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      Clement Valla procura aproximar tecnologia e natureza com instalação de plantas 3D na Fábrica de Panchões  

       

      Na vila da Taipa, na antiga Fábrica de Panchões Iec Long, por entre as ruínas e a vegetação circundante, dois enormes ecrãs LED. Através dos seus pontos de luz, conseguimos ver imagens pixelizadas de plantas. Este mundo natural virtual remete-nos para a experiência visual de quem está dentro de um jogo de computador, mas também nos faz questionar a referência à natureza, ainda por mais porque a instalação está inserida no meio de um jardim. Clement Valla, artista franco-americano, diz que é intencional esta contraposição entre o natural e o virtual, entre a experiência humana e a tecnológica. A instalação intitulada “Nuvem de Pontos do Jardim Macau”, parte da Bienal de Macau, vai estar até 12 de Dezembro no espaço recentemente recuperado pelo Instituto Cultural.

       

      “É importante para mim considerar a forma como as novas tecnologias estão a afectar a existência humana e a forma como vemos e pensamos sobre o mundo”, partilhou Clement Valla ao PONTO FINAL. Inserida na Bienal de Arte, a obra “Nuvem de Pontos do Jardim Macau” foi criada especificamente para antiga fábrica de panchões Iec Leong, e resulta de um levantamento de imagens já iniciado em Julho, altura em que o artista franco-americano veio a Macau para tirar “centenas e centenas” de fotografias.

      “Passei muito tempo nas terras húmidas no Cotai, e também nos jardins da Flora, Lou Lim Iok, e Camões. Fui a Coloane também, tentei cobrir o máximo das zonas verdes de Macau que pude”. Foram estas fotografias de flora, que descreveu como “tropical e luxuriante”, louvando a originalidade das suas flores de lótus e frangipanis, que posteriormente foram inseridas num programa de computador, criando deste modo uma “point cloud”. “O primeiro passo desse programa é o da extracção de pontos a partir das fotos”, explicou. Depois, segue-se um mapeamento espacial das fotos umas em relação às outras. “Basicamente, o programa consegue colocar esses pontos num espaço, como uma triangulação feita em sentido contrário. Põe os pontos no espaço e vai buscar a informação das cores das fotografias e coloca-a nos pontos. Esse processo chama-se ‘point cloud’, uma nuvem de pontos, daí eu ter dado esse nome ao meu trabalho”.

      O artista sediado em Brooklyn, Nova Iorque, gosta do facto de a ‘point cloud’ mostrar um lado da criação de imagens 3D que habitualmente não nos é revelado, já que a ‘point cloud’ é apenas um passo em direcção a algo como “um modelo 3D ou algum tipo de análise de dados, ou um desenho de arquitectura”. Esta forma bruta e inacabada, como se pudéssemos ver os circuitos internos de uma ‘motherboard’, é algo que o artista considera bonita, e que merece ser mostrada aos seres humanos.

      Clement considera também que a nuvem de pontos se aproxima da experiência de imersão num jardim, especialmente quando contemplamos “as zonas com folhagem, e a maneira como estas são preenchidas com pequenos pontos, pequenas folhas, pequenas coisas que se agregam umas com as outras. Foi essa a minha direcção, quando iniciei este projecto. Comparar um mundo muito técnico, de ‘data’, a estes espaços belos e naturais”, explicou. O projecto, que há cerca de seis anos foi desenvolvido nos Estados Unidos e em França, vem na linha de outras obras do artista, que há muito procura explorar esta fronteira entre tecnologia e natureza, recriando modelos 3D de pedras ou árvores. Na verdade, confessou, a ideia surgiu-lhe como resultado do que viveu nos tempos da pandemia, onde como a maioria de nós, passou muito tempo sentado à frente de um computador, e desligado das habituais rotinas sociais. Na altura, reflectiu sobre o quanto os ecrãs exigem da atenção humana.

      “Os ecrãs basicamente estão a tentar sugar os nossos globos oculares, para que a gente passe mais tempo a olhar para eles, para que gastemos dinheiro, ou clicks ou likes”, vincou. “E depois temos no ponto oposto a sensação de estarmos num jardim, que é um tipo de atenção humana muito diferente. Os jardins não exigem nada de nós, e de certa forma é mais fácil entrarmos num estado de observação profunda num jardim, do que olhando para um ecrã”.

      Durante a pandemia, as realidades virtual e natural ganharam uma dimensão maior. “Passava muito mais tempo da minha vida a olhar para ecrãs e, por outro lado também, passava muito mais tempo na natureza, apenas porque não podia ir para a cidade e fazer as coisas que habitualmente fazia”. Parte deste projecto, explicou, é reflectir sobre esses dois modos de experiência e perguntar porque é que eles têm de parecer opostos. “Será que há formas de os ligar, de os aproximar? Penso que é isso que estou a tentar fazer. Não tenho um ângulo específico, sinto-me profundamente ambivalente quanto à tecnologia, e as formas como é utilizada, mas essa ambivalência também contém uma boa quantidade de esperança, e também de pessimismo. Há esse sentido de interligar os opostos, e aproximá-los pelos menos um bocadinho”.

      Clement Valla, através das suas criações, pretende também levar-nos a considerar a forma como as novas tecnologias estão a afectar a existência humana e a forma como vemos e pensamos sobre o mundo. Mas para si, a tecnologia não é nenhum ‘bicho de sete cabeças’, ela “apenas foi criada para fazer as coisas mais eficientes e sem sobressaltos, e acelerar e gerar mais dinheiro, e desse modo basicamente podermos extrair mais valor das coisas que já existem”. No entanto, para si nem é este ponto que o interessa mais. “Pode parecer um pouco grandioso demais, mas acho que a tecnologia tem um potencial de expandir a mente humana. Penso aliás que já o fez por diversas vezes no passado. Permitiu que víssemos a natureza de formas completamente diferentes, quer tenha sido a invenção do microscópio, ou a capacidade de observar o cosmos. É mais isso que me fascina. Estou sempre a tentar alinhar a tecnologia com um projecto humano maior”, concluiu.