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      Protestos na China são “ponto de viragem” e mostram desconfiança, diz investigadora da HRW

      As manifestações “sem precedentes” contra as regras anti-Covid na China são um “voto de desconfiança” em Xi Jinping e “um importante ponto de viragem” no país, disse à Lusa a investigadora Maya Wang, da Human Rights Watch.

      Apesar de não acreditar que derrubem o Executivo chinês, Maya Wang considera que estes protestos são um sinal claro da desconfiança e descontentamento sentidos pela população face ao “cada vez mais repressivo” Governo de Xi Jinping e à forma como lidou com a Covid-19.

      “Acho que as pessoas tendem a esquecer que antes de 2013, ou seja, antes de Xi chegar ao poder, a China tinha mais activismo social, às vezes na forma de protestos. Esses protestos mostram que as pessoas na China anseiam por valores universais – liberdade e democracia – da mesma forma que os cidadãos em outros lugares, e que a falta de tal expressão nos últimos 10 anos apenas demonstra a força da repressão de Xi Jinping”, avalia a especialista.

      “Embora eu não preveja que esses protestos derrubarem o Governo chinês, eles são um importante ponto de viragem. Desde os anos 2000, o Governo chinês vendeu a história de uma ascensão da China. Estes protestos significam um exame de consciência na China – as pessoas não estão mais tão confiantes nessa história. As ramificações de longo prazo desses protestos provavelmente irão além dos próximos dias e semanas”, indica.

      Em entrevista à Lusa, Maya Wang, investigadora sénior da China na divisão da Ásia da organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch, diz acreditar que as manifestações se irão prolongar no tempo, mas que o Presidente chinês as irá “neutralizar rapidamente”.

      Os protestos contra as restrições impostas pela China na estratégia ‘zero Covid’ espalharam-se este fimdesemana por grandes cidades como Pequim, Xangai e Nanjing, de acordo com imagens divulgadas nas redes sociais. Os protestos intensificaram-se após a morte de dez pessoas num incêndio num edifício alvo de confinamento em Urumqi na quinta-feira passada.

      Em alguns casos, os manifestantes lançaram palavras de ordem contra Xi Jinping e contra o Partido Comunista da China, numa exibição pública invulgar de desaprovação das políticas do líder do país.

      A Human Rights Watch diz ter tido acesso a imagens de vídeo que mostram “dezenas de polícias” a chegar a locais de protesto para “dispersar a multidão, de forma violenta”.

      Em comunicado, a ONG pediu ainda às autoridades chinesas que “libertem imediatamente todos os manifestantes detidos injustamente e parem a censura ‘online’ sobre informações acerca dos protestos”.

      “Até agora, o Governo chinês recorreu a uma combinação de prisões e censura para controlar a situação. Imagino que nos próximos dias o Governo neutralizará a dissidência fazendo concessões locais, inclusivamente relaxando as restrições da Covid-19, prendendo e ameaçando aqueles que participaram e esperando que esses protestos acabem”, anteviu Wang.

      A investigadora prevê ainda que, apesar de o Governo chinês ter adoptado uma abordagem de “esperar para ver”, em breve Xi Jinping deverá anunciar a “severidade com que lidará com os envolvidos”.

      “Imagino que entre alguns presos, eles serão acusados e processados, embora eu acredite que eles seriam acusados de crimes de criação de distúrbios. Espero mais alguns protestos, mas também espero que o Governo chinês, agora bastante hábil em lidar com a dissidência, consiga neutralizá-la rapidamente”, diz.

      Contudo, para a investigadora, isso não significa que os protestos “falharam”, frisando que, com o tempo, as manifestações só “irão aumentar”. “As pessoas ganham esperança protestando. Sabendo que não estão sozinhas, esse tipo de aprendizagem e solidariedade pode crescer com o tempo, além do imediatismo dos próprios protestos”, conclui.

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau