Edição do dia

Terça-feira, 18 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
31.7 ° C
34.8 °
30.9 °
89 %
5.1kmh
40 %
Ter
32 °
Qua
31 °
Qui
30 °
Sex
30 °
Sáb
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioSociedadeO choque e a tristeza da comunidade brasileira em Macau perante os...

      O choque e a tristeza da comunidade brasileira em Macau perante os tumultos em Brasília

      Era madrugada em Macau quando, em Brasília, milhares de manifestantes contra o Governo de Lula da Silva invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. As ondas de choque do episódio também chegaram à RAEM e foi com perplexidade e angústia que a comunidade brasileira acordou para as notícias do caos na capital do país.

      Perante o caos em Brasília, a reacção da comunidade brasileira a residir em Macau foi de perplexidade. A tarde de domingo em Brasília, madrugada de segunda-feira em Macau, foi de destruição. Apoiantes de Jair Bolsonaro que se manifestavam na capital brasileira contra o Governo de Lula da Silva acabaram por invadir o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, deixando um rasto de destruição na Praça dos Três Poderes.

      Em Macau, Carla Fellini diz que “acordar e ver que tudo isso aconteceu é triste”. Ao PONTO FINAL, a vice-presidente da Casa do Brasil afirma: “Eu realmente fiquei muito surpresa com a situação no Brasil. Foi inesperado”.

      No entanto, tenta encontrar uma explicação para os acontecimentos: “Ao mesmo tempo, temos de pensar que o povo brasileiro está dividido. Foi uma manifestação do povo, não de forças contrárias, mas de forças que não querem o Governo actual”.

      Carla Fellini, que vive em Macau há 22 anos, considera que este não foi um movimento ligado a Bolsonaro nem contra Lula da Silva. “Ali ninguém está a falar do ex-Presidente nem do actual Presidente, falam de uma situação que os deixa descontentes”, refere, acrescentando mesmo que fica “orgulhosa” por ver manifestações na rua. A vice-presidente da Casa do Brasil ressalva que é contra a invasão e contra a destruição.

      “O Brasil está acordando. Sempre foi um povo muito passivo, de aceitar as coisas. Isto, para mim, é uma manifestação do povo. Com essa parte da destruição, não posso concordar”, afirma. “Estou contra a destruição e a invasão. Mas o protesto em si é uma coisa patriota, e o Brasil sempre foi um povo muito passivo”, reitera.

      Em conclusão, Carla Fellini diz que, quanto à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, “o povo tem de aceitar”. “Se foi eleito um Presidente que o outro lado não quis, o povo tem de aceitar. Foi o que a maioria quis”, termina.

      “Choque, foi um choque”. É assim que a socióloga Bárbara Teixeira descreve o momento em que viu as notícias do Brasil. Ao contrário de Carla Fellini, Bárbara Teixeira diz que já era de esperar algum tipo de acção deste movimento extremista: “Não é uma grande surpresa. Eles estavam a juntar-se para tentar qualquer coisa deste tipo. Mas nós nunca acreditámos que isto chegasse a este ponto”.

      A brasileira aponta falhas na segurança às autoridades de Brasília. “É nítido. Parece que esse grupo foi recebendo autoridade para conseguir chegar a esse ponto”, critica.

      Instando as autoridades policiais a prender todos os responsáveis pelo ataque na Praça dos Três Poderes, Bárbara Teixeira diz que, “se não prender e punir de forma exemplar esses manifestantes e terroristas agora, então a gente pode esperar que noutros estados isso possa acontecer de novo”.

      “Não tem mais Bolsonaro, não tem um líder maior, não tem exército. É uma doença colectiva desse grupo”, aponta. Para Bárbara Teixeira, “é preciso acabar com isto de vez”. “Não tem mais sentido vermos manifestações deste tipo”.

      A socióloga antevê uma maior estabilidade no futuro. “Isto vai acabar, este bolsonarismo não vai perdurar. A tendência é de que no primeiro semestre eles sejam sufocados. No final do ano nós não vamos mais ouvir falar destes bolsonaristas radicais”, prevê.

      Esta invasão pode até trazer algum tipo de união no Brasil. Bárbara Teixeira assinala que a acção foi condenada tanto por parte de pessoas de esquerda como por pessoas de direita. “Estamos todos sentidos com isto”, diz.

      “Quem está doente tem de achar forma de se curar desse bolsonarismo radical. Quem tem um pouquinho de sanidade vai começar a parar com isto, porque não tem outro caminho do que ir para a prisão”, conclui.

      Júlio Jatobá começa por lembrar a “loucura, a insensatez e as atrocidades” da ditadura militar no Brasil, que vigorou até 1985. “Eram memórias contadas pelos meus pais e o meu sentimento era de que o Estado de Direito jamais voltaria a sofrer ameaças”, conta.

      Assim, o professor universitário diz ao PONTO FINAL que “o sentimento instaurado nesse domingo foi de perplexidade e é inadmissível que a memória do país e a democracia tenham sofrido tamanha afronta”.

      Tal como Bárbara Teixeira, também Jatobá considera que “não se pode dizer que não foi uma tragédia anunciada”. “Portanto, o mínimo que se espera é o rigor da lei, não apenas aos que sujaram as suas próprias mãos para atentar contra a democracia, mas aos seus financiadores, aos seus mentores e aos seus facilitadores”, frisa.

      Olhando para os acontecimentos de domingo em Brasília e vendo semelhanças com a invasão do Capitólio dos Estados Unidos por parte de apoiantes de Donald Trump, há dois anos, Júlio Jatobá conclui que “o sentimento é de muita tristeza e perplexidade, mas também de esperança que esta data seja o início do fortalecimento das democracias, não só da brasileira”.

      É também de forma “muito, muito negativa” que Juliana Moreschi vê a invasão do Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. A bailarina e instrutora de ioga diz que “as eleições já terminaram há muito tempo e deveria ser respeitado o resultado”. “Acredito que o Brasil tem de aceitar os resultados e seguir com a vida”, afirma.

      “É muito triste. Todos os brasileiros, independentemente do partido, estão muito chateados”, refere, pedindo que “a paz volte”. “Que consiga haver aceitação do povo brasileiro e que o povo continue a trabalhar. Eu acho que já está na hora de isso acabar”, conclui.

      Roberval Teixeira, por seu turno, considera que “era e ainda é evidente que algum tipo de movimento antidemocrático contrário ao resultado das eleições presidenciais estaria sendo organizado”. O professor universitário aponta que a invasão terá sido facilitada por órgãos institucionais.

      “O resultado foi a depredação física do nosso património e a acção animalesca irresponsável de cidadãos despreparados para lidar com a diversidade de ideias que constituem o nosso mundo”, afirma Roberval Teixeira, sublinhando que “ninguém e nenhum grupo se pode arvorar dono da verdade”. “Parece haver um consenso, que é o de repudiar práticas destrutivas: as que destroem o que construímos, as que destroem a nossa humanidade. O que vimos foram atitudes de grandes dimensões que ganham muita visibilidade”, comenta.

      “São condutas com mais ou menos visibilidade que revelam sujeitos, comunidades e instituições mal formados em termos profissionais, em termos sociais e, sobretudo, em termos humanos”, aponta.

      Em conclusão, Roberval Teixeira afirma: “Ficar chocado não é o caminho. Identificar, mostrar, discutir essas atitudes, todas de grande impacto, são possíveis caminhos, no mundo, no Brasil e mesmo em Macau, para não chegarmos a um juízo final”.

       

      A HISTÓRIA DOS ACONTECIMENTOS

      Apoiantes do ex-Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, invadiram no domingo as sedes dos três poderes do país, obrigando à intervenção federal para repor a ordem e suscitando imediatas manifestações de repúdio de dirigentes a nível mundial.

      Depois de furarem as barreiras de segurança no exterior, os manifestantes pró-Bolsonaro invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF), que acolhem os poderes legislativo, executivo e judiciário, num protesto violento na capital Brasília, onde não se encontrava o Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.

      Imagens transmitidas em directo nas redes sociais mostraram vários manifestantes no interior dos três edifícios públicos, deixando um rasto de destruição, sem que fosse visível qualquer tentativa das autoridades para repor a ordem nas primeiras horas.

      A invasão começou depois de radicais da extrema-direita brasileira apoiantes do anterior Presidente, derrotado nas eleições em Outubro passado, terem convocado um protesto para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

      A polícia brasileira usou gás lacrimogéneo para tentar, sem sucesso, travar os manifestantes, muitos quais pediam uma intervenção militar para derrubar Luiz Inácio Lula da Silva, uma semana após a sua tomada de posse.

      Poucas horas depois da invasão, o Presidente do Brasil, que se encontrava numa visita a zonas atingidas pelas recentes chuvas em São Paulo, decretou a intervenção federal na área da segurança pública em Brasília e garantiu que todos os responsáveis serão punidos.

      Luiz Inácio Lula da Silva acusou ainda Jair Bolsonaro, que se encontra nos Estados Unidos desde o final de 2022, de provocar e estimular a invasão que resultou em pelo menos 200 detenções em flagrante, de acordo com os últimos números avançados pelo ministro da Segurança Pública. Jair Bolsonaro demarcou-se das invasões dos edifícios públicos em Brasília e repudiou as acusações de ter estimulado os ataques.

      “Manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia. Contudo, depredações e invasões de prédios públicos como ocorridos no dia de hoje [ontem], assim como os praticados pela esquerda em 2013 e 2017, fogem à regra”, escreveu Jair Bolsonaro, na sua conta oficial na rede social Twitter. “Repudio as acusações, sem provas, a mim atribuídas por parte do actual Chefe do Executivo do Brasil”, escreveu o ex-Chefe de Estado.

      As reacções de repúdio pelos actos de violência, mas também de apoio ao Presidente do Brasil, rapidamente começaram a surgir, entre as quais do Chefe de Estado português, que considerou “estes actos, além de inconstitucionais e ilegais, inadmissíveis e intoleráveis em democracia, reforçando o apoio e a total solidariedade de Portugal para com o poder legitimamente eleito no Brasil”. Da parte do Governo português, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) condenou a “violência e desordem” em Brasília e reiterou o seu “apoio inequívoco às autoridades brasileiras”.

      A nível internacional, o Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, considerou “escandalosa” a violência protagonizada por apoiantes do anterior Chefe de Estado brasileiro, enquanto a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou-se “profundamente preocupada” com os acontecimentos que ocorreram em Brasília.

      Também o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, condenou a invasão pelos apoiantes de Jair Bolsonaro às sedes do poder brasileiro, defendendo que o povo e as instituições democráticas do Brasil “devem ser respeitados”. Por seu lado, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, expressou no Twitter a sua “condenação absoluta” do “ataque às instituições democráticas” no Brasil e transmitiu o “total apoio” do bloco ao Presidente Lula da Silva.

      A Polícia Militar conseguiu, entretanto, recuperar o controlo da sede do STF, do Congresso e do Palácio do Planalto por volta das 18h00 (5h da manhã de segunda-feira em Macau), assim como desocupar totalmente a Praça dos Três Poderes.

       

      Vitório Cardoso diz que Portugal deve “reassumir a soberania do Brasil”

      Após a invasão em Brasília, Vitório Cardoso, empresário natural de Macau e presidente da secção de Macau do Partido Social Democrata (PSD), fez uma publicação na sua página de Facebook em que diz que “Portugal deve enviar as suas forças especiais para estabilizar e reassumir a soberania do Brasil”. “Tiveram 200 anos de recreio e é hora de acabar com os fugitivos de Portugal para o Brasil e vice-versa para se fugir à extradição”, lê-se na publicação, que é acompanhada de uma imagem das Armas do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que vigorou entre 1815 e 1823. Vitório Cardoso diz ainda que “em respeito pela democracia, Lula da Silva deve ser nomeado Presidente do Governo local e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, nomeia o Governador-Geral do Brasil e assim a Polícia Judiciária Portuguesa deverá estar pronta e atenta para caçar os fora-da-lei e demais foragidos em polícia única nas duas margens do Oceano”.