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      InícioSociedadeGolfinhos cada vez em menor número no Delta do Rio da Pérolas

      Golfinhos cada vez em menor número no Delta do Rio da Pérolas

      Ameaçados de extinção há anos, muito por culpa da poluição das águas do Delta do Rio das Pérolas e pela pesca excessiva, os golfinhos rosas ou brancos estão agora a debater-se com outro problema: a poluição sonora.

      A população de golfinhos rosa ou brancos que vive no Delta do Rio das Pérolas caiu mais de 80% nos últimos 15 anos. A poluição das águas, a pesca excessiva e, agora, o aumento da poluição sonora na zona veio prejudicar o dia-a-dia daqueles mamíferos marinhos, que precisam do som para, entre muitas coisas, caçar ou reproduzir-se.

      O alerta, que tem vindo a ser lançado ao longo dos anos pelo World Wide Fund for Nature (WWF) ganhou eco na imprensa, esta semana, com um texto publicado pela revista National Geographic. “O mar ao redor de Macau e Hong Kong é um lugar barulhento”, escreveu a edição britânica da publicação fundada nos Estados Unidos da América em 1888.

      Apesar da pandemia de Covid-19, os habituais barcos que levam e trazem passageiros de Macau para Hong Kong e o fluxo de enormes navios de carga manteve-se constante. “O desenvolvimento costeiro é interminável. É uma das áreas mais densamente urbanizadas do planeta”, escreve ainda a National Geographic.

      Não se sabe, ao certo, quantos golfinhos habitam o Delta do Rio das Pérolas, mas as autoridades estimam que sejam em torno de 2.000 animais. A espécie rosa ou branca, como é conhecida, é, muito provavelmente, a “maior população discreta do mundo, apesar de estarem a diminuir a cada ano devido a severas perturbações humanas”, admitiu, recentemente, a WWF.

      O fundo sublinhou ainda que o número de golfinhos que gravitam junto às costas de Macau e Hong Kong – habitando principalmente as águas ao sul da Ilha de Lantau – caiu mais de 80% nos últimos 15 anos. “Os golfinhos estão a ser sufocados pelo barulho provocado pelo homem”, afirmou Doris Woo, directora do projecto de conservação de cetáceos do WWF Hong Kong em declarações à National Geographic.

      Desde 2016, a equipa de investigação liderada por Doris Woo tem realizado uma monitorização acústica em cerca de uma dúzia de locais na área e descobriram que distúrbios sonoros – uma cacofonia de hélices zumbindo, perfuração submarina, traineiras industriais e muito mais – reduziram o alcance de comunicação dos animais até 45% e, como se sabe, os golfinhos, como todos os cetáceos, vivem muito em função do som, pois dependem deste “pormaior” “para alimentação, socialização e navegação, e são sensíveis a ruídos altos, que podem causar perda de audição ou até a morte”.

      Conclusão: Os dois cetáceos locais das águas que banham as duas regiões administrativas especiais, o golfinho corcunda do Indo-Pacífico (Sousa chinensis) e o boto-do-Pacífico (Neophocaena phocaenoides) foram classificados como “vulneráveis” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em 2017.

      A verdade, assume a WWF, é que a poluição sonora tem sido negligenciada. Um texto publicado, em 2021, na revista Science revelou que 90% dos 500 estudos analisados descobriram que o ruído excessivo causou “danos significativos” a mamíferos marinhos, como baleias, focas e golfinhos, e quatro quintos dos peixes e invertebrados.

      No oceano, o som viaja mais rápido do que a luz e é usado por quase todos os animais marinhos, desde o krill até às raias. As baleias jubarte, por exemplo, cantam canções complexas de acasalamento com dialectos regionais. Alguns camarões produzem um som de “estalo” para atordoar a presa; e o peixe-sapo faz um curioso chamamento de acasalamento, entre muitos outros exemplos.

      Doris Woo considera que a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, a travessia marítima mais longa do mundo inaugurada em 2018 para conectar as três cidades asiáticas, “criou muita poluição sonora e o tráfego envia reverberações para o mar”. “Essa construção causou muitos danos e transtornos. E as coisas só vão piorar”, considerou a investigadora, considerando que se algo for feito, entretanto, o cenário poderá ser um pouco mais animador.