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      Portugália estreia-se com noite tradicional de fado à porta fechada e luz de velas  

      Silêncio, que mais logo, a partir das 19h30, se vai cantar o fado. O novo espaço do restaurante Portugália no n.º 75 da Rua dos Clérigos, na vila da Taipa, aposta a fundo nas noites de fado com um menu exclusivo, xailes nas paredes, ambiente escuro e íntimo, onde apenas pode entrar quem quer passar pela experiência autêntica de uma noite de casa de Fado.

       

       

      Esclarecendo ao PONTO FINAL que esta não é a primeira vez que organiza noites de fado, Diogo Vieira referiu que, antes da epidemia, tinham regularmente noites de fado na antiga localização do restaurante. “Antes estávamos perto do OTT, e agora estamos mesmo na rua ao lado do Starbucks, junto à Rua do Cunha”. Revelando que a mudança para o novo espaço ocorreu em finais de Abril passado, esclareceu que depois da pausa da pandemia, agora as noites de fado prosseguem com um novo formato.

      “Nos eventos que fazíamos antes – fazíamos sempre uma vez por mês – era algo complementar aos jantares, a música ao vivo”. Como a antiga localização tinha três andares e três salas “muito pequenas”, não era possível fazer uma noite de fado “como uma casa de fado a sério”, em que o espaço é maior e os artistas podem estar apenas num só local a cantar.

      “O que acontecia antigamente é que as pessoas vinham jantar, e os guitarristas e a fadista dividiam a noite toda pelos três andares, e cantavam só uma ou duas músicas de cada vez. Não era na verdade na sua essência uma noite de fado mais tradicional”, admitiu. Estas limitações de espaço e também a afluência de públicos diferentes resultava também em alguns clientes ficarem insatisfeitos, já que vinham expressamente para ouvir fado, mas depois noutras mesas outros clientes não tinham ido para o estabelecimento com esse intuito. “Acabavam por falar e incomodar quem queria ouvir o fado”.

      Agora, no novo espaço de dois pisos na Rua dos Clérigos, porque o primeiro piso é maior, com 20 a 24 lugares sentados, pode-se criar um espaço “exclusivo”, fechando-se esse andar “apenas e só para a noite de fado, com um menu exclusivo a acompanhar essa noite, e aí sim os artistas vão poder estar num sítio só”, e aí podem desenvolver uma experiência idêntica às casas de fado em Lisboa, “com as performances entre os pratos, encadeando-se o jantar com a actuação dos fadistas”. Diogo Vieira diz que a sala também vai estar a rigor, e decorada com xailes, com velas nas mesas, e um ambiente mais escuro, como o das casas de fados.

       

      O SILÊNCIO TEM DE IMPERAR

       

      O responsável confessou que “era sempre com um amargo de boca” que vivia as noites no outro local. Apesar de serem noites “engraçadas e com muita adesão”, “não tinham aquele verdadeiro espírito de uma casa de fado”. O que mais queria transmitir era o verdadeiro ambiente tradicional e experiência quase ritualística da casa de fado, onde “tudo está fechado e o silêncio tem de imperar”.

      O menu criado também é tradicional, com elementos típicos, como o caldo verde, a bisque, os chouriços e queijos, o leitão, polvo à lagareiro, bacalhau assado, a sobremesa típica, café, um pastel de nata e um cálice de Porto. No pacote de 588 patacas também estão incluídas três bebidas por pessoa. O responsável acrescentou ainda que também é possível escolher como prato principal o bife à Portugália. “É uma experiência em que as pessoas pagam aquele valor, mas têm direito a um jantar completo com música ao vivo exclusivamente para eles num ambiente muito próprio”.

      Quanto ao grupo actuante, este continua a apostar na fadista residente, Vânia Vieira, esposa do gestor do restaurante. Em brincadeira o marido comentou que fica mais fácil coordenar as sessões, mas que, piadas à parte, a cantora “já tem muita experiência, já cantava em Portugal, e já cantou também não só na Portugália mas também noutros locais em Macau e restaurantes portugueses em Hong Kong”. Diogo Vieira acrescentou que o objectivo no futuro, “se a iniciativa tiver pernas para andar”, é que esta passe a decorrer talvez uma vez por mês, e aí “não só com a Vânia mas também com outros fadistas que possa haver em Macau, para as pessoas terem uma variação e não ser sempre a mesma voz e o mesmo tipo de espectáculo”. No futuro, gostaria de ter vários cantores numa noite, “e fazer uma coisa mais à desgarrada”, e que esta primeira noite é apenas o “pontapé de saída para depois se poder voltar a repetir”.

      O responsável partilhou ainda a razão da escolha da segunda-feira para a noite de fado. “Muitas pessoas nos questionam, porque não marcámos para uma sexta ou sábado”. Por um lado, a disponibilidade dos guitarristas é “mais complicada nessas noites”, e por outro lado na cidade já existem diversos eventos espalhados em bares e hotéis. “Nesses dias específicos acabaria por ser mais uma oferta em cima de outras que existem, por isso o objectivo foi também tirar um bocadinho o peso do fim-de-semana e distribuir esta noite por um dia de semana mais calmo”. Diogo Vieira acredita que não vai ser uma noite que irá afectar o dia seguinte, já que pelas 22h as actuações terminam.

      Questionado sobre se há algum cuidado em introduzir a experiência a quem não conheça a etiqueta associada a estas noites, Diogo Vieira respondeu: “Eu faço sempre uma introdução da noite, seja para os portugueses ou chineses. Neste caso, como é uma noite fechada, temos de explicar as regras, nomeadamente o silêncio, que por vezes para o público chinês é difícil de perceber, que se tem de estar em silêncio durante as actuações”.

      Quanto aos músicos que vão acompanhar a fadista mais logo, na guitarra clássica estará Paulo Pereira e na guitarra portuguesa Miguel Andrade, “músicos conhecidos da terra que tocam e acompanham bastante bem fado”. A dificuldade, confessou, é encontrar mais músicos de guitarra portuguesa. O repertório previsto é composto por fados tradicionais “mais conhecidos”, com uns “mais tristes e outros mais alegres”, e “que toda a gente conhece e sabe cantarolar”. A cantora, por seu turno, está bastante satisfeita com o novo formato porque o objectivo sempre foi criar uma noite mais tradicional. Para ela faz todo o sentido que assim seja porque acaba por ser mais fácil para os músicos escolherem as músicas que vão cantar e conversar com os clientes.

      Agora, a performance vai ser mais profissional, mais íntima, e de absorção da música da guitarra. “Não vai ser preciso colunas, a sala tem uma acústica óptima, e vamos abrir as janelas, provavelmente quem passar na rua vai poder estar a ouvir a actuação, o que vai acabar por ser bom e criar um ambiente muito engraçado à volta do restaurante”, comentou.

      Na opinião do organizador, Macau precisa de mais eventos assim, adiantando que o seu esforço coincidiu com o anúncio do Governo da promoção de iniciativas de fado no Teatro D. Pedro V em 2024, ” o que é óptimo e louvável”. Diogo Vieira defendeu que não se pode “deixar morrer a portugalidade, seja através do fado ou de outros eventos que tragam cultura portuguesa a Macau”, e acredita que os portugueses que têm negócios na cidade devem tentar “puxar por este lado cultural para não deixar cair a identidade portuguesa, e oferecer isto não só aos portugueses que aqui estão, mas também aos macaenses e chineses locais, e continuarmos a manter a portugalidade aqui”.