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      Jovens chineses em “involução” reveem-se em conto de 1919 sobre intelectual pobre  

      Um conto de 1919 sobre um intelectual decadente foi redescoberto por milhões de recém-licenciados chineses, como símbolo de frustração após anos num sistema de ensino altamente competitivo, enquanto o desemprego jovem atinge níveis sem precedentes.

       

      Kong Yiji, o personagem principal de um conto de Lu Xun, figura proeminente na literatura chinesa moderna, é descrito como alguém que, após reprovar nos exames imperiais, vive na pobreza, mas usa o seu traje académico sujo e esfarrapado, sendo ridicularizado pelos conhecimentos inúteis que adquiriu.

      O conto inspirou a criação de inúmeros “memes” autodepreciativos entre os jovens internautas chineses, evidenciando como o nível das suas qualificações os afasta das oportunidades de trabalho disponíveis. “Quando li a história pela primeira vez, não entendi bem o significado”, admitiu um internauta na rede social Weibo. “Mas, agora percebo: tornei-me no protagonista!”, descreveu.

      A taxa oficial de desemprego entre jovens urbanos com idades entre os 16 e 24 anos atingiu um máximo histórico este ano, fixando-se em 21,3%, em Julho. Em Agosto, Pequim deixou de actualizar os dados. O Gabinete Nacional de Estatística justificou a decisão com “mudanças económicas e sociais que exigem a melhoria e otimização das estatísticas sobre o emprego”.

      Economistas afirmam que o desafio não reside na escassez de oportunidades de emprego – a taxa de desemprego entre a população activa no geral é de 5,2% – mas sim na insuficiência de empregos altamente qualificados e bem remunerados para uma geração mais educada e com expectativas superiores às das gerações anteriores. “A alta taxa de desemprego jovem da China não é transitória, mas estrutural”, apontou num relatório o economista para a China do banco Credit Suisse, David Wang. “Existe uma incompatibilidade entre as qualificações que os jovens têm e as qualificações exigidas pelos empregos disponíveis”, explicou.

      A sensação de estar preso numa corrida onde todos perdem deu origem ao termo ‘neijuan’ (“involução”). A ideia foi retratada na série de televisão chinesa “Um Amor pelo Dilema”, na qual dois personagens comparam a competição no sistema de ensino e no mercado de trabalho aos espectadores numa sala de cinema: quando alguém se levanta para ter uma visão mais clara, todos os que estão atrás têm também que se levantar. O público compete então entre si ao subir para as cadeiras e escadas, mas, no final, ninguém consegue ver o filme.

      No ano passado, o Presidente chinês, Xi Jinping, aconselhou os jovens a “deixaram de ser arrogantes e mimados” e sugeriu que “engulam a amargura”.

      A imprensa oficial, que passou a publicar reportagens sobre recém-licenciados que fizeram fortuna em empregos pouco qualificados, como venda de comida de rua ou cultivo de fruta, criticou em editoriais os jovens por não aceitarem empregos em fábricas ou propriedades agrícolas. “A juventude deve estar pronta para tirar os fatos e arregaçar as mangas”, lê-se num editorial.

      Muitos jovens, no entanto, recusam aquela possibilidade. “Quando era adolescente, a mensagem oficial era que tínhamos que estudar, estudar, estudar, em prol da modernização da China”, contou Yang Zifei, de 23 anos, à agência Lusa. “Passados dez anos, dizem que afinal não era preciso, que o mercado requer baixas qualificações”.

      Para Yang, as semelhanças com Kong Yiji são “evidentes”, após anos num sistema de ensino “altamente competitivo” e “dispendioso”.

      Fruto da pressão gerada por mais de 30 anos da política de filho único, os casais chineses investem, em média, dois terços dos seus rendimentos na educação dos filhos, segundo estimativas chinesas. O sistema está estruturado para preparar os alunos para o Gaokao’ – o exame de acesso ao ensino superior na China.

      A chinesa Lin Min recordou à Lusa o período no ensino secundário como “horrível”, marcado por uma rotina “uniformizadora”. “Foi como estar na prisão”, apontou. Autorizada a visitar a família apenas uma vez por mês, Lin descreveu uma rotina que arrancava às 05:30 da manhã, com um alarme seguido da mensagem “A competição começa a partir do segundo em que despertam”.

      No Weibo, um internauta descreveu assim o dilema que a sua geração enfrenta: “Pensei que a educação fosse um trampolim, mas percebo agora que é um pedestal do qual não posso descer, tal como Kong Yiji, que não conseguia tirar o seu traje académico”.

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau