colaborações. Em Macau, a indústria ainda se concentra no negócio dos ginásios, mas acredito que esta situação vai melhorar, uma vez que há mais atletas de Macau ambiciosos e talentosos à espera do momento certo para brilhar.

       

      Pensa em participar noutros eventos de nível mundial na Europa ou nos EUA, por exemplo, onde a indústria do fitness é normalmente maior?

      Sou uma competidora discreta e não costumo falar sobre os meus planos de competição. Gosto do silêncio quando ninguém sabe qual será o meu próximo passo. Nas competições amadoras nunca falei até elas acontecerem. É esse o meu estilo, as pessoas nunca sabem onde vou estar e do que sou capaz.

       

      Que conselho daria às mulheres que querem seguir os mesmos passos no culturismo?

      Encontrem um bom treinador que vos guie através dos obstáculos, mantendo-se dentro das vossas capacidades financeiras. Lembrem-se de manter a disciplina e não apenas a motivação. A motivação desvanece-se, mas a disciplina mantém-se. Por último, mas não menos importante, lembrem-se de que são uma superestrela quando estão em palco. Façam a caminhada e sejam as donas do palco!