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      Início Opinião Grandiosas celebrações em épocas de crise - I

      Grandiosas celebrações em épocas de crise – I

       

       Aquelas cerimónias e rituais faziam parte de um código, uma linguagem, que tinha, entre outras, as missões de destacar os poderes políticos e religiosos

      Nunca é supérfluo sublinhar como a história de Macau é uma sucessão de voltas e reviravoltas, lendárias cambalhotas que, apesar da sua transitoriedade, acabam por ser momentos definidores. Um desses – talvez o primeiro volte-face verdadeiramente transformador na atribulada história do território – ocorreu com o fim do comércio com o Japão, entre 1639 e 1640. Era o declínio da época dourada.

      A importância de Macau, tanto material, como espiritual – que naquele tempo se fazia de importante –, mede-se bem pela descrição que dela faz o padre missionário jesuíta António Francisco Cardim.

      Como frisa Charles R. Boxer (“Macau na Época da Restauração”, 1942), nos seus “Memoriais sobre a Restauração em Macau, 1642-43”, Cardim “não perdeu ocasião de fazer ver às autoridades de Lisboa e de Goa a grande importância do bem-estar de Macau sob o ponto de vista tanto espiritual como temporal, e a necessidade de concorrer para a sua prosperidade por todos os meios”. Afinal, “Macau era o mais rico empório do então decadente Império português na Ásia”.

      Conforme o padre Cardim deixou escrito, “dado o caso, o que Deus não permita, que se perca a cidade de Macau, perde Vossa Majestade o melhor contrato da Índia rica, nem há Índia rica sem a China, perdem-se as cristandades da China, Tonquim, onde se baptizam todos os anos dez e doze mil almas, e é a melhor coisa que Vossa Majestade tem hoje em todo o Oriente, e a igreja de Deus debaixo de Rei gentio, perde-se mais a cristandade de Cochim-China, Camboja, Champa, e Sião, e sobretudo as grandes esperanças da restauração do Japão”.

      Esta ansiada restauração do Japão não chegou, mas a cidade rejubilou com a Restauração da Independência e a aclamação de D. João IV, o Restaurador (e fundador da dinastia de Bragança), como 21.º rei de Portugal, a 1 de Dezembro de 1640. O Japão poderia vir a seguir. Esperava-se, como se esperou pela notícia do fim do domínio filipino sobre a coroa portuguesa, que tardou em atravessar o mundo – só dois anos depois Macau recebeu a boa nova.

      A notícia de um rei português chegou a Macau no dia 30 de Maio de 1642, e seguiram-se mais de dois meses de festejos, que começaram por uma procissão solene “em acção de graças a Deus nosso Senhor”.

      Bem que se podia dizer que os tempos não estavam para festas, mas, também precisamente por essa causa, o ambiente prestou-se a celebrações como nunca se tinham visto. Uma nova era começava, e esperança tornava-se palavra de ordem. A coisa, portanto, não se fez por menos.

      A descrição das cerimónias e festividades da Restauração em Macau, em 1642, deve-se a D. João Marques Moreira, sacerdote que, à época, residia na cidade. É ele o autor da “Relação da majestosa, misteriosa, e notável aclamação que se fez a Majestade El-Rei João o IV nosso Senhor da cidade do nome de Deus do grande Império da China, e festas que se fizeram pelos Senhores do Governo Público, e outras pessoas particulares”.

      Boxer, que divulgou este documento, referiu-se aos fracos méritos de Marques Moreira como escritor, criticando o “estilo túrgido, difuso e hiperbólico ao ponto de ser incoerente”, bem como as “descrições minuciosas sem importância, como a dos chapéus usados por alguns escravos”. Mas, rematava o historiador, “apesar da sua balofa prolixidade, a narrativa fornece-nos uma ideia interessante da vida social e cultural de Macau”.

      Somos tentados a considerar, todavia, que não era “apesar”, mas sim por causa da verbosidade do bom sacerdote que o documento guarda melhor o seu valor e nos permite perceber como aquelas cerimónias e rituais faziam parte de um código, uma linguagem, que tinha, entre outras, as missões de destacar os poderes políticos e religiosos, seus representantes e instituições, bem como projectar as imagens que pudessem servir de elementos de unidade e coesão, valores particularmente importantes no contexto de um império disperso e – particularmente até então – sob ameaça existencial.

      É justamente por aqui, enaltecendo essa tensão que se manifestava de forma cada vez mais notória, que começa o longo relato de Marques Moreira, enquadrando o sentimento daquela Macau que, pouco tempo antes, tinha sido virada do avesso.

      A abrir, evoca-se o “sábio Epiteto” dirigindo-se aos que se viam “cercados de angústias” e “à porta da desesperação, cuidando terem os céus em campo contra si, e estarem apostados a lhe darem ruína, donde nunca mais levantem a cabeça, e saiam do abismo de seus males”.

      O filósofo estoico grego mandava que se animassem aqueles que se viam descontentes, “porque infelicidades não costumam ser de dano, mas de proveito aos homens, que com qualquer viração mais esperta da fortuna, dão o pano todo, e desaparecem”. E os infortúnios, como embarcados numa caravela, zarpavam para longe.

      Era preciso crer. E ver, como se via, realmente, que estava aquela cidade, “cercada de angústias com inquietações havidas poucos meses antes, perdas e quebras do comércio do Japão, e a juízo de muitos, postos os céus em campo contra seus moradores com sobressaltos e receios de sua total ruína”. Mas, “quando mais desconfiada se achava não faltou o sábio dos sábios Deus a consolar e animar com a nova da feliz sucessão de el Rei nosso Senhor Dom João o IV”. A sorte mudara e as “partes monstruosas” desapareceram com o “aplauso geral de teatros, festas, repiques e outras mostras de sumo contentamento”.

      Era, descreve o nosso cronista, “como se [Macau] se vira com os muitos milhões que pela barra lhe entravam todos os anos, quando mais se considerava no auge, e ponto de suas opulências com enchentes de riqueza correndo por canos de ouro e rios de prata”.

      Logo no início de Junho, mandou-se levantar o estandarte real com as Quinas “em várias partes, e lugares públicos”, e descobriu-se “a artilharia de todos os postos e baluartes”. Ao sinal dado no forte de São Paulo, os capitães, soldados e artilheiros dispararam “com tal ordem, que parecia um esquadrão bem formado em guerra, sendo muitas as salvas e vivas ao rei”. Cada descarga era acompanhada pelo repicar dos sinos das igrejas, criando uma “harmonia de modo que pulavam os corações de prazer e alegria não cabendo em si de puro contentamento”. (continua)

       

      Hugo Pinto

      Jornalista