Edição do dia

Segunda-feira, 17 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
27.9 ° C
29.9 °
27.9 °
94 %
4.6kmh
40 %
Dom
28 °
Seg
30 °
Ter
30 °
Qua
30 °
Qui
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCulturaCinemateca Paixão exibe filmes de António Faria, “contador de memórias” de Macau

      Cinemateca Paixão exibe filmes de António Faria, “contador de memórias” de Macau

      António Faria, cineasta de momento a viver em Vila Nova de Mil Fontes, mas que residiu muitos anos em Macau, é o realizador em destaque no festival de cinema “On the Road” na Cinemateca Paixão. O realizador esteve a partilhar com o PONTO FINAL os seus últimos projectos, que ligam o Alentejo a Macau.

      O passado 28 de Junho foi dia de estreia da última longa metragem de António Faria: “The Beautiful Game” foi seleccionada para ser exibida em estreia, e como filme de abertura. A responsável da Cinemateca Paixão explicou ao PONTO FINAL que “porque estava já preparado para ser exibido este ano, e estava à procura de distribuição e promoção, achámos que seria um excelente filme de abertura. Segundo Jenny Yip, o filme “tem uma grande cinematografia, e queremos também contar com a diversidade do seu trabalho”.

      Em conversa com o PONTO FINAL, António Faria mostrou-se contente e agradecido pela oportunidade de poder continuar a apresentar os seus filmes em Macau. “A Cinemateca tem-me apoiado muito ao longo dos anos. Teve duas associações diferentes a gerir a Cinemateca, e eu tive a sorte de me dar bem com as duas, e de o meu trabalho ser reconhecido por eles, porque eles achavam que era importante para Macau”, recorda.

      Amanhã, às 19h30, é possível assistir ao filme “RutZ”, de 2013, que retrata as experiências de um viajante ao longo da costa sul americana, desde a Argentina até à Colômbia. “O ‘Rutz’ foi uma pausa de Macau. Foi um convite de um amigo de há muitos anos, em que falámos sobre fazer a viagem da nossa vida, e foi isso que fizemos. Foram dois ou três meses de mochila às costas pela América do Sul. Acabámos por fazer uma retrospectiva da geração global a viajar, e entrevistámos os caminhantes e os backpackers ao longo da costa sul americana, desde a Argentina até à Colômbia. Foi uma experiência brutal”, confessa.

      No festival de cinema “On the Road” vai ser exibida outra longa metragem do realizador, “Ina and the Blue Tiger Sauna”, de 2019, nos dias 11, às 19h30, e 15, às 21h30. Nos dias 7 e 11, às 21h30, é novamente projectado o filme “Beautiful Game”. Quando perguntámos ao realizador como foi produzir este filme durante os anos da epidemia, este confessou que foi “complicado em termos de financiamento, mas também de guião. O filme tinha sido financiado pelos fundos do cinema do Instituto Cultural desde 2016, – “deram-me 1 milhão e 200 mil patacas” – mas depois com a epidemia e a impossibilidade de viajar, António Faria teve de rescrever o guião, e passar a acção toda para Macau, mais concretamente para Coloane. “O filme era para ser filmado na China, em Macau e Portugal”,numa tentativa de retratar o desenvolvimento recente da cultura do futebol na China, mas com a epidemia e “as restrições de viajar, e não poder pegar numa equipa de 14 pessoas e ir filmar, fizeram com que isso não pudesse acontecer”. Mesmo assim, garante, a mensagem de fundo “é forte, e sempre a mesma: a história de um miúdo que queria ser jogador de futebol e queria a oportunidade de sair de Macau, em que não há uma cultura de futebol muito forte, e poder sair e fazer a sua caminhada até um país europeu, sobretudo Portugal”.

      Explicando que o filme foi editado parte em Macau, e parte em Portugal, onde o realizador vive desde 2021, António explicou que “A Beautiful Game é uma história de família, de um pai e de um filho, e da mãe também, que têm um restaurante na vila de Coloane alugado, em que o senhorio quer aumentar as rendas porque a esposa está em Hong Kong e quer-se reformar em Hong Kong. Porque as casas são mais caras, ele sobe as rendas em Macau, e então estas pessoas na vila de Coloane não conseguem quase sobreviver a essa mudança”. 

      Quando perguntámos ao cineasta porque é que escolhe na maior parte dos seus filmes enredos em volta de comunidades típicas de Macau, como é o caso de “Time Travel”, de 2011, filmado nos barcos de pescadores do Porto Interior, ou as ‘doc-curtas’ “Os Resistentes”, retratos de vários lojistas tradicionais da Rua das Estalagens, António Faria reconheceu que os seus filmes tocam “sempre na história de Macau, na temática da memória. Acho que é um pouco a nossa responsabilidade, no audiovisual. Fui aprendendo isso sobretudo com pessoas que fui cruzando no meu percurso profissional: a mensagem do audiovisual tem muito poder, e muita memória, isto é, pode despoletar muitas memórias”, explica.Quando filmas, aquilo que está a ser filmado é automaticamente uma memória, mas o que está lá dentro, o conteúdo, também pode ser memória. Seja algo novo ou que já tem história, é sempre memória, e isso interessou-me”. Assim como lhe interessou o lado antigo de Macau. Eu fui para Macau por causa disso, para descobrir Macau”, confessa.

      NOVOS PROJECTOS

      E agora em Portugal, que descobertas se vão fazendo? De momento a “trabalhar num projecto muito interessante de teatro que não é um filme, mas poderá vir a ser”, o realizador revelou que está a colaborar com a associação Teatro do Mira em Vila Nova de Mil Fontes numa peça que retrata a primeira travessia em 1924 de avião de Portugal até Macau, que coincidentemente partiu de Vila Nova de Mil Fontes. A “ajudar a fazer um vídeo para o teatro”, e a tentar também levar a peça a Macau, António Faria não descarta a possibilidade de “fazer um documentário sobre este tema, porque faz a ligação da terra da minha mãe, Vila Nova de Mil Fontes, com os últimos 15 anos da minha vida, que é Macau”.

      Decididamente as ligações a Macau continuam a ser fortes, apesar de já não se viver no território, volta a vincar o realizador, revelando que anda em conversações com António Falcão, fotógrafo de Macau que também vive na mesma zona do Alentejo. “A malta de Macau acaba por se unir toda”, constata. “É importante dizê-lo porque, parecendo que não, as vivências de Macau fazem com que nós tenhamos laços, e possamos trabalhar no futuro, até com pessoas com que nunca trabalhámos. Os laços são enormes e a cumplicidade de temas e vivências e experiências são similares, e então há uma empatia de ideias”. “Em Portugal às vezes temos um choque com alguns portugueses que nunca saíram daqui, admite.

      O “bichinho” de Macau, fica sempre, e a vontade de voltar, também, confessa, revelando que embora de momento esteja focado em passar tempo com a família e os “pais que ainda estão vivos”, já está nos planos vir à RAEM em Dezembro, oupelo menos de dois em dois anos. “A Locanda Filmes, a minha empresa, continua em Macau, e estamos a fazer um projecto com a Clara Brito, por isso estamos com ligações fortes. Macau não foi de passagem e nunca será”.