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      InícioEntrevista"A neutralidade em Macau ofereceu oportunidades diversas a diferentes actores "

      “A neutralidade em Macau [durante a Segunda Guerra Mundial] ofereceu oportunidades diversas a diferentes actores “

      A investigadora Helena F. S. Lopes, professora de história da Ásia contemporânea na Universidade de Cardiff, em Gales, lançou recentemente o livro “Neutrality and Collaboration in South China: Macau during the Second World War”. Na obra, a académica discorre sobre a neutralidade de Macau na Segunda Guerra Mundial. “A neutralidade não foi, de todo, ‘rigorosa’, mas extremamente porosa”, afirma, em entrevista ao PONTO FINAL.

       

      “Neutrality and Collaboration in South China: Macau during the Second World War” é o título do livro lançado recentemente por Helena F. S. Lopes, professora de história da Ásia contemporânea na Universidade de Cardiff, em Gales. Em entrevista ao PONTO FINAL, a investigadora explica que a obra “argumenta que a neutralidade em Macau durante a Segunda Guerra foi marcada por uma série de relações de colaboração entre actores diversos e com interesses não necessariamente alinhados”. Helena F. S. Lopes diz mesmo que “a neutralidade não foi, de todo, ‘rigorosa’, mas extremamente porosa”.

      Quais as conclusões a que chega com este livro “Neutrality and Collaboration in South China: Macau during the Second World War”?

      O livro “Neutrality and Collaboration in South China: Macau during the Second World War” argumenta que a neutralidade em Macau durante a Segunda Guerra foi marcada por uma série de relações de colaboração entre actores diversos e com interesses não necessariamente alinhados. Ou seja, a neutralidade não foi, de todo, “rigorosa”, mas extremamente porosa. São várias as conclusões em torno deste argumento, por exemplo: A neutralidade em Macau foi conveniente para todos os principais beligerantes na região (China, Japão, Reino Unido e Estados Unidos), bem como para as autoridades coloniais portuguesas do Estado Novo que governavam Macau. Acabou também por ser conveniente para centenas de milhares de refugiados (maioritariamente chineses, mas incluindo também pessoas das mais variadas nacionalidades), embora as suas experiências fossem marcadas por muitas dificuldades; A presença de refugiados em Macau é absolutamente central para se compreender o que a neutralidade queria dizer na prática – e é isso que me interessa. Não teorizar neutralidade no abstracto e sim analisar como a neutralidade foi usada na prática, por diferentes pessoas, para fins diversos. Houve duas principais vagas de refugiados, uma em 1937-38, vindos de Xangai e Guangdong, e uma segunda, a partir do início de 1942, vinda de Hong Kong. A presença destas comunidades marcou todas as áreas da vida do território: da política à economia, das artes à educação, das relações internacionais à filantropia. O efeito dos refugiados em Macau foi transformador pela positiva. Embora Macau fosse, há séculos, um lugar de refúgio para muita gente, a escala do que se passou na Segunda Guerra não tinha precedentes. A não oposição das autoridades portuguesas à entrada de refugiados (ainda que nem todos fossem acolhidos da mesma forma, ainda que algumas tentativas de “repatriar” refugiados chineses tenham tido lugar, ainda que houvesse actos de violência em campos) foi habilmente jogada como argumento para contrariar ideias de colaboracionismo; O facto de Macau ser nominalmente neutral facilitou uma série de circulações num tempo de imensa disrupção: de informação, de produtos, de pessoas, etc. Macau não era um local isolado. Mesmo com uma série de fluxos interrompidos por manobras militares à sua volta, Macau permaneceu, com poucas excepções, um lugar de ligação e que facilitava laços com a China ocupada, a China livre e outros lugares; Outra conclusão refere-se à regularidade e intensidade da diplomacia do governo chinês (na altura Nacionalista) vis-à-vis Portugal. Nos últimos anos, tem havido uma reinterpretação da importância da diplomacia chinesa na era Republicana em geral, e durante a guerra em particular. O meu trabalho destaca o facto de uma pequena potência europeia como Portugal não ter sido ignorada pela diplomacia chinesa, chamando a atenção para a experiência dos diplomatas chineses em Lisboa – algo que, penso, nunca tinha sido abordado pela historiografia em qualquer língua. Em suma, a resistência diplomática chinesa jogava-se em toda a Europa, não apenas em Londres e Paris (havia, aliás, ligações chinesas entre Lisboa e outras cidades europeias); A experiência de neutralidade, com todas as suas ambiguidades, durante a guerra teve consequências duradouras para o futuro do colonialismo europeu no Sul da China, e também para a posição de certas elites do território.

      Como é que Macau, apesar da sua neutralidade, foi apanhada no meio da guerra?

      Macau, à semelhança de outros territórios então controlados por estrangeiros na China (como, entre outros, Hong Kong ou as concessões estrangeiras em Xangai), esteve sempre profundamente ligado ao que se passava na China. A invasão japonesa, iniciada em 1931, mas que entra em estado de guerra permanente em 1937, foi algo de uma importância tão enorme que qualquer um destes territórios estava inevitavelmente “apanhado”, mesmo que não na mesma escala que as zonas ocupadas. Desde 1931 que havia activismo anti-japonês em Macau. A maioria da população era chinesa e a guerra não era “distante”. Fazia parte da vida, afectava familiares e conhecidos, afectava o país. Mais de metade da população de Macau nos anos do conflito era refugiada. Naturalmente que não eram indiferentes. Muitas das dinâmicas que historiadores há muito investigam como excepcionais em sítios como Xangai eram também uma realidade noutros territórios, Macau entre eles.

      Como é que Macau geriu a sua neutralidade na guerra?

      Depende do que consideramos ser “Macau”. Se falamos das autoridades coloniais portuguesas, estas geriram a neutralidade que o governo do Estado Novo escolheu com graus variáveis de oportunismo, mas também constante nervosismo. A prioridade era sempre manter o domínio português, porque uma ocupação formal pelo Japão dificilmente permitiria um “regresso” do colonialismo europeu – fosse quem fosse o vencedor da guerra. Se falamos da população em geral, a neutralidade foi gerida com bastante resiliência. Para muita gente foi um tempo de privações tenebrosas, incerteza, medo. Para alguns, a guerra foi um tempo de oportunidade. Para quem resistia contra a agressão japonesa (Nacionalistas, Comunistas e outros), a neutralidade trazia também vantagens, nomeadamente tornando Macau um ponto de circulação ou refúgio para informação, fundos, pessoas. Contudo, para a resistência, porque a neutralidade era tão flexível e incerta, podia ser também bastante frustrante, pois estava sujeita a controlos, censura e coisas piores.

      A sua posição estratégica e os vários intervenientes na guerra na Ásia Oriental originaram que tipo de oportunidades para Macau?

      A neutralidade em Macau ofereceu oportunidades diversas a diferentes actores. Em primeiro lugar, se colocarmos no centro os refugiados (uma população bastante heterogénea), a neutralidade, mesmo imperfeita, de Macau foi uma oportunidade de refúgio. Permitiu que muitas actividades interrompidas pela guerra noutros locais fossem retomadas em Macau, como a educação ou a prática artística. Para quem estava envolvido na resistência anti-japonesa – independentemente de persuasão política ou nacionalidade –, Macau ofereceu oportunidades para comunicações, recolha e transmissão de informações, mobilização de apoiantes. Macau ofereceu ainda oportunidades de negócio a diferentes lados, incluindo também elites do território (velhos ou novos intervenientes). Havia uma ligação clara entre sucesso económico e filantropia, e de novo se vê a importância dos refugiados (não só como receptores da filantropia, mas também, no caso de refugiados mais abastados, como financiadores dessas actividades de apoio). Macau foi igualmente um lugar onde lados opostos se encontravam, um espaço de contacto, de comunicação, de fugas. Houve figuras e grupos específicos para quem as circunstâncias da guerra ofereceram oportunidades não intencionais, incluindo mulheres (sobretudo chinesas) que lideraram escolas, ajuda a refugiados ou que se envolveram em actividades da resistência.

      No livro fala da “collaboration” de Macau durante o período da Guerra. De que tipo de colaboração falamos aqui? E em que momentos é que podemos encontrar exemplos dessa colaboração?

      O termo “collaboration” é usado no livro com um sentido deliberadamente ambíguo. A escolha foi, de início, influenciada pela excelente historiografia que tem sido publicada sobre colaboração/colaboracionismo quando se aborda a China ocupada nas últimas décadas. Uma historiografia que tem inclusive dialogado com outras relativas a diferentes colaboracionismos (nomeadamente o caso de Vichy) e tem notado as especificidades chinesas face ao que se passou em França. No entanto, embora eu note paralelos claros com experiências da China ocupada, o meu livro oferece um ângulo diferente, olhando para um território não ocupado e explorando a questão da possibilidade de haver colaboração sem ocupação (sim, pode!). Quando navios japoneses transportavam soldados ou materiais de guerra via Macau, tal não se enquadra no que se entende como neutralidade. Quando as autoridades da colónia censuram notícias anti-japonesas, isso sugere alguma colaboração com um dos lados. Além disso, uso o termo não apenas para abordar situações de proximidade, cedência ou alinhamento com as forças de ocupação japonesas, mas também num sentido de explorar outras colaborações, nomeadamente a colaboração inter-imperial com os britânicos. E depois, claro, olho para formas de colaboração no sentido de cooperação entre comunidades e figuras de diferentes “lados”. Por isso não diria que o título do livro se deve traduzir para colaboracionismo, porque o meu objectivo é precisamente explorar as nuances dessas interacções num tempo que foi particularmente complexo.

