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      Diversificação do turismo precisa de legislação que crie oportunidades, defende Glenn McCartney

      Na sua tentativa de diversificar o turismo, Macau tem de olhar para os exemplos de cidades semelhantes. Sector privado, departamentos governamentais e legislação devem trabalhar juntos, caso contrário, Macau será ultrapassado pela concorrência, argumentou Glenn McCartney, vice-reitor da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau, durante a sua apresentação ontem na palestra organizada pela Câmara de Comércio França Macau no Sofitel.

      “Diversificação é uma palavra que não paramos de ouvir, mas onde está, e como está a acontecer?”, lançou Glenn McCartney no início da sua apresentação “Encontrar o rumo para uma diversificação do turismo sustentável em Macau”. A convite da Câmara de Comércio França Macau, o vice-reitor da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau foi o orador central de mais uma palestra de pequeno almoço que decorre todas últimas quartas do mês no Hotel Sofitel.

      Tomando como ponto de partida os planos do Governo de diversificar o turismo da cidade, com o desenvolvimento de novos sectores – os chamados ‘1+4’ – a ‘big health’, alta tecnologia, a indústria MICE associada à cultura e desporto, e as finanças, o também professor universitário começou por destacar que “mais do que a diversificação em si, o processo de diversificação é a verdadeira questão que tem de ser analisada”. Como serão feitas as parcerias e estratégias entre o sector privado e os departamentos governamentais, “num mundo de negócios que é por natureza imprevisível, instável, e num mundo insustentável”, em que o aquecimento global é uma questão que condiciona mais do que nunca as empresas e negócios?

      Recordando experiências do passado, Glenn McCartney relembrou que os “‘junkets’, a Grande Baía, Hengqin, foram previsões que acabaram por acontecer”, e que agora Macau tem de “olhar para daqui a 10 anos, em 2033, que é a época em que terminam as concessões, e talvez daqui a 4 anos, quando tivermos a meio, fazer o balanço, e ver o ponto da situação em que estamos”, comentou.

      Ao PONTO FINAL, o vice-reitor da Faculdade de Gestão de Empresas falou sobre um conceito que para si tem toda a importância: a “Ruptura”, o elemento inovador que precipita a mudança. “As pessoas pensam na palavra ruptura como algo negativo, mas acho que podemos ver essas novas realidades que estão já a caminho – AI, tecnologia, assim como a Uber e a Airbnb – como uma mais-valia. A questão é mais de como usar esses instrumentos, porque se pode estabelecer regras à volta desses novos instrumentos, e regulá-los para elevar a nossa cidade”, sustenta.

      “Tomemos como exemplo o ChatGPT, estou sempre a falar sobre isso com os meus alunos. Assim como o ChatGPT, a ruptura já vem aí, podemos tentar evitá-la, mas ela já está a caminho, e vai chegar, portanto temos de estar prontos para usar estas novas ferramentas de uma forma inteligente, para nos ajudar”, argumenta, “porque assim podemos ter mais espaço mental para desenvolver estratégias em grande plano”.

      Enquadrando o caso de Macau no tempo, em que fomos de uma estonteante entrada de 20 milhões de visitantes em 2006, para os anos sombrios da epidemia, na sua apresentação Glenn McCartney alertou para o facto de que “a concorrência nos últimos 10 anos mudou completamente e irrevocavelmente para Macau, com outras cidades da região a terem resorts por todo o lado”, e que a diversificação é agora mais importante do que nunca. “Estas cidades asiáticas estão todas a ficar Inteligentes, e se tu não seguires a mesma tendência, ficas em desvantagem competitiva”, avisa.

       

      LEGISLAÇÃO ATRÁS DA MUDANÇA

      Para o especialista, o Governo tem de criar estratégias para os próximos 10 ou 15 anos, tem de criar novas leis, novas licenças, novas “margens de manobra”, e directivas e apoios para as várias indústrias que quer ver desenvolvidas. Mas será que os legisladores em Macau conseguem estar a par da mudança? Quando questionado pelo PONTO FINAL sobre os esforços que as autoridades e sector privado têm feito para que Macau fique “mais inteligente”, o professor universitário recorda que “há muito tempo que se fez esse planeamento dos carros eléctricos, e é bom para a cidade”. Salientando que “a legislação é muito importante, e tem de estar alinhada com aquilo que é feito”, Glenn McCartney admite que “por vezes a legislação pode não estar a conseguir acompanhar o ritmo da inovação, e há muitas coisas que não podem ser feitas porque a legislação simplesmente não o permite. Talvez a legislação devesse pensar mais à frente, mas isso não acontece”, reconhece.

      Pegando ainda no tema dos transportes e do trânsito, uma das questões mais complexas no território devido à limitação de espaço e uma rede urbana extremamente densa e limitada, o professor observa que “infraestruturas sempre foram um problema para cidades pequenas como Macau, e então temos de olhar a soluções inovadoras, e há vários casos pelo mundo de soluções interessantes, é preciso ir à procura e colher as melhores, e adaptá-las ao cenário de Macau, à geografia de Macau”.

      A seu ver, a tecnologia é algo vantajoso para os transportes, ”e Macau já está a usar mais aplicações móveis, mas também pode recorrer a outras tecnologias de cidades inteligentes, como a da regulação do trânsito, para evitar engarrafamentos”. Também é importante mais zonas verdes e pedonais, especialmente em zonas novas da cidade, sugere. “Não sou arquitecto paisagista nem especialista em planeamento urbano, mas são coisas a equacionar, à medida que desenvolvemos novas áreas na cidade, é importante implementar logo à partida estas novas estratégias, e não construir o planeamento urbano nas zonas novas exactamente igual ao que se fez nas zonas antigas. É preciso pensar à frente, e acho que esta é uma excelente janela de oportunidade”.

      Na sua palestra Glenn McCartney destacou o conceito económico da “Doença Holandesa”, em que ao se investir em apenas um sector do mercado se aniquila os restantes sectores, para argumentar que a epidemia fez vir ao de cima o principal problema de Macau. “Macau também sofre de doença holandesa, com a sua excessiva dependência no turismo”, com as consequências desastrosas que se viu durante a pandemia.  Recordando o caso de Las Vegas, e de 2000, o ano em que esta cidade norte americana “fez a viragem”, passando pela primeira vez a gerar mais receitas como destino de entretenimento “não-jogo”, do que como destino de jogo, o palestrante diz que Macau deve olhar para este caso e pensar em todas as possibilidades. O turismo de aventura, cultural, ou até mesmo o turismo “acidental/casual”, são elementos a equacionar nas estratégias de diversificação, diz.

       

      VIDA NOCTURNA E MICE

      Glenn McCartney destacou uma indústria que tem cada vez mais importância não só em Las Vegas: a economia de entretenimento nocturno. Ao PONTO FINAL, o professor explicou que “diversificar a economia nocturna é algo que toca e beneficia muitas outras indústrias como a MICE, de conferências e eventos”.  A seu ver, “as conferências vão a Las Vegas é pela vida nocturna, pelas actividades de sociabilização, porque parte das oportunidades de negócio e parcerias se fazem depois das 18 horas”, argumenta.

      “A música ao vivo, esplanadas ribeirinhas com restaurantes e bares, tudo isso tem tanto potencial, mas lá está, é preciso haver legislação para isto tudo, é preciso ter licenças para música ao vivo, para zonas de restauração em esplanadas, tem de se criar isto tudo em termos de legislação, caso contrário, o desenvolvimento desse tipo de economia não acontece”, relembra.