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      EM FOCO

       

      KANGXI, O FILHO DO CÉU; TOMÁS, O FILHO DA TERRA

      Tomás Pereira e o Imperador Kangxi conta a história do jesuíta português que foi conselheiro do imperador da dinastia Qing durante mais de 30 anos no século XVII. Tereza Sena assina uma narrativa histórica com elementos de ficção, que vai da aldeia do Pedreiro à corte de Pequim.

      A escadaria de São Paulo, em Macau, é o lugar onde arranca a expedição histórico-ficcionada da vida do missionário jesuíta Tomás Pereira proposta por Tereza Sena em Tomás Pereira e o Imperador Kangxi (Guerra & Paz). Este português seiscentista, especialista em cálculo de calendário, prepara-se então para deixar com pompa o território e rumar a Pequim, de onde o chama o imperador Kangxi, símbolo maior da dinastia manchu Qing. Corresponde a descrição que encontramos desta e das subsequentes cenas ao que realmente aconteceu? A reposta é difícil e, ao mesmo tempo, não é o que mais interessa neste livro recentemente editado. Trata-se, isso sim, de uma “história plausível”, como outras que encontramos ao longo deste trabalho de divulgação, e que preenchem os largos vazios existentes na biografia de Tomás Pereira.

      Tomás Pereira e o Imperador Kangxi leva o subtítulo Um diálogo entre a China e o Ocidente e nasce curiosamente de um convite com origem diplomática, lançado pelo então embaixador de Portugal na China, José Augusto Duarte – convite que, através da Universidade de São José, Tereza Sena, actual investigadora do Centro Científico e Cultural de Macau e por muitos anos residente no território, aceitou, tendo dedicado praticamente um ano a completar a obra. 

      Este é um texto diferente daqueles que a historiadora está acostumada a escrever, conta Sena ao Ponto Final. «Estou habituada a um tipo de escrita um bocadinho árida, muito anotada e referenciada, para o trabalho académico. Aqui, com toda a liberdade que me era permitida, a minha preocupação foi dar-lhe quase que um carácter de escrita fílmica, como se fosse um guião, dar-lhe ritmo.» Para tal, decidiu recorrer a uma das áreas de saber de Pereira, a música, e estruturar o livro através de andamentos musicais. Sena nota que há muitas vezes um divórcio entre a academia e a ficção – «apesar de isto não ser bem ficção, ter apenas partes ficcionadas» – e interessa-lhe a ideia de poder vir a trabalhar deste mesmo moda outras figuras históricas. «Tenho estudadas muitas personagens interessantes e curiosas do ponto de vista académico, algumas já publicadas, outras ainda a meio», diz, não rejeitando a hipótese de se lançar no género do romance histórico.

      Do Pedreiro a Pequim

      A vida de Tomás Pereira, como a de outros nomes da história portuguesa mais distante, é feita de zonas de sombra. Neste caso, pouco se sabe sobre o jesuíta nascido na aldeia do Pedreiro em 1645 até à sua chegada à corte de Pequim, onde acabará por servir o imperador Kangxi por 36 anos. A partir daí existem inúmeros registos já trabalhados academicamente, incluindo uma forte actividade epistolar. Tendo em conta este desequilíbrio entre os primeiros anos de Pereira e a sua vida na capital do Império do Meio, e porque não é «muito da escola dos heróis nem da abordagem apenas das personagens individuais», Tereza Sena resolveu adoptar um registo diferente. «Pensei que podia tentar globalizar a questão e tratar Tomás Pereira nesta primeira parte, até á chegada a Pequim, como um elemento de um destino comum, e contar um pouco o que foi a sua aventura – por um lado a viagem marítima, como isso seria para as pessoas que estavam sujeitas a ela; e depois dar uma dimensão colectiva do missionário, do jesuíta, etc.». Pereira viveu em Goa antes de rumar a Macau e depois a Pequim, onde ficaria até ao fim da vida, em 1708. Para reconstituir os períodos mais cinzentos, e fazer uma síntese do que seria a vida em territórios como Macau e Goa, Sena socorreu-se de fontes diversas que ajudam a contextualizar a época, tendo sempre presente o «propósito informativo [da obra], tanto para o lado português como para o lado chinês». «Foi quase a construção de um meta-discurso, com alguma coisa do nosso imaginário, para dar vivacidade e ritmo à narrativa», acrescenta.

      Matemática e música

      «Tomás Pereira é um elemento no seu conjunto. Através da vida dele podemos perceber o que seria a vida de um missionário jesuíta e a ida para o Oriente», diz Sena. Na corte imperial, Pereira trabalha ao lado de matemáticos e astrónomos de renome, todos eles pertencentes à Companhia de Jesus, como Ferdinand Verbiest, ganhando a confiança e os favores dos mandarins e logrando alguma consideração e proximidade ao imperador. Sena explica: «Há uma estratégia dos jesuítas a partir do início do século XVII – dando continuidade ao que tinha sido iniciado por Matteo Ricci, que é o primeiro a conseguir chegar à corte de Pequim, embora não tenha tido contacto com o imperador – que é a estratégia dupla de granjear aliados e interesses na corte, dialogando com os literati, trocando conhecimentos científicos; e à sombra disso ir fazendo guanxi, contactos com os mandarins que depois eram colocados nas várias províncias, para que, instalando-se perto desses homens, tivessem a sua protecção». A autora lembra que este era o período do «processo de introdução na China de um religião nova, que não tinha nada a ver com os princípios morais, políticos, sociais da cultura chinesa, e que portanto gerou sempre tensões e movimentos anti-cristãos». 

      Neste «jogo duplo de influências», Tomás Pereira acaba por ganhar algum estatuto e servir no chamado Tribunal das Matemáticas, onde os jesuítas garantiam os «cálculos astronómicos segundo o método ocidental, que provou ser mais fidedigno que o vigente até então». Esta era
      «uma função extremamente importante para o cálculo do calendário – um princípio de legitimação da própria dinastia e da boa governação: a passagem dos cometas, as intempéries, a regulação das colheitas –, extremamente importante para um país agrícola». Além disso, lembra a investigadora, «na cultura chinesa tem uma aplicação completamente diferente», ligada aos dias mais ou menos nefastos. 

      Pereira não era um astrónomo afamado como outros seus colegas, do qual é bom exemplo Claudio Filippo Grimaldi, mas acaba por ocupar cargos de relevo. Além de chegar a ser professor de música do imperador e de se especializar na construção de órgãos que manipulava exemplarmente, «o zénite da carreira da sua carreira ao serviço do império é o seu papel na mediação, como intérprete, no Tratado de Nerchinsk, em 1689, o primeiro tratado sino-russo e sino-ocidental, extremamente importante por causa dos problemas fronteiriços e que dura por mais de um século».

      Tomás Pereira e o Imperador Kangxi já está nas livrarias mas ainda não foi apresentado ao público, algo que deve acontecer em breve. O projecto do livro previa a tradução para chinês, por iniciativa da Embaixada de Portugal na China; e para inglês, porventura numa iniciativa da Universidade de São José, mas ainda não há notícias sobre estas possíveis edições noutros idiomas.