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       “Halo”, a nova instalação da bienal de Arte, ou “o sol a tirar uma ‘selfie’ dele próprio”

      A dupla ‘Kimchi and Chips’ da artista sul coreana Mimi Son e do britânico Elliot Woods traz a Macau “Halo”, uma instalação de arte pública que vai estar dois meses na praça do Museu de Arte de Macau. 99 espelhos, robótica e engenho humano conjugam-se para criar um momento efémero, uma imagem de um “halo”, de uma auréola de luz no ar, que apenas pode ser visionada quando os elementos do sol, água e vento se conjugam. 

       

      Foi num radiante dia de sol de Novembro que o artista Elliot Woods nos acolheu, enquanto ajustava os últimos detalhes para a instalação que estreia esta sexta-feira e está até dia 21 de Janeiro na praça do Museu de Arte de Macau. O artista britânico começou por dizer que era pena a sua obra ainda não estar a funcionar, já que aquele dia teria sido um bom dia para a ver, por estar “tão bonito” e também ventoso. “A luz funciona quase como uma espiral, em bússola, quando incide sobre a nuvem de bruma, e quando o vento se agita faz efeitos muito bonitos, hoje teria sido um bom dia para o ver”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

      Mas do que se se trata, afinal, esta nova instalação da Bienal de Arte de Macau? “Halo”, da dupla artística sediada na Coreia do Sul “Kimchi and Chips”, recorre a 99 espelhos que estão ligados a um computador, e são controlados para reflectir a luz do sol, reencaminhando-a para incidir sobre uma bruma, e criando aí um desenho, um “halo”, uma “auréola”. A ideia, explicou o artista, é “criar um espectáculo”, uma performance através da luz do sol. “Aproveitando o sol que entra e incide nesta praça, recolhemo-lo através de espelhos que são controlados por robótica. Eles seguem a posição do sol de uma forma precisa, e cada um deles consegue fazer reflectir um feixe de luz solar”. Estes feixes, estas linhas, são depois configuradas para se desenhar um círculo no ar. “Criamos uma imagem do sol feita de luz do sol”, frisou.

      Elliot Woods voltou a vincar que gosta de usar o termo espectáculo porque a instalação só pode ser vista quando todos os elementos estão em confluência. “Estes elementos sobre os quais nós não temos qualquer controlo – as nuvens, o vento, o sol, a atenção do público – têm de trabalhar em conjunto para que a imagem possa aparecer. Temos esta imagem do sol dentro desta bruma de água, que só é possível quando os quatro elementos estão em consonância”.

      Fazendo jus à sua formação académica em Física, foi com entusiasmo que nos explicou a forma como conseguiu criar aquele tipo singular de bruma. “A bruma é composta por partículas microscópicas de água, e assim com uma quantidade reduzida de água conseguimos criar um efeito muito grande. Para conseguirmos este efeito fizemos alterações aos bicos injectores, e alguns estudos em aerodinâmica para poder criar este tipo de bruma. Cada partícula é muito leve, e por isso mesmo muito facilmente levada pelo vento. À medida que o vento vai soprando, vai alterando a forma como esta auréola aparece”, esclareceu.

      De resto, para que ‘a coisa resulte’, também é necessário que muitos elementos técnicos trabalhem em conjunto: a robótica do sistema de espelhos, a rede de 200 motores de servidores a dar movimento a tudo, e também há muita calibragem, explicou. É preciso “medir onde as coisas se situam no espaço, e a relação do posicionamento destas relativamente ao sol, para que as linhas sejam precisas”.

       

      O MEIO É A MENSAGEM

       

      Para além do factor de performance, e de fenómeno observável, esta instalação, que anteriormente esteve exposta no Museu Nacional de Arte Contemporânea de Seul e na praça em frente da Sommerset House em Londres, também pretende explorar o conceito do meio, do sistema que foi utilizado para transmitir uma mensagem – ou neste caso, uma imagem. “Tomando como exemplo um ecrã LED num prédio, ou um ecrã de um telemóvel, ou um jornal impresso, ou uma fotografia, tudo isto são exemplos de sistemas de imagens, de formas diferentes de imagens existirem no mundo. Os sistemas de imagens pegam em algo imaginário e tornam-no físico. A raiz que liga o imaginário ao real é esse sistema, é um portal entre os dois planos”, referiu. Na sua perspectiva, para além da imagem que os artistas estão a tentar desenhar, o foco aqui é também “o sistema em si, e a forma como os sistemas marcam as imagens que criam, com uma personalidade muito forte. Por exemplo, se pusermos uma imagem num ecrã LED, muitas vezes o ecrã em si tem mais preponderância do que o conteúdo que lá colocámos”, exemplificou.

      Aqui, pressupõe-se que a imagem criada tenha de se coadunar com a natureza. “Faz parte do sistema ele ter de ser dependente da vontade do meio ambiente, colaborando com o sol”. Esforçando-se por transmitir a sua ideia, Elliot Woods referiu que é preciso pensar nesta imagem da auréola menos como uma animação ou conteúdo criado para entreter, e vê-la mais como se isto fosse um “teste-padrão, a imagem mais pura que se pode fazer: uma ‘selfie’ do sol, o sol a tirar uma imagem de si próprio, uma imagem básica de um círculo, em que quase não há parâmetros. Só tem uma posição e raio, e é isso”.  Há, portanto, também uma ideia de intervenção mínima no sistema. “Nós só tentamos fazer uma única coisa, e depois tudo o resto que acontece é por intervenção do meio ambiente” Isso aliado ao facto da imagem aparecer e desaparecer, da bruma desvanecer e girar, faz com que cada momento seja completamente único, acrescentou, fascinado. “A complexidade da bruma e do ar é impossível de recriar”.

       

      O ACASO DE MACAU

       

      Falando concretamente sobre a vinda a Macau, o artista britânico referiu que há um ano tinha sido equacionado apresentar “Auréola” em Wuhan, mas que as contrariedades da pandemia e do clima fizeram com que isso não fosse possível. Macau surgiu então como opção, e as condições atmosféricas desta altura do ano pareceram ideais à dupla. Elliot Woods partilhou que é apenas a terceira vez que a obra é apresentada, e que a ocasião é rara. “A maior parte das nossas instalações andam em digressão e são apresentadas 20 vezes ou assim, mas com este trabalho não, é muito raro ele ser apresentado, por ser tão complicado de fazer, com tantos elementos. Aqui em Macau tivemos um parceiro certo, e um local certo” para expor, embora, partilhou, este não tenha sido o primeiro local escolhido.

      Em Março o responsável esteve na nossa cidade para visitar seis locais e fazer algumas simulações 3D para ver como o sol ocupava estes espaços ao longo do dia, e nenhum deles acabou por ser o escolhido, nem o da antiga Fábrica de Panchões Iek Long, que tinha “demasiadas sombras”. A dupla insistiu então para que a instalação fosse apresentada na praça no NAPE, “porque era o que tinha mais espaço a descoberto, com menos sombras, e também tem uma orientação norte- sul, o que faz com que consigamos virar a instalação em direcção do sol, para apanhar a luz do sol”, mencionou.

      Outro factor que foi decisivo na escolha de Macau, confessou o artista, foi o tema da bienal: “Estatísticas da Fortuna”. “O lado fortuito da instalação é parte da razão pela qual ela foi convidada a participar na bienal, por causa do tema da bienal, da Fortuna. É um tema que está relacionado com os resorts à nossa volta, mas gostamos de pensar na palavra mais no sentido de sorte ou azar, de acaso. A sorte de algo surgir”.

       

      O PÚBLICO É O CURADOR

       

      Como irão os transeuntes daquela zona da cidade reagir a esta instalação-performance, perguntou uma jornalista? Elliot Woods recordou um episódio em Londres, e uma senhora que nunca esqueceu. A primeira vez que mostrou a obra em Londres, uma senhora vinha lá todos os dias, recordou. “Disse-nos que no princípio não entendia e que tudo lhe parecia muito forçado. Ao fim de uma semana, viu o círculo, e começou a compreender. Foi informar-se sobre o assunto, e daí para a frente começou a trazer amigos, familiares todos os dias para ir ver a instalação”.

      Esperando que um fenómeno semelhante possa acontecer em Macau, e confessando que se isso acontecer já seria “suficiente”, o artista procurou também contextualizar os processos que ocorrem quando colocamos peças de arte na via pública. “Quando entramos numa galeria ou num museu, há uma espécie de contrato que tu, como público, aceitas, de ter a responsabilidade de admirar o que está lá exposto. As obras já foram seleccionadas, os organizadores estão a sugerir que gostemos delas, e ao entrarmos nós próprios aceitamos fazer parte daquela situação”, começou por explicar. “Quando colocamos arte no espaço público, não é a mesma relação. Este é o espaço deles, das pessoas que passam por aqui todos os dias, com crianças e famílias a usarem este espaço quotidianamente. Nós estamos a acrescentar algo a esse espaço”. Por isso, acrescentou, as pessoas muitas vezes vêem a presença daquele elemento novo como intrusivo e invasor.  “Muitas vezes, a primeira reacção é ‘o que é isto, porque é que puseram isto aqui, isto é parvo, eu não pedi que pusessem isto aqui, isto parece caro’. Este tipo de conjecturas”. Depois, passado um tempo, as pessoas começam a compreender que há um círculo de luz, partilhou. De seguida, querem perceber como é que a instalação funciona, e percebem que há espelhos que reflectem a luz. “Recordam-se de quando tomaram banho no duche e a luz entrou pela janela e fez efeitos de luz no vapor, e que isto é um pouco a mesma coisa”.

      Elliot Woods sublinha que o recurso a estes elementos do quotidiano – a água, espelhos, e luz do sol – faz com que as pessoas se consigam relacionar com a peça, e que com o tempo, começam a perceber que “há dias melhores e outros piores para ver a instalação, e começam a querer combinar com amigos para vir ver a instalação. Este tipo de relação vai-se desenvolvendo no decurso do tempo, no caso da arte pública”. No caso da senhora inglesa, que passava naquela praça todos os dias, e começou a lá levar familiares e amigos, ela “acabou por se apropriar da peça”, sustentou o artista. A arte passou a fazer parte dela. “Um pouco como um efeito de Torre Eiffel: no início toda a gente detestava a Torre Eiffel, e não demorou muito tempo até que toda a gente passasse a gostar dela”, exemplificou. “Porque se está a colocar algo no espaço público, está-se a alterar esse espaço, e embora no início essa mudança seja algo desconfortável, depois a arte pública acaba por se tornar propriedade do público. A senhora tornou-se num equivalente a um director de museu. O público assume esse papel”, indicou.

      Mesmo assim, na sua passagem por Macau, a instalação “Halo” terá alguns elementos que irão auxiliar o público a interpretar e usufruir melhor da experiência, acrescentou ainda Elliot Woods, já que nas imediações da estrutura haverá um painel com uma descrição da peça de arte e ainda será dado o período do dia ideal para visionar a auréola, para usufruir ao máximo da forma como o sol irá percorrendo a praça ao longo dos próximos meses. No local estarão ainda presentes seguranças para assegurar que ninguém se coloca dentro da zona da bruma, já que os feixes de luz solar fazem com que aquela zona seja uma espécie de solário, e não é seguro lá permanecer muito tempo, acrescentou o responsável.