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      Macau, por construir

      A história de Macau está cheia de projectos de planeamento urbanístico nunca executados, ou que o foram com grande desvio da ideia original. Numa palestra dada em Macau, em 2017, o professor e arquitecto Thomas Daniell enumerou alguns deles.

      Thomas Daniell é arquitecto e actualmente lecciona no departamento de Arquitectura e Engenharia Arquitectónica da Universidade de Quioto, no Japão, tendo passado pela Universidade de São José, em Macau, entre 2011 e 2018. Numa palestra intitulada “Unbuilt Macau”, que deu em 2017, Daniell focou-se nos projectos urbanísticos que nunca chegaram a sair do papel.

      “Esta minha investigação surgiu do meu fascínio pessoal pelas características especiais – se não únicas – de Macau”, começou por dizer o académico na apresentação, que teve lugar no Teatro D. Pedro V. Este fascínio teve início em 1996, quando Thomas Daniell visitou pela primeira vez Macau, com a zona do NAPE ainda em construção. “Foi incrível ver todo um novo distrito urbano a ser construído sobre a água”, recordou, descrevendo Macau como “um laboratório para experiências em novos tipos de design urbano literalmente baseado na criação de novos aterros”.

      “Devido à ausência de edifícios ou infra-estruturasexistentes, cada aterro é efectivamente uma tabula rasa, uma folha em branco, para reimaginar o que poderia ser uma cidade“, afirmou. Na sua apresentação, Thomas Danielldebruçou-se sobre cinco zonas: NAPE, ZAPE, Areia Preta, Praia Grande e Cotai.

      A atenção de Thomas Daniell recaiu inicialmente sobre o ZAPE, reconstituindo a história e os ziguezagues do seu planeamento. Recuando à década de 1920, o investigador recordou que foi Hugo de Lacerda, Capitão dos Portos de Macau, quem procurou aproveitar aterros para o território ganhar espaço. Nessa altura, Lacerda projectou uma série de ruas em grelha que acabaram por não ser implementadas.

      Em 1962, o Governo criou um departamento de planeamento composto por cinco arquitectos, incluindo Manuel Vicente, para elaborar um plano director para a zona do ZAPE, mostrando o zoneamento e a morfologia dos edifícios. Thomas Daniell destacou que nesses projectos já era visível um espaço destinado ao desenvolvimento de um hotel e casino. Em 1966, o ZAPE foi concedido ao empresário Stanley Ho e à sua recém-criada STDM, que avançou para a construção do Hotel Lisboa. Stanley Ho ainda tentou juntar ao plano instalações desportivas e até uma praça de touros, o que acabou por não se verificar(corridas de touros houve em 1966 e nos anos 90, mas empraças de bambu improvisadas, a primeira junto à Av. Rodrigo Rodrigues, a segunda no Campo dos Operários, onde hoje se ergue o Grand Lisboa). Mais tarde, em 1976, o arquitecto Tomás Taveira fez um novo plano director para o território, incluindo no ZAPE uma zona para uma nova universidade.Acabou bem longe dali – embora do traço de Tomás Taveira tenha nascido naquela mesma zona o edifício do novo Liceu, hoje ocupado pela Universidade Politécnica de Macau.

      Em 1979, o arquitecto britânico sediado em Hong Kong, Jon Prescott, produziu um novo plano director para o ZAPE, que foi supervisionado a partir da sua sucursal em Macau, dirigida pelo arquitecto português Eduardo Lima Soares. O projecto estendia-se desde o Hotel Lisboa até ao Reservatório. Segundo o plano, a maioria dos edifícios deviam ser enormes pódios comerciais de apoio a torres residenciais. Nada disto foi implementado embora houvesse alguma influência nas áreas mais tarde destinadas a parques públicos e outras instalações, tais como o Fórum de Macau“, observou Daniell na sua apresentação, acrescentando que, “curiosamente, o plano incluía uma proposta para um túnel através da Guia, que foi de facto construído nos anos 90.

      Na década de 1980, a STDM já tinha construído mais hotéis no ZAPE e não abriu mão dos lotes vazios naquela zona. Daí que promotores imobiliários tenham pedido ao Governo mais terrenos para construção. E as autoridades começaram a estudar a possibilidade de expandir o ZAPE para o Delta do Rio das Pérolas.

      É assim que surge a possibilidade de fazer a península crescer para Sul. Foi aberto um concurso público para o desenho do aterro então intitulado NAPE. Siza Vieira, que venceu o concurso público para desenhar a zona, propôs uma série de plataformas na água separadas da cidade já existente por canais, de forma a preservar a linha costeira. O projecto do arquitecto português – vencedor do Prémio Pritzker em 1992 – previa avenidas muito largas.

      Para a Areia Preta – originalmente pensada como uma zona industrial –, Siza Vieira sugeriu um sistema viário colocado sobre uma grelha de 144 metros, com cada edifício a ocupar um lote de 120 metros. A zona da Areia Preta em causa acabou por se tornar uma área maioritariamente residencial.

      Daniell notou ainda que, depois de muitos esboços, o terminal marítimo acabou por ser levado para a zona entre o NAPE e a Areia Preta. Também para essa zona estava prevista a construção de uma pequena praça de habitações de luxo e uma marina de recreio. Naquela altura, “o Governo viu o incrível potencial de investimento do NAPE”, assinalou o investigador. Foi então que se iniciou uma segunda revisão do plano, em 1989, ainda que Siza Vieira se tenha oposto ao crescimento dos edifícios em altura.

      Recuando a 1975 e ao processo da Praia Grande, Thomas Daniell explicou que inicialmente Eduardo Tavares fez uma proposta para desenvolver a frente entre o Hotel Boa Vista e o Hotel Lisboa, colocando ali lojas e cafés, numa baía fechada por um lago com ilhas artificiais. Nos anos seguintes, com as mudanças no cargo de governador de Macau, o plano foi esmorecendo. Contudo, no final da década de 1980, foi reaberto o concurso para desenhar a nova configuração da Baía da Praia Grande. O projecto foi atribuído ao arquitecto Manuel Vicente, apoiado pelo magnata Stanley Ho.

      Por fim, o Cotai. Antes de Sheldon Adelson ter imaginado o Cotai cheio de casinos, em 1992 o Governo pensou construir habitação para 150 mil pessoas no aterro. Uma equipa liderada pelo arquitecto Eduardo Lima Soares ganhou o concurso público com um modelo que mostrava torres de pódio residenciais com os estacionamentos públicos no subsolo. Para aquele local estava também previsto um porto de contentores. Na zona Oeste do Cotai estava projectado um complexo turístico chamado “Mega City“, que incluía um hotel, um salão de convenções, um teatro, uma piscina, golfe, ténis, e uma pista de esqui artificial.

      “Macau era suficientemente pequeno e suficientemente rico para se tornar num campo de ensaio para propostas urbanísticas radicalmente utópicas. A Macau construída e a não construída podiam tornar-se um modelo para o mundo”, concluiu o investigador Thomas Daniell.

      A apresentação de Thomas Daniell sobre o planeamento urbano em Macau – estudo a que chamou Unbuilt Macau – pode ser vista, na íntegra, aqui: https://m.youtube.com/watch?v=Jng0OO1NUlw