      No pós-guerra, como é que Macau lidou com essa neutralidade e “colaboracionismo”?

      O pós-guerra colocou em evidência boa parte das ambiguidades do que chamo os usos e abusos da neutralidade. Para algumas figuras dos Nacionalistas, Macau tinha uma reputação extremamente negativa e associações a colaboracionismo durante a guerra eram um factor, bem como a relutância e a obstrução das autoridades portuguesas em extraditar suspeitos de crimes de guerra e colaboracionismo após o conflito. Houve, da parte portuguesa (falo de figuras de autoridade, não de civis comuns), um esforço notório de dificultar a aplicação da justiça chinesa, em parte porque havia uma incompreensão – muito colonialista – em aceitar o estatuto da China como nação soberana, uma potência aliada vitoriosa, um país pós-colonial. Do lado das autoridades do Estado Novo, a prioridade foi sempre resistir a qualquer tentativa de negociar uma transferência de soberania para a China e limitar a capacidade de intervenção do governo chinês, naquela altura numa posição de algum prestígio internacional.

      Não tivesse Macau permanecido neutral até ao fim da guerra, teriam as colónias de Macau e Hong Kong regressado à soberania chinesa muito mais cedo?

      Não tendo sido o factor primordial, diria que, sem ter em conta o facto de Macau ter permanecido oficialmente neutral, não se consegue compreender como Macau e Hong Kong não foram descolonizados em 1945, à semelhança de outros territórios sob controlo estrangeiro na China. A ligação próxima a Hong Kong e o auxílio que muitos em Macau prestaram a refugiados de Hong Kong e algumas facilidades a nível de comunicações e abastecimentos dados à recolonização britânica do território foram importantes, ainda que não determinantes. Ainda assim, noto no livro como a guerra foi o período em que Macau foi mais importante para o Reino Unido desde a fundação de Hong Kong – e essa memória está largamente ausente no Reino Unido e mesmo em Hong Kong.

      Portugal esteve para entrar na guerra por várias vezes, por causa de Timor. Mas nunca o fez por causa de Macau, entre outras razões. Qual foi o momento mais crítico, aquele em que a ocupação pelos japoneses parecia irreversível?

      Trabalhos importantíssimos de historiadores portugueses da Segunda Guerra Mundial, como António José Telo, já abordaram essas ofertas de participação na guerra no Pacífico. Como foi notado, Portugal não entra na guerra por várias razões, incluindo ser essa a escolha de outros beligerantes. A neutralidade era conveniente a todos precisamente porque oferecia oportunidades de obtenção de bens, circulação de pessoas, espionagem, etc. No caso de Macau, temos também o elevado número de refugiados (incluindo milhares de britânicos) como um factor. A neutralidade de Portugal era também conveniente para o Japão e era-o sobretudo na Europa quando, já perto do final da guerra, a Espanha corta relações com o Japão, de que tinha sido muito próxima. Territórios neutrais eram cruciais para obter e circular informação, etc. No final da guerra, Macau tornou-se refúgio também para alguns japoneses, incluindo não só civis a fugir dos bombardeamentos aliados sobre a China como também de pessoas procuradas por crimes de guerra. Há muitos “momentos críticos” pois os rumores de uma invasão japonesa ocorrem em várias alturas durante a guerra, sobretudo nos anos que se seguem à ocupação de Hong Kong. A correspondência e memórias de pessoas que estavam em Macau na época dão conta desse permanente estado de ansiedade –a neutralidade de Macau não era vista como uma garantia estável, era sempre algo que podia mudar a qualquer momento. Em 1943, o rapto do navio Sai-On que estava atracado em Macau, com vários refugiados aliados, perante a completa passividade das forças portuguesas, é um momento de alguma tensão que demonstrava o quão sujeita a abusos a neutralidade portuguesa estava e o quanto estes podiam ser tolerados. O assassínio do cônsul japonês Fukui Yasumitsu, de certo modo estimado pelos britânicos e pelo governador, em 1945, gera grande alarme também, sobretudo porque demonstra claramente as divisões entre os próprios japoneses, longe de agirem a uma só voz em Macau.

      Portugal conseguiu que, pese embora as pressões do governo de Chiang Kai-shek (um dos membros dos países aliados), Macau não fosse devolvido à China no fim da II Guerra. Mais tarde, com a Guerra da Coreia e os comunistas no poder na China, percebe-se melhor que Macau tenha servido os interesses de Pequim, como elo de ligação ao mundo ocidental, para efeitos de circumvenção do embargo, entre outros. Mas no imediato momento em que a II Guerra acabou, o que é que impediu que as grandes potências aliadas, nomeadamente os EUA e a Inglaterra, tenham “oferecido” à China Nacionalista o regresso de Macau à soberania chinesa? Quais foram as manobras de bastidores, diplomáticas e eventualmente outras, que conduziram a esse desfecho?

      O futuro de Macau não era propriamente uma prioridade para os Estados Unidos, embora haja documentos recomendando que forças norte-americanas não deveriam atacar Macau mesmo se os japoneses o fizessem. Os Estados Unidos da Administração Roosevelt apoiavam os objectivos anti-imperialistas chineses de recuperar o controlo de territórios sob domínio estrangeiro (não só japonês, mas europeu, incluindo Hong Kong). Contudo, a morte de Roosevelt ainda antes de a guerra terminar muda um pouco as coisas (e a Guerra da Coreia, mais tarde, muda-as radicalmente). No que toca aos britânicos, as divergências entre o Colonial Office e o Foreign Office quanto ao futuro de Hong Kong tornam-se paulatinamente num consenso a favor da “restauração” do controlo britânico evidente logo em 1944, à revelia da aliança com a China. A intransigência de sectores britânicos face a Hong Kong tinha semelhanças claras com a intransigência das autoridades do Estado Novo em relação a Macau e isto dificultou bastante as relações com o governo Nacionalista nos anos imediatamente a seguir à guerra. Embora não estivessem de todo dispostos a antagonizar a China apoiando as autoridades coloniais portuguesas em Macau, para os policymakers britânicos do pós-guerra, Macau sob domínio português era menos problemático, pois assim não oferecia a Hong Kong um precedente de descolonização. Os Nacionalistas optam eventualmente por relegar o retorno de Hong Kong e Macau para a esfera diplomática, mas o reatamento da guerra civil torna essa questão uma não-prioridade, embora houvesse vozes a pedir activamente o retorno destes territórios à China, mesmo já numa fase avançada da guerra civil em 1948. As últimas semanas da Segunda Guerra e os primeiros meses do pós-guerra são um período fascinante em que muito aconteceu com consequências difíceis de prever na altura e não apenas em Macau. É, aliás, um tema que estou a aprofundar agora.

      Esta é uma das questões mais controversas, e ao mesmo tempo menos discutidas, dos tempos da II Guerra em Macau. Foi ou não o Governador Gabriel Teixeira, e boa parte da sua Administração, um aliado dos japoneses pronto a colaborar muito para lá das necessidades do momento, em resultado de eventuais afinidades ideológicas com o Japão e os restantes países do Eixo? É possível ter hoje uma opinião informada e definitiva sobre esta questão, ou é uma daquelas controvérsias que jamais conhecerá um veredicto histórico incontroverso?

      Não sei se haverá tal coisa como um “veredicto histórico incontroverso” sobre este tema, mas a perspectiva com que fico da documentação que vi (e não apenas a escrita pelo próprio Gabriel Teixeira, que, como toda a documentação, deve ser lida criticamente) é a de que Teixeira não foi um aliado dos japoneses. Naturalmente que há as declarações do “número dois” da administração que “escapa” de Macau, Luíz Meneses Alves, e que garante ter havido colaboracionismo ao mais alto nível, mas noto que, até o seu relato inicial, ele é menos crítico de Teixeira do que depois se tornou. Na administração haveria certamente pessoas com afinidades ideológicas com o Eixo (possivelmente uma observação aplicável a boa parte das elites do Estado Novo), e havia interacção com alemães, italianos, etc na China. Isso também se verificava com diplomatas portugueses, que embora reconhecessem o governo de Chiang Kai-shek, estavam todos a operar em cidades ocupadas. Mas reparo que, por muita simpatia que alguns tivessem pelo Eixo, o entusiasmo pela retórica (a prática era bem diferente, claro) propagandística japonesa de pan-Asianismo, de “Ásia para os Asiáticos” não era bem recebida pelas autoridades portuguesas. A sua neutralidade visava manter o seu domínio colonial. Em Macau, havia pessoas que contactavam com todos os lados, porque eram os intermediários por excelência, e que de certa forma simbolizam bem a complexidade da “neutralidade” praticada no território. Quanto a Teixeira, interagiu constantemente com representantes militares e civis japoneses em Macau, cedeu a várias das suas exigências, mas também tentou protelar uma série de pedidos e tentar jogar “uns contra outros” para ganhar tempo e espaço de manobra, nomeadamente certos sectores japoneses contra os colaboracionistas do regime de Wang Jingwei. Algumas dessas acções acabaram por contribuir para normalizar relações oficiosas com esse regime, incluindo visitas a Cantão ocupada e visitas a Macau de personalidades do governo da província de Guangdong ocupada, o que coloca claramente as autoridades portuguesas numa posição antagónica com a China que resistia. A questão é que dessas interacções dependiam fornecimentos de arroz e outros géneros necessários a uma população três vezes superior à anterior a 1937, por isso, a questão da ambiguidade vem novamente ao de cima. Diria que a simpatia de Teixeira esteve desde o início do lado dos britânicos, ainda que não fosse sempre uma relação de total alinhamento, porque tinha a consciência de que, se os britânicos perdessem a guerra, dificilmente Macau ficaria sob controlo de Portugal. A afinidade com os britânicos era, acima de tudo, imperialista. No que toca à sua atitude perante a resistência chinesa, parece-me que compreendia a justeza da sua causa e, ainda que operando sob bastante mais pressão, foi menos proactivo que o seu antecessor, Artur Tamagnini de Barbosa, a tentar aproveitar-se da vulnerabilidade da posição chinesa. Com Barbosa sim, nota-se a tentativa de tirar algum proveito colonial da tragédia que se vivia da China. Sim, há algumas continuidades entre os governadores, mas Teixeira é bastante mais savvy a perceber que pode ter algo a ganhar em dar-se bem com todos os lados, incluindo agentes comunistas. No entanto, não penso que Teixeira seja “o” actor central da história de Macau na Segunda Guerra, aliás, não há apenas uma figura, mas uma constelação de personalidades de diferentes nacionalidades e posições. Numa cidade de meio milhão de pessoas, reduzir a história da guerra às manobras de um governador colonial é extremamente redutor. A maioria das pessoas em Macau, refugiados ou locais, chineses, macaenses, britânicos e outros, estava do lado dos Aliados – e não esqueçamos que, por muito periclitante e complexa que fosse essa aliança, a China e o Reino Unido lutavam do mesmo lado. Houve mesmo portugueses a desertarem de Macau e oferecerem os seus serviços à resistência na China livre.

      Trabalho de investigação começou há mais de uma década

      Helena F. S. Lopes é professora de história da Ásia contemporânea na Universidade de Cardiff, em Gales, e tem formação académica em História e Estudos Chineses. O trabalho sistémico que originou “Neutrality and Collaboration in South China: Macau during the Second World War” começou há mais de uma década, com um mestrado na School of Oriental and African Studies em Londres seguido de um doutoramento na Universidade de Oxford, onde foi orientada pelo Professor Rana Mitter, especialista na Segunda Guerra na China. Helena F. S. Lopes continuou depois a investigar o tema nos anos após o doutoramento, em que foi professora nas Universidades de Oxford e Bristol e investigadora em Bristol. Ao PONTO FINAL, a investigadora explicou que a maior parte da investigação sobre o tema foi feita com fontes de arquivo em português, inglês e chinês, e também alguns materiais noutras línguas. Além disso, consultou mais de 20 arquivos na Europa, Ásia (incluindo em Macau), Estados Unidos e Austrália e obteve também fontes de um arquivo na Nova Zelândia. As fontes incluem arquivos diplomáticos de diferentes países (incluindo fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República da China nos anos 1930 e 1940), arquivos de instituições (por exemplo, do Comité Internacional da Cruz Vermelha e da Cruz Vermelha Portuguesa), arquivos privados (incluindo pesquisas detalhadas na colecção de Jack Braga na National Library of Australia), jornais em diferentes línguas, colecções de testemunhos orais, memórias, etc. Por outro lado, usou também bibliografia em várias línguas sobre a Segunda Guerra na China, trabalhos sobre Macau, sobre diplomacia, sobre neutralidade, sobre imperialismo e colonialismo na Ásia, etc.