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      Edgar Martins eleito Fotógrafo do Ano dos Sony World Photography Awards  

       

      O português, que cresceu e viveu em Macau diversos anos, arrecadou o prémio máximo da edição deste ano do concurso de fotografia graças a uma série de retratos em homenagem ao amigo fotojornalista Anton Hammerl, morto durante a guerra civil na Líbia, em 2011. Em declarações ao PONTO FINAL, o fotógrafo admitiu que tem vontade de fazer um projecto relacionado com Macau, algo que pode, eventualmente, acontecer no futuro.

       

      A caminho da BBC para uma entrevista, o fotógrafo Edgar Martins vê-se grego para atender a todas as solicitações. Acaba de ser agraciado com o principal prémio da edição deste ano dos Sony World Photography Awards: foi eleito Fotógrafo do Ano.

      O trabalho distinguido pelo júri do concurso versa sobre uma série de retratos em homenagem ao amigo fotojornalista Anton Hammerl, morto durante a guerra civil na Líbia, a 5 de Abril de 2011, enquanto trabalhava.

      Já não é a primeira vez que é agraciado pela Sony no seu concurso. Entre diversas distinções destacamos os dois prémios ganhos em 2018 como melhor fotógrafo na categoria de Natureza Morta e um segundo lugar na de Arquitectura. Ao PONTO FINAL, o português, que cresceu e viveu em Macau diversos anos, considera que foi “apanhado de surpresa” apesar de, sem falsas modéstias, admitir que o projecto “tem potencialidade” e não é por seu. “Os resultados em prémios são sempre subjectivos, mas é um projecto que tinha possibilidades por ser uma história incrível”, disse.

      Edgar Martins, vencedor na categoria Retrato, foi seleccionado por um júri entre os vencedores das 10 diferentes categorias em competição, tendo-se destacado pela série “A Nossa Guerra” (originalmente “Our War”), realizada após uma primeira visita à Líbia em 2019. “Estou a passar por uma experiência muito emotiva. Toda esta racionalização da morte. Ao recriar um pouco a viagem do Anton, o espaço que ele tomou, ao ir aos sítios que ele visitou e ao sítio onde morreu, ao encontrar-me com as pessoas com que ele se encontrou e que fotografou, e outras envolvidas no projecto, nomeadamente rebeldes, milícias, todo o tipo de combatentes, militantes, dissidentes líbios, mas também pessoas locais que encenavam as suas próprias histórias, ao encontrar intersecções relevantes entre os nossos percursos e também percebendo as motivações por trás do dele, creio que fui ao reencontro dele, ainda que brevemente”, referiu.

      Tudo começou quando se sentiu frustrado com a falta de resultados na investigação à morte de Hammerl, raptado e executado por uma milícia governamental. O fotógrafo português procurou conhecidos e pessoas envolvidas na guerra civil resultante da queda do regime de Mohammar Khadaffi durante a Primavera Árabe. “Apercebi-me, a partir do momento em que cheguei ao país, de que iria ser muito difícil conduzir ou criar ou desenvolver qualquer tipo de investigação coerente num sítio tão fragmentado e volátil. Decidi então produzir um projecto inspirado, não só na história dele”, explicou, referindo a motivação que levou a homenagear o malogrado amigo.

       

      EDGAR CORAGEM

       

      O presidente do júri para a competição profissional, Mike Trow, descreveu o trabalho de Edgar Martins como “muito forte, feito de forma deslumbrante”, elogiando a coragem do fotógrafo para viajar até à Líbia para fazer este trabalho, que evidencia os riscos que correm os fotógrafos em cenários de guerra. “O Edgar é um fotógrafo invulgar. Ele é muito intenso, é muito sério. E o que nos agradou na história do retrato foi que foi retratada como uma memória, uma memória de um amigo, colega fotógrafo. Ele criou uma série de cenários para representar a história do seu amigo”, afirmou à Lusa.

      A distinção que o português acaba de receber inclui um prémio monetário de 25.000 dólares (cerca de 202 mil patacas), equipamento fotográfico, e uma exposição individual em 2024, em Inglaterra, integrada na mostra anual dos vencedores dos Prémios Mundiais de Fotografia Sony. Para além disso, nos próximos dois anos, o português estará de alma e coração na promoção do trabalho. “Para além de fotografias inclui uma série de outros materiais resultantes da investigação que fiz e ainda material audiovisual, porque as fotografias são uma ínfima parte do trabalho todo, o projecto será objecto de uma exposição no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, mas ainda estou a alinhavar pormenores, por isso não posso falar muito mais sobre isso”, revelou ao PONTO FINAL.

      Um total de 415 mil candidatos participaram no concurso, sendo que cerca de 180 mil entraram na competição profissional deste ano nas categorias de Retrato, Arquitectura e Design, Criatividade, Documentário, Ambiente, Paisagem, Portfólio, Desporto, Natureza Morta e Vida Selvagem e Natureza.

      A título de exemplo, o britânico Hugh Kinsella Cunningham, vencedor na categoria Documentário, apresentou um trabalho sobre os esforços das mulheres na República Democrática do Congo para manter a paz, o norte-americano Corey Arnold (vencedor na categoria Vida Selvagem e Natureza) fotografou ursos, coiotes e guaxinins em cidades nos Estados Unidos, e a sul-africana Lee-Ann Olwage (que arrecadou o primeiro lugar em Criatividade) explorou o quotidiano escolar de raparigas no Quénia. Na categoria de Arquitectura e Design, o chinês Fan Li ganhou o primeiro prémio, com a série de fotografias realizadas numa fábrica de cimento abandonada em Guilin, no sul da China. Já a dupla de fotógrafos Marisol Mendez e Federico Kaplan arrecadou o primeiro lugar na categoria Ambiente com um projecto sobre o impacto das alterações climáticas na população indígena La Guajira, residente na costa desértica da Colômbia. Já as paisagens captadas pelo fotógrafo Kacper Kowalski na Polónia, conquistaram o júri, que lhe atribuiu o primeiro prémio na categoria Paisagem. O basebol feminino retratado por Al Bello destacou-se na categoria Desporto. E o chinês Kechun Zhang venceu com a série “The Sky Garden”, na categoria Natureza Morta.

      Os trabalhos vencedores da edição deste ano dos Sony World Photography Awards estão em exposição no Somerset House, em Londres, até ao dia 1 de Maio.

      Edgar Martins dedicou ainda umas palavras a Macau, terra que o viu crescer, prometendo que está nos seus planos voltar “para fazer algo sobre o território”. “Acima de tudo tenho saudades e, claro, adoraria fazer algo relacionado com Macau no futuro. É um lugar que mudou tanto nos últimos anos”, notou, referindo que os últimos dias têm sido “loucos”, “um autêntico frenesi”.

      O Fotógrafo do Ano dos Sony World Photography Awards nasceu em Évora, cresceu em Macau e vive actualmente em Bedford, no Reino Unido, para onde se mudou em 1996, e o seu trabalho tem vindo a ser exposto internacionalmente. Concluiu um mestrado em Fotografia e Belas Artes no Royal College of Art. É filho do economista Albano Martins, que esteve radicado em Macau muitos anos. Ao longo da sua carreira, o artista foi seleccionado como escolha do júri nos The Magnum Awards e no Hariban Award, e foi também escolhido para representar Macau na 54.ª Bienal de Veneza, em 2011. Desde 1999, já editou um total de 14 livros de fotografia.