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      InícioSociedadeA cidade como ponto de partida

      A cidade como ponto de partida

       

      Este projecto foi desenvolvido com grande entusiasmo pelo facto de ter tido a oportunidade de ensaiar um aspecto que considero importante numa obra pública, para uma cidade com as características de Macau. Existia uma grande vontade de não ocupação total da área de implantação do edifício, e a cedência de parte do lote da cota térrea ao domínio público, numa certa generosidade de devolver espaço à cidade. No fundo, entregava-se espaço não ocupado pelo programa exigido, que neste caso era um tribunal com exigências muito específicas e que pela sua configuração e funções espaciais obedecia a um programa complexo.

      O facto de se levantar o edifício e libertar espaço na cota térrea, permitia um acesso e forte relação entre a Av. Dr Rodrigo Rodrigues e monte da Guia.

       

      Este projecto tinha essa preocupação, propunha-se primeiro ao seu contributo urbanístico, atribuindo a cidade como ponto de partida para só depois se pensar e praticar arquitectura.

      Esta intenção de o fazer “flutuar” gerando espaço e circulação por baixo e à sua volta, oferecia a possibilidade de revelar o sopé do monte da Guia, criar acessos a trilhos e a cotas mais elevadas que fizessem a ligação ao farol da Guia e respectivos espaços e equipamentos de uso desportivo e lúdico da Guia. O desenho dos alçados do tribunal foi-se revelando por meio dos espaços fechados impostos pelo programa, nomeadamente as salas de audiências e os espaços abertos como escritórios, entre outros. Existiu também uma forte vontade de introduzir luz natural nas salas de audiência através de aberturas de pátios adjacentes aos planos das fachadas fechadas, garantindo assim as questões de segurança destes espaços e uma poupança significativa de energia do edifício. Na cobertura do edifício existia um jardim com uma relação privilegiada com o monte e farol da Guia, só acessível a funcionários do Ministério Público.

       

      Recordo-me que gostava muito do edifício do HSBC em Hong Kong projectado pelo arquitecto Norman Foster, porque primeiro ele é cidade, e só depois passa a ser arquitectura. Existe todo um espaço público por baixo daquele arranha-céus, este espaço que é gerador de praça, de cruzamento pedonal, de espaço de permanência, é jardim, é comunicação e acesso às ruas adjacentes, resolve o acesso entre cotas diferentes e só depois disso tudo é acesso ao próprio edifício. É edifício gerador de espaço público, que generosamente se oferece à cidade e não ocupa o que por direito é dele.

       

      Este projecto para o Ministério Público foi desenvolvido no atelier da arquitecta Joy Choi em 2016, na altura existia a liberdade de apresentar individual ou colectivamente propostas diferentes para os mesmos projectos que por lá passavam.

       

      …E um atípico “classe M”

       

       

      Este projecto foi também desenvolvido no atelier da Joy Choi , em 2013. O dono da obra tinha adquirido todas as frações de um típico “classe M”1 ( na Rua dos Mercadores. Talvez por força da sua localização, e do ponto de vista da rentabilização do imóvel, o cliente queria trocar o uso de caráter habitacional para comercial.

       

      Do nosso ponto de vista o edifício preexistente apresentava-se sem qualquer tipo de interesse arquitectónico, ou com elementos que fossem de justificável preservação, assim como não existiam edifícios classificados à sua volta. Tal como a grande parte dos edifícios de classe M desta zona, este tinha um lote estreito e grande parte da sua área destinava-se a garantir o acesso vertical entre pisos através da caixa de escadas. Foi pedido pelo cliente uma intervenção totalmente nova do existente e com uma fachada muito aberta para maximizar a entrada de luz natural. Posteriormente, por razões térmicas foi proposta uma “pele” afastada do plano de vidro que garantia a circulação e arrefecimento da fachada do prédio, ao mesmo tempo criava sombra sem constituir obstáculo à permeabilidade da luz natural. A ideia de colocar estas chapas perfuradas e recortadas por grandes círculos surgiu de alguns elementos encontrados da arquitectura chinesa neste bairro, nomeadamente os vãos redondos e as lojas de chá. Quis-se propor uma relação diferente do utilizador destes espaços interiores a partir dos recortes destes círculos que estavam enquadrados com o que se pretendia revelar ou não do exterior. A determinada altura do projecto, o cliente pediu uma grande sinalização que acabou por alterar o único alçado do prédio, visto que este lote se encontra ladeado por dois prédios. Partilho este projecto pelo facto de olhar para determinadas zonas da cidade de Macau com vários prédios classe M, onde por natureza da especulação imobiliária e força do crescimento turístico, serão alvos de reabilitação, de reconfiguração do seu programa e uso, e talvez possa servir de exercício para uma abordagem mais contemporânea.

       

      Alexandre Marreiros

       

       

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau