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      Início Desporto "Achei por bem afastar-me da equipa e dar lugar aos mais novos"

      “Achei por bem afastar-me da equipa e dar lugar aos mais novos”

      Filipe Duarte decidiu afastar-se da selecção de Macau. Ao fim de oito anos a representá-la, a decisão surgiu depois da eliminação de Macau da corrida ao Mundial de Futebol de 2026 por Myanmar. Em entrevista ao PONTO FINAL, o defesa-central revela que o fim da carreira está muito perto. Filipe Duarte deixa também reparos à Associação de Futebol de Macau e ao Instituto do Desporto no que toca à organização e à promoção da modalidade, mas mostra-se optimista face ao futuro do futebol em Macau.

       

      Ao fim de oito anos a representar a selecção de futebol de Macau, Filipe Duarte decidiu que já chega. “É com tristeza que deixo a selecção”, afirmou. O defesa-central deixa assim de representar a RAEM e, em entrevista ao PONTO FINAL, revelou que em breve vai pendurar as botas. O futebolista, que chegou a representar as selecções de Portugal e que em 2011 aterrou em Macau, lamentou a falta de organização e de promoção da modalidade por parte da Associação de Futebol de Macau e do Instituto do Desporto, e também a escassa competição, nomeadamente durante os três anos de restrições pandémicas. Ainda assim, Filipe Duarte vê luz ao fundo do túnel. “Acredito que, daqui a cinco, seis, sete anos, se Macau continuar aberto e continuar a apostar, vão aparecer novos talentos”, apontou.

       

       

       

      Fez no dia 17 de Outubro o último jogo pela selecção de Macau. Com que sentimento é que encara esta saída da selecção?

       

      Isso já tinha sido pensado. Está a ser a minha última oportunidade para dar os meus últimos toques profissionalmente. Foi no jogo de apuramento e tínhamos a possibilidade de ir à fase de grupos da qualificação para o Campeonato do Mundo. Se, por acaso, tivéssemos passado, talvez fizesse sentido ainda ajudar a equipa a fazer os próximos jogos. Neste caso, não passando, achei por bem afastar-me da equipa e dar lugar aos mais novos. Também estou a ficar cansado [risos].

       

      É com tristeza que sai agora da selecção de Macau?

       

      É com tristeza que deixo a selecção. Comecei a jogar à bola com nove anos e deixar agora o futebol, deixar de entrar no balneário, equipar-me, entrar para dentro do campo, ir treinar… Sim, isso vai custar muito.

       

      Já pensa, então, no final da carreira?

       

      Sim, sim.

       

      Está para breve?

       

      Sim. Não é muito pela idade, é mais porque o corpo já está a pedir algum descanso. Tenho os meus treinos, tenho os treinos do CPK, os treinos da selecção. Tem sido muito desgastante, principalmente nestes últimos três meses. Estão a ser os meus últimos cartuchos.

       

      Mas já estipulou uma data para o final da carreira?

       

      Ainda não, mas deve estar para breve.

       

      E qual o passo seguinte? Em 2019 deu uma entrevista ao PONTO FINAL em que dizia que, depois do fim da carreira como futebolista, gostava de continuar ligado à modalidade em Macau, possivelmente como preparador físico de uma equipa profissional. Esse desejo mantém-se?

       

      Sim, mantém-se. Fizeram-me um convite para trabalhar com a Associação de Futebol de Macau, sendo que ainda não sei bem qual a posição, mas penso que será para trabalhar com a nova geração, trabalho de ginásio e físico. Mas ainda não há nada em concreto.

       

      Estreou-se na selecção de Macau em 2016. Em representação da selecção, qual é que foi o ponto mais alto ao longo destes anos?

       

      O ponto mais alto deve ter sido antes do Covid, em 2019, quando jogámos o apuramento para o Campeonato do Mundo de 2022, em que ganhámos 1-0 ao Sri Lanka e eu fiz o golo. Depois não jogámos a segunda mão porque foi o tal problema de não nos deixarem viajar [na altura, a Associação de Futebol de Macau decidiu não enviar a selecção ao Sri Lanka para a segunda mão do jogo de qualificação do Mundial 2022 devido aos atentados terroristas que tinham ocorrido no país. A situação gerou mal-estar entre os jogadores].

       

      Isso fez com que muitos jogadores da selecção dissessem que não iriam voltar a representar Macau.

       

      Inclusivamente, eu fui um dos que disse que não jogava mais pela selecção.

       

      Depois voltou atrás na decisão…

       

      Alguns jogadores voltaram atrás, outros não. Eu voltei atrás.

       

      Não se arrepende?

       

      Não, nada.

       

      Em 2016, como é que encarou representar a selecção de Macau?

       

      Eu tive a sorte de poder jogar pela selecção de Portugal dos 14 anos aos 20. Voltar a representar uma selecção, neste caso a de Macau, é sempre um privilégio. Infelizmente não tem o impacto que tem em Portugal, mas é sempre um orgulho. Eles receberam-me muito bem. O próprio Duarte [Alves], presidente do Benfica de Macau, fez um trabalho excelente, deu-me todas as condições quando vim para o Benfica. Deu-me o BIR e encontrou todas as formas para eu poder representar Macau.

       

      Foram oito anos bons?

       

      Foram, foram.

       

      Despediu-se agora da selecção depois de Macau ser eliminada da qualificação para o Campeonato do Mundo pelo Myanmar. Macau ainda não tem condições para competir com estas equipas? Porquê?

       

      É preciso darem as melhores condições aos jogadores e à equipa técnica. Macau esteve sem jogar durante três anos. Todas as equipas contra quem nós jogámos, nestes últimos três anos, fizeram entre dez a 20 e tal jogos. Nós não somos profissionais, o pessoal tem trabalho, não conseguimos fazer um estágio nem que seja de cinco dias na China, nem mesmo em Macau, ir dormir a um hotel e voltar para o treino. Não dá porque há sempre alguém que tem de trabalhar ou outra coisa. O Myanmar esteve dez dias em estágio. É completamente diferente de uma equipa em que alguns vêm treinar hoje, no dia a seguir vêm outros, no dia a seguir temos de ir treinar aos clubes. Isto tudo devia ser muito mais bem gerido pela associação, pelo Instituto do Desporto e pelos clubes. A associação devia juntar muito mais vezes os clubes e falar com eles. Os clubes é que suportam os jogadores e deviam arranjar maneira de trabalharem em conjunto.

       

      Há falta de organização? É isso que também impede o crescimento da selecção?

       

      Sim, sem dúvida.

       

      Falou há pouco dos três anos em que quase não jogaram pela selecção. Os anos da pandemia também foram prejudiciais para os jogadores de futebol?

       

      Claro que sim. A realidade do futebol não é jogar em Macau. Estes jogos internacionais são necessários para ganhar outro ritmos, para termos outro nível competitivo, outro andamento. Só isso é que vai dar crescimento ao futebol de Macau. A própria Liga tem equipas boas e depois tem equipas muito más. Num fim-de-semana ganhas 1-0 e no fim-de-semana a seguir ganhas 20-0. Isso não pode acontecer. O campeonato tem de ser muito mais competitivo, se não os jogadores não evoluem. Há jogadores com qualidade, mas não evoluem porque não passam disto.

       

      A selecção de Macau está agora no ranking 187 da FIFA. É uma posição justa para o nível da selecção?

       

      Acho que sim. Depois do que Macau fez nos últimos três anos, acho que sim. Não me lembro de ter feito tantos jogos em paragens FIFA como fiz este ano. Este ano, cada vez que houve uma paragem FIFA, nós tivemos jogo, o que foi excelente. Foram seis ou sete jogos num ano. Quando há paragens FIFA, quase todas as equipas do mundo jogavam e nós não.

       

      Então quer dizer que este ano as coisas estão a melhorar…

       

      Eu acho que sim, espero que seja para continuar. É verdade que perdemos os jogos todos e empatámos este último. Mas é importante porque nós precisamos deste tipo de jogos, precisamos de jogar.

       

      Desde que chegou a Macau, excluindo estes últimos três anos, viu alguma evolução no futebol da região?

       

      Eu acho que houve uma evolução, mas depois parámos no tempo com esta paragem. Eu acredito que, daqui a cinco, seis, sete anos, se Macau continuar aberto e continuar a apostar, vão aparecer novos talentos. Com as academias do Benfica, Sporting, CPK, Ivo, South America, até mesmo o próprio Instituto do Desporto, Macau pode vir a tirar frutos disso. É preciso é arranjarem competição para os miúdos. Estes miúdos não jogam à bola, só treinam. Basicamente, fazem dez a 20 jogos por ano. Eu, com 14 anos, já fazia 40 ou 50 jogos por época; eles fazem dez…

       

      Chegou a Macau em 2011, já com uma carreira em Portugal. Qual é que foi a primeira reacção em relação ao futebol aqui em Macau?

       

      Os colegas de equipa, a qualidade, os campos, um pouco de tudo…

       

      Mas pela negativa?

       

      Sim. Infelizmente, sim.

       

      O nível estava uns furos abaixo, é isso?

       

      Não é para me estar a gabar, mas muita coisa mudou com a minha chegada, principalmente no Benfica. O Benfica trouxe algo ao futebol de Macau que não existia. As condições que o Benfica foi dando aos jogadores e trazer mais e mais jogadores, trazer treinadores, etc. Isso mudou muito o futebol em Macau. As outras equipas foram evoluindo muito à custa do Benfica.

       

      O Instituto do Desporto e a Associação de Futebol de Macau têm feito um bom trabalho para promover a modalidade em Macau, não apenas na parte desportiva, mas também na promoção?

       

      Custa-me muito dizer isto, mas não. O futebol não é só jogar, há que promover o jogador local. É necessário levar os jogadores às escolas, dar a conhecer, dar-lhes patrocínios com marcas locais, fazer com que eles apareçam mais nas redes sociais. Eles têm de ser conhecidos na rua. Aparecer mais na televisão, em posters, etc. Falta isso em Macau. O jogador não é profissional e, se não o promovem, vai procurar outros trabalhos. Uma pessoa quer comprar uma camisola da selecção de Macau e não consegue, por exemplo. Nesse aspecto, acho que o Instituto do Desporto devia trabalhar melhor com a associação. Custa-me dizer isto, mas é a realidade.

       

      O futebol em Macau acaba por não levar muitas pessoas aos estádios. É uma questão cultural? Não há muito interesse na modalidade?

       

      É um bocadinho de tudo. Se não se vai às escolas para promover os jogadores de futebol, se não dizem na televisão quando é que vão ser os jogos, se não há sessões para fotografias, por exemplo, as pessoas não sabem. Fui jogar ao Camboja e ao Myanmar, e logo no aeroporto estão fotos enormes dos jogadores. E estamos a falar de países pobres. É a diferença.