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      Loja de comidas “Larry’s Place” fecha, mas deixa boas memórias em quem por lá passou  

       

      Todos lhe chamavam Larry, mas o nome verdadeiro do jovem proprietário do estabelecimento de comidas “Larry’s Place” é Christian da Silva Pedruco. Apesar do sotaque australiano e de ter nascido naquele país, é filho de mãe timorense e pai macaense, e foi nesta cidade que decidiu apostar numa aventura pela comida saudável. O PONTO FINAL quis falar com Christian Pedruco sobre as razões que levaram ao fecho do estabelecimento em meados do mês passado.

       

      Depois de cinco anos de actividade, o “Larry’s Place”, uma pequena loja de refeições ligeiras no Beco do Gonçalo, ao pé do Largo do Senado, fechou. O proprietário, Christian da Silva Pedruco, fez um balanço positivo das experiências vividas à frente daquele pequeno negócio, especialmente os anos em que naqueles exíguos cinco metros quadrados cabiam paladares e pessoas dos quatro cantos do mundo. Ao PONTO FINAL, recordou os tempos em que os clientes habituais vinham à sua loja às sextas à tarde, com DJs no interior do espaço e as pessoas a confraternizarem na rua. “Foi fantástico, ver pessoas a conhecerem-se e a conversar pela primeira vez. A loja foi um polo para muitas pessoas novas em Macau fazerem amigos”.  O espaço, recorda, em qualquer dia da semana era um local onde as pessoas podiam chegar e do nada começarem a conversar com alguém enquanto comiam. “Havia uma boa energia. A porta estava sempre aberta para todos e todos eram bem-vindos”.

      Apesar do bom ambiente, o “Larry’s Place” não conseguiu sobreviver às sequelas da pandemia. A decisão final de encerrar foi tomada quando a trabalhadora do restaurante decidiu deixar Macau, ficando difícil encontrar alguém que a substituísse. “Para mim, para encontrar e formar outra pessoa nova, teria de dedicar demasiado do meu tempo disponível para o fazer, coisa que agora já não consigo fazer porque sou professor a tempo inteiro numa escola. Por outro lado, o rendimento da loja não foi o suficiente para que eu conseguisse contratar uma segunda pessoa, especialmente com a quebra de lucros durante a Covid-19, com a partida de muitos clientes habituais, que eram na grande maioria estrangeiros. Decidi que era melhor fechar do que investir numa segunda pessoa, e correr um risco assim”, confessou.

      Entretanto, muito mudou desde que Christian Pedruco abriu aquele pequeno espaço em Maio de 2018. Nessa altura, recorda, havia muito mais pessoas estrangeiras em Macau, e muitas delas o apoiaram nos dois primeiros anos da montagem do “Larry’s Place”, “um processo a tempo inteiro” que lhe ocupava cerca de 16 horas por dia, até encontrar uma assistente com ‘bluecard’. Depois, a loja começou a ficar mais consolidada, e teve apoio de pessoas que estavam nas universidades a fazer doutoramentos e estudos do género. “O departamento de filosofia ajudou-me muito, vinham sempre à loja”.

      Quando chegou a Macau em 2017, o jovem trazia apenas alguma experiência como chefe de sala em restaurantes e cafés durante os anos de universidade na Austrália. Foi apenas depois de trabalhar no também já extinto restaurante vegetariano “Blissful Carrot” na Taipa, que começou a aprender a trabalhar na cozinha. “Aprendi muito graças a eles. Depois disso, estava mais ou menos confiante, mas aprendi muito no processo em si, aprendendo com os meus erros, e tentando melhorar ao longo dos anos. Como referi, foram dois anos a preparar a loja a tempo inteiro”.

      O “Blissful Carrot” e o “Larry’s Place” foram dois restaurantes geridos por estrangeiros que vieram preencher um tipo de oferta de comida que faltava em Macau, a comida vegetariana e vegana, com opções mais saudáveis que agradassem a um palato mais cosmopolitano e internacional. “Sim, na altura havia definitivamente uma falta de comida saudável, saladas e refeições ligeiras, especialmente no centro da cidade. Eu estava a tentar preencher esse nicho, da comida vegana e vegetariana, e da comida sem glúten. Sempre tentámos oferecer opções para todas as necessidades de dieta das pessoas”.

      No entanto, com o tempo, o conceito da loja foi evoluindo para um espaço mais flexível, em que se passou também a servir carne de vaca e porco, e a fazer bebidas diferentes. “Comecei também a fazer eventos na rua, e ‘catering’. Não foi um percurso linear”. Da participação como empresa de ‘catering’ em muitos eventos pela cidade, Christian Pedruco destaca a feira de Natal no Parisian, em parceria com Andreea Apostol da ‘Rawlicious’, empresa local de comida crua, o festival Connections e os aniversários no terraço do estúdio Yoga Loft, e também muitos eventos em Hac Sá e no Centro de Ciência para o Festival Hush. “Ao longo desse tempo houve sempre alguns eventos mais pequenos e ‘pop-ups’ pela cidade, em que eu levava a minha banca móvel e alguns itens e tinha a ajuda de estudantes em part-time”, disse.

      Olhando agora para o mercado actual, em que estas iniciativas deixaram de existir, será que há quem preencha as necessidades do mercado? O jovem empresário garante que sim, e que o conceito da sua loja, de refeições ligeiras, é algo que agora existe por todo o lado na cidade. “Até um café vai ter o tipo de comida que eu servia”, confessa. “Mas recriar a atmosfera que eu tinha naquela rua, não creio, pelo menos não para a comunidade estrangeira, que eu saiba”.

      Entretanto, houve outro denominador comum que mudou também o mercado da restauração para sempre: a chegada da MFood. Embora este serviço de entrega de comida ao domicílio já existisse em chinês, com a possibilidade de em 2020 este serviço se ter tornado disponível também em inglês, o estabelecimento “Larry’s Place” passou a conseguir chegar a clientes novos. No entanto, ainda assim, devido a uma crise profunda na restauração vivida entre o início de 2020 e o fim 2022, revelou-se difícil para Christian Pedruco manter o seu negócio à tona, ainda por mais porque a Mfood leva uma comissão de 20%, “algo que também tem o seu peso”.

      Fazendo as contas, apesar das vendas através da Mfood, com a fuga de tantos profissionais estrangeiros da cidade, a situação tornou-se insustentável. “A quantidade de pessoas que estavam a encomendar comida através da Mfood juntamente com os clientes habituais que estavam a sair de Macau, eram mais ou menos a mesma quantidade, por isso embora estivesse a ganhar mais clientes, também estava a perdê-los”.

      Também insustentável, mas uma “boa memória”, foi a fase anterior à da MFood, em que era o próprio Christian Pedruco que fazia as entregas ao domicílio, percorrendo a cidade em bicicleta. “Foi definitivamente complicado no início, eu fazer as entregas de comida eu próprio, porque fazia 40 quilómetros por dia em bicicleta para fazer chegar a comida que precisavam aos meus clientes. Foi difícil, mas ao mesmo tempo gratificante”, admitiu.

      Agora, depois de encerrado este capítulo repleto de aventuras para contar, fica para já o plano de continuar por Macau a dar aulas de inglês a alunos do ensino secundário, mas Christian Pedruco diz que o “bichinho” de servir pessoas ainda está lá. “Talvez vá envolver-me noutro projecto de F&B, porque honestamente faz parte da minha identidade. Gosto de servir a comunidade local, senti que isso foi algo que me preenchia a alma. Gostava de fazer as pessoas felizes através da comida, por isso acho que talvez tenha de o tentar voltar a fazer”.