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      Início Opinião A guerra e a política: irmãos siameses

      A guerra e a política: irmãos siameses

       

      Carl von Clausewitz autor do marcante Vom Kriege (Da Guerra) terá afirmado que a guerra é a continuação da política por outros meios. Apontava para a essencialidade do conflito humano bem presente na história. O autor prussiano no contexto histórico em que viveu pressupôs que a guerra deveria estar submetida aos objectivos da política no sentido de que nenhuma guerra seria travada se não se compreendesse bem o que alcançar, as capacidades, as oportunidades prosseguidas e os limites do uso da força bruta.

      O livro foi escrito na segunda década do século XIX e reflecte bem a natureza regulamentada e previsível das guerras desse tempo e das contrições da ética impostos à acção dos exércitos e ao planeamento dos estados-maiores. Desde então a humanidade esteve envolvida em duas guerras mundiais e em sangrentos conflitos, um pouco por todo o mundo. O cômputo das vítimas foi crescendo à medida que a tecnologia militar introduziu novas capacidades de eliminação do inimigo, contornando as tecnologias de defesa que surgiram em contraponto ao efeito letal das armas.

      Durante o século XX em razão da propagação do marxismo e da sua teoria da luta de classes e eliminação do capitalismo foi introduzida na ciência da guerra e da estratégica uma distinção entre as guerras justas e as injustas. Nessa lógica antinómica as primeiras conduziam  à libertação dos povos e as segundas à opressão pelos colonialismos e imperialismos.

      Replicando uma lógica maniqueísta, essa ideologia política introduziu uma segmentação ética e moral entre a “justa” eliminação dos adversários e a morte dos “mártires” nos combates pela libertação dos oprimidos. Já Lenine mas sobretudo Trotsky e depois Mao requalificaram a natureza da eliminação dos adversários como se eles fossem seres desprovidos de humanidade. Faliram por isso os juízos de equilíbrio e proporcionalidade até prevalecentes.

      Todos os movimentos de libertação incorporaram na sua luta armada esta lógica brutal em que se multiplicaram os chamados crimes contra a humanidade no tratamento dos combatentes das forças adversárias. Ainda no século XX a explosão do terrorismo jihadista em razão da disseminação da doutrina de  Mohammad Ibn Abdul Wahhab, erudito sunita, teólogo, pregador, activista, líder religioso, jurista, e reformador veio instilar na cultura islâmica uma dimensão belicista e pan-religiosa expansionista.

      No contexto dessa doutrina a guerra deixou de ser para uma parte significativa da humanidade, localizada num certo espaço territorial, um processo político e militar para lograr determinados objectivos territoriais ou políticos para se tornar um empreendimento religioso, uma “guerra santa” destinada a estabelecer um estado islâmico global.

      Sem um comando unificado multiplicaram-se partidos e forças que se reclamam da ideologia jihadista como a Al Qaeda fundada por Osama bin Laden, o ISIS, o grupo Taliban no Afeganistão, o grupo Al-Shaban na Somália e Africa Oriental, a Jihad Islâmica da Palestina, da Síria, do Iraque e o Hamas na Palestina.

      Traços comuns a estes grupos encontra-se a prática do terrorismo para eliminação e desnorte das forças inimigas e a utilização de crianças ou mulheres como bombistas-suicidas contra objectivos militares e centros populacionais. Aspecto relevante na acção violenta destes grupos é o desaparecimento da linha de separação entre objectivos militares e a defesa das populações civis. A morte e a decapitação de civis (como a actuação do ISIS o comprova) passou a ser tida como uma táctica legítima justificada pela ideologia jihadista.

      O terrorismo e estes grupos tornaram-se uma ameaça muito séria à segurança colectiva e à pacificação da sociedade internacional inclusive para estados que se alinhavam pelos princípios da Conferencia de Vestefália. Segundo Global Data Base da Universidade de Maryland, em 2021 ocorreram 23.692 ataques terroristas de que resultaram 30.000 mortos o que correspondeu a uma subida de 19% quanto ao ano anterior. Dessas vítimas cerca de 43,5%, isto é 12.844 mortes ocorreram no Médio Oriente e no Norte Africa, zonas onde o Islão mais radical é preponderante. Dos ataques analisados por aquela plataforma, mais de 88% foram realizados através de ataques à bomba e assaltos armados.

      Os apelos à paz e à salvaguarda do direito internacional valem muito pouco contra quem não aceita estas regras como universais e vinculantes, privilegiando o uso da força bruta. Nas suas convicções católicas tanto o Papa Francisco como o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, desvalorizam esta lógica comum a muitos conflitos contemporâneos designadamente a actual guerra no Médio Oriente.

      Estes líderes têm dificuldade em perceber esta conflitualidade endémica porque estão imbuídos da ética cristã transmitida por valores como a bondade e o respeito pela vida humana, a humildade, generosidade, o autocontrolo, o perdão e a condescendência. Valores absolutamente estranhos à vivência do Islão propugnada por esses grupos e as comunidades que influenciam e inspiram.

      No meio da destruição que tem lugar em Gaza não passa despercebido o sentimento de ódio dessas comunidades para com os judeus e Israel e o desejo da sua eliminação física. Isso explica os actos de brutalidade do 7 de Outubro, os sequestros de mulheres e crianças e os actos de pilhagem de habitantes de Gaza contra as comunidades agrícolas do sul de Israel.

      Se por absurdo o Hamas triunfasse na actual guerra contra Israel o ataque às cidades e comunidades do país seria imediato. Percebe-se a indignação de muitas pessoas de bem com as mais de 10.000 vítimas das actuais operações de Israel em Gaza e o seu eco na comunicação social. Não haverá ninguém que não queira o regresso à paz e à convivência entre judeus, cristãos, druzos e palestinianos.

      Contudo a criação de um estado palestiniano não pode implicar a eliminação de Israel, a única democracia no Médio Oriente. A viabilização de um novo estado regional não pode conduzir ao desaparecimento do existente.

       

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais