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       “Acho excelente o Grande Prémio voltar a ser o Grande Prémio que era”

       

      André Couto está de volta ao Circuito da Guia e pronto para aproveitar uma oportunidade que tenciona não desperdiçar. Ao volante do carro Honda Civic Type R- FL5, que já conhece do campeonato chinês de TCR, o piloto de Macau diz que apesar de já não conduzir em Macau desde 2018, está-se a sentir bem quanto à prova de Carros de Turismo, e que é entusiasmante poder voltar a pisar a pista da terra que o viu crescer.

       

      O piloto de Macau partilhou com o PONTO FINAL as expectativas para o Grande Prémio, que este ano celebra 70 anos e volta a acolher pilotos internacionais depois de duas edições afectadas pelas restrições pandémicas. A vontade de subir ao pódio está sempre lá, e se a sorte o permitir, lá chegará, tendo do seu lado um bom carro e uma boa equipa da Honda, garantiu. Em conversa, falámos sobre as particularidades do Circuito da Guia, do estimado campeonato japonês do qual se viu obrigado a estar afastado durante os dois anos da epidemia, e sobre o feito surreal que foi ter corrido em 1995 na Fórmula 3 do Grande Prémio de Macau, quando apenas tinha 18 anos e era um piloto de karts sem qualquer experiência. Essa memória, e outra, do primeiro lugar conquistado em 2000, já ninguém lhe tira. Agora, é viver cada momento e oportunidade que lhe é dada, já que, como diz, “não é todos os dias que uma pessoa consegue estar num evento destes”.

       

      Quais as expectativas para a sua prestação no Grande Prémio este ano?

      Tento sempre pôr as expectativas lá em cima, gosto sempre de tentar correr com o objectivo de alcançar um bom resultado, que seria sempre ganhar. É sempre o que os pilotos querem, e eu também não fujo à regra. Por isso, esse é o nosso objectivo, agora se o conseguimos concretizar, é outra questão. Mas acho que à partida gosto de ir sempre para uma corrida sabendo que tenho hipóteses de lutar pela vitória. A equipa é boa, o carro também é bom, e agora é só ter a sorte do nosso lado, e esperar que o carro e o ‘set-up’ esteja bom, e eu também tenho de estar em boa forma.

       

      Como é para si a sensação de voltar a conduzir no Circuito da Guia, um percurso que conhece bem?

      Estou a sentir uma boa sensação, no sentido em que já não corria aqui há muito tempo, desde 2019. E há quatro anos que não guiava este tipo de carros de turismo. Eu costumo guiar mais GTs. E também há dois anos que não guiava qualquer tipo de carro de corrida, desde a Covid-19. Tive um bocado de azar, estava no Japão a correr, mas não consegui entrar porque as fronteiras estavam fechadas, de maneira que fiquei dois anos sem guiar qualquer carro. Este ano, consegui voltar a correr na China, no campeonato da China de TCR, que é dos campeonatos mais importantes que eles têm lá de Turismos, e com uma equipa boa oficial da Honda. Fiz algumas corridas, mas não fiz o campeonato todo, porque o meu carro é o terceiro carro da Honda e é utilizado para convidados, o “guest car”, como eles lhe chamam. Às vezes, eu sou o condutor convidado, e este ano houve outras pessoas convidadas que também foram lá guiar, mais para promoção da Honda. Na última corrida, por exemplo, dei lugar ao Daniel Wu, um actor bastante famoso que já actuou no “Tomb Rider”, e então não tenho tido oportunidade de treinar muito com o carro. Foi o que foi. Já tive alguma oportunidade de treinar, e pelo menos venho cá e já conheço um bocadinho o carro. Gostaria de estar mais em forma nesse sentido, de ter feito muito mais quilómetros no carro, mas não foi possível. Paciência, tenho de ir com as armas que tenho.

       

      Justamente gostava de esclarecer, actores a conduzir carros de corrida, é uma novidade recente, ou já existe há algum tempo? 

      Sim, é uma coisa que já existe há algum tempo. O actor Aaron Kwok vai correr connosco este ano no Grande Prémio, na mesma categoria, mas noutra equipa. Parece ter sido mais ou menos decidido porque se umas equipas têm um actor, outras também querem ter, e fazem alguma promoção. O Aaron Kwok já não é desconhecido nenhum das corridas, ele às vezes gosta de participar em corridas de carros, e o Daniel Wu, do que sei, quando está em Los Angeles também tem a oportunidade na América de ir aos circuitos e ficar lá a treinar e divertir-se com os amigos. Acho que ele pessoalmente gosta de corridas e de carros. Quando somos pequeninos gostamos de brincar aos carrinhos, e depois quando crescemos, os que têm oportunidade e algum apoio financeiro, devem pensar ‘porque não?’. E então surgiram essas oportunidades para eles.

       

      Mas da parte das empresas que investem nesta indústria, é uma estratégia promocional, comercial, apostar nessas pessoas famosas?

      É sim, uma estratégia da marca para promover o seu nome, a Honda.

      Voltando ao Grande Prémio deste ano, vai haver caras antigas, caras novas, pilotos internacionais a virem ao percurso, como vê esse retorno de pilotos internacionais?

      Acho excelente o Grande Prémio voltar a ser o Grande Prémio que era. A Fórmula 3 volta em força, os GTs também têm uma grelha muito boa, a categoria em que eu também estou a correr, do campeonato chinês, também está cada vez melhor, e temos o World Tour, que também não está mal, apesar de ter poucos carros internacionais, são só 10 ou 12. Mas acho que o Grande Prémio só tem a ganhar com a abertura das fronteiras, e voltou tudo a ser normal, como era dantes.

       

      Quais são para si as corridas mais interessantes de uma pessoa seguir?

      Sem contar com a minha, que não gosto de falar muito de mim, aquela que eu gosto mais de ver é sempre a Fórmula 3 e a corrida de GTs, que está com uma grelha muito forte e vai ser muito interessante. Talvez a grelha mais forte seja a de GTs.

       

      E as motas?

      Não é muito ‘a minha praia’, para ser sincero, estou um bocado fora de saber os pilotos que vêm, e quem são. É uma categoria a que não ligo muito, não estou ligado a ela. Gosto mais das motas GT, as super bikes, são outro estilo. Mas claro que tenho todo o máximo respeito por quem tem coragem de vir cá nas motas. Isto é um circuito muito perigoso principalmente para as motas. Para os carros já é, também. Para as motas é bastante perigoso, e é impressionante vê-los a guiar aqui.

       

      Há quem diga que é perigoso demais, e que se devia se calhar extinguir este tipo de corridas. O que acha?

      Sinto que se faz história. Quando era miúdo, na minha adolescência, gostava muito de ver a corrida das motas, lembro-me bastante disso, e faz parte do Grande Prémio, motas e carros. Nessa perspectiva, poderia sempre tentar-se continuar, desde que os pilotos queiram vir e que se criem condições. Existe a corrida alemã que também é muito perigosa, mas todos os anos há quem lá queira ir. Desde que exista uma organização que consiga colocar as motas aqui, com pilotos sempre a vir, a categoria das motas vai continuar. Eles são maiores e vacinados, mas sim, é sempre complexo, porque quando morre uma pessoa a segurança é sempre posta em causa, e o que se poderia ter feito. Na realidade, num circuito citadino, pouca coisa pode ser feita, por isso não sei, é sempre um tema muito sensível. É que na Fórmula 3 e nos carros e GTs também é bastante perigoso. Às vezes estamos lá dentro e pensamos que está a ficar perigoso. Falamos entre nós, entre pilotos, que as coisas “estão loucas lá fora”, na pista. É perigoso para toda a gente, mas acho que é isso que faz o circuito de Macau ser um dos circuitos mais difíceis do mundo.

      E estes 70 anos, com vê o evento do Grande Prémio este ano?

      É sempre bom haver dois fins de semanas, é engraçado, e espero que a organização faça um bom trabalho, e espero que corra tudo bem.

       

      Em termos históricos, o Grande Prémio tem feito melhorias na forma como funciona?

      Acho que se tem mantido, basicamente, melhorias não vi muitas, as corridas e categorias são as mesmas, há anos melhores e anos piores, mas acho que o Grande Prémio de Macau é uma das corridas mais importantes do calendário do desporto automóvel.

       

      E o Japão, deve ser um meio bastante diferente, como funcionou para si correr lá?

      Correr no Japão é dos melhores campeonatos que eu tive na minha vida, basicamente. A organização é excelente, o público é excelente, tudo funciona às mil maravilhas. Na realidade, é um dos melhores campeonatos. Quem dera a cada país ter a oportunidade de ter um campeonato como aquele, em que vão sempre entre 50 a 80 mil pessoas ver todas as corridas, e com os construtores japoneses todos envolvidos, tanto a nível de pneus como de carros. É um campeonato super profissional, único mesmo. Parece que nunca sofrem muito com as crises, continuam sempre a correr. Eu fiz parte numa altura de uma geração do Super GT, onde todos os anos havia carros novos, em que gastavam orçamentos incríveis. A seguir à Fórmula 1 era aquele em que as marcas Honda e Toyota gastavam mais dinheiro. Não há outro país que consiga ter aquele tipo de campeonato, e muito porque os construtores são muito fortes ali. A Honda, Toyota e a Nissan suportam todo aquele campeonato de super GT, e tem uma base de fãs incrível. É quase um desporto-rei no Japão. No aeroporto, por exemplo, quando perguntam o que venho fazer ao Japão, quando digo super GT, toda a gente sabe, está muito divulgado, até existem programas à noite sobre as corridas, como no futebol.

       

      Depois de acabar o Grande Prémio tenciona voltar para lá?

      Gostava, mas não sei se vai ser fácil. A seguir à Covid fiquei dois anos fora e perdi o lugar que eu tinha na Lamborghini, está lá um outro japonês agora, e agora tenho de tentar voltar, e arranjar outra equipa, e tentar ver o que dá para fazer.

       

      Durante esses anos fora do Japão esteve em Portugal?

      Houve uma altura que também estive cá, quando ficou melhor, mas houve vários períodos em que estive em Portugal, porque aqui realmente não dava para estar. Se eu quisesse ir correr ou se o telefone tocasse, e houvesse uma oportunidade num país qualquer onde pudesse ir correr, cá em Macau não havia barcos, não havia nada, era impossível sair daqui. À primeira oportunidade fui-me embora, obviamente. Isto foi uma loucura, com estas regras, não dava para uma pessoa se mexer, e então tive de ficar numa base onde isso fosse possível. Fiquei em Portugal, onde temos casa.

       

      Pode partilhar connosco algum momento importante da sua participação no Grande Prémio?

      O momento que me marcou mais foi a primeira vez que corri em Macau, de Fórmula 3. Eu tinha 18 anos e até Fevereiro daquele ano eu apenas guiava karts, não era piloto de outra coisa qualquer. Isto em 1995, era um piloto de karts e ia fazer a época, fiz a minha última corrida internacional em Fevereiro na Austrália, e depois alguém falou com o meu pai na altura para eu testar uns Fórmulas. Eu testei, e aquilo andou bem, e de repente mudou-se o plano assim à última da hora: já não ia guiar karts, ia de Fórmula Opel Lótus, que era uma categoria que havia na altura antes da Fórmula 3. Era a categoria principal antes da Fórmula 3, pilotos da Fórmula 1 também passaram por lá na altura. Mika Hakinnen, Pedro Lamy, muitos pilotos passaram por essa categoria e eu também não fujo à regra. Fui depois competir nesse campeonato, no campeonato europeu e na taça do mundo, e ganhei a taça do mundo nesse ano, fiquei em quinto no europeu, e fui o melhor rookie da época. Depois, a época acabou em Setembro, e havia aquele período até Novembro sem saber o que fazer, e assim surgiu uma oportunidade à última de ir fazer a Fórmula 3 em Macau. Na altura disse que ‘estava tudo maluco’. Nem tinha experiência, estava a guiar karts em Fevereiro, e de repente dei por mim, em Novembro do mesmo ano, a estrear-me em Macau em Fórmula 3. Acho que me posso mesmo orgulhar porque acho que fui o único piloto do mundo inteiro que fez a sua primeira corrida da vida de Fórmula 3 logo directamente em Macau. Naquela altura não havia simuladores, não treinei muito, não fiz nenhuma corrida forte naqueles três anos, vim apenas directamente para Macau para correr. De repente, dou por mim, e estou a ultrapassar o Schumacher na última manga, e a andar em primeiro até a corrida ser cancelada por uma bandeira vermelha. Aí fiquei um bocado espantado. Foi um feito incrível, porque na altura não tinha experiência nenhuma e consegui andar bem. No primeiro treino livre até me lembro que fiquei em quarto lugar. Quando saí e olhei para a televisão nem quis acreditar, estava ali no meio dos nomes de Montoya, Schumacher, vários pilotos que depois foram para a Fórmula 1. Aí vi também que tinha possibilidade de alcançar o sonho que tinha, que era ganhar o Grande Prémio. Depois, eventualmente, ganhei mais tarde. Mas aquela corrida foi surreal, porque hoje em dia não acontece. Se acontecer, esse piloto é logo recrutado para as junior teams, na minha altura não havia programas de apoio da Red Bull, Mercedes, ou da Ferrari. Agora, cada equipa tem junior teams, e vão buscar os miúdos melhores nas categorias inferiores. Essa é a vez que eu me orgulho mais, e depois claro, a vez que ganhei. Foi passado cinco anos, em 2000. Essas memórias, já ninguém mas tira.

       

      Não tiram a si, nem a Macau. Acha que são estas histórias que fazem com que as pessoas por cá tenham tanto carinho por si?

      Acho que sim, porque eu também sempre dei tudo lá na pista, quer corra bem ou corra mal, dei o litro, e não deixo nada para trás. Quando corre bem, as pessoas apreciam essa parte, do esforço. E sou mesmo da terra, sou de Macau, cresci no liceu, e de repente andar no meio dos outros pilotos, é engraçado. Há quem apoia, e também quem fala mal. Mas os que falam mal, que o façam, dão aquela energia para ir mais além, eu não me importo.

       

      Na vossa carreira há um limite de idade?

      Não, é mais só a questão de deixar de ser tão rápido a guiar, e quando deixas de ter apoios e as equipas já não te querem contratar, é mais por aí.

       

      Mas conta em continuar a correr por muitos mais anos?

      Se tiver a chance, porque não? Agora vou sempre assim, caso a caso. Nem sabia se ia correr neste ano. Já não corri nos outros anos porque não tinha apoio, houve outros que faltei porque também não tinha nada, e de repente agora posso correr, e então vou lá aproveitar ao máximo esta oportunidade. Não é todos os dias que uma pessoa consegue estar num evento destes, e vou gozar, é isso.

       

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      Redacção do Ponto Final Macau