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      CRÍTICA

      François Bougon

      Na Cabeça de Xi

      Zigurate

      Tradução de Carlos Vaz Marques

       

      RETRATO DE UM HOMEM ENQUANTO LÍDER

      Um jornal em língua inglesa provavelmente não resistiria à tentação de titular esta peça com o orelhudo «Who is Xi?» que encheu as páginas impressas e digitais de muitos meios de comunicação quando, há uma década, Xi Jinping assumiu a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) e, pouco depois, a presidência da República Popular da China (RPC). É exactamente uma tentativa de resposta a essa questão aquilo que o jornalista François Bougon ensaia no livro Na Cabeça de Xi, publicado em francês em 2018 e agora revisto e actualizado antes de ser traduzido e publicado em português pela recém-criada editora Zigurate.

      Correspondente da Agência France Press em Pequim durante os anos de Hu Jintao e alguns dos anos de Xi, e fluente em chinês, Bougon decidiu mergulhar na vida do novo timoneiro e tentar compreender o líder de uma das maiores potências mundiais. Fê-lo recorrendo bastas vezes a entrevistas no terreno, a livros e artigos dedicados a Xi Jinping por académicos e jornalistas, mas ainda mais a textos e discursos do próprio sobre a governança chinesa. 

      François Bougon apresenta Xi enquanto homem de carisma, pragmático e confiante, um “guerreiro cultural”, um líder decidido a recuperar o imaginário nacional da China comunista, um homem ciente da necessidade de uma certa mitologia de sacrifício e serviço à pátria. Mas de que massa é feito este líder? 

      O jornalista francês revela aspectos da biografia de Xi e da sua família; traça a sua carreira política de funcionário desconhecido a líder do partido, aponta os momentos marcantes do seu percurso ideológico (a Revolução Cultural e a queda da União Soviética), discorre sobre as principais características da sua governação – o culto da personalidade; a concentração de poder; a luta contra a corrupção no partido e, por extensão, as purgas; o recrudescer do nacionalismo; o fortalecimento da China na arena internacional e a mão de ferro no modo de lidar com qualquer dissenção, de Hong Kong ao Xinjiang, das críticas em fóruns online à contestação em torno das políticas anti-covid – tudo para explicar como se elevou este homem do quase anonimato à liderança de uma máquina partidária com mais de 86 milhões de membros e de um país com um 1,3 mil milhões de almas.

      François Bougon dedica longas páginas aos anos que o jovem Xi Jinping passou no campo durante a Revolução Cultural, num movimento que abrangeu mais de 17 milhões de pessoas, entre estudantes e intelectuais. Xi é enviado para Shaanxi em 1969, para uma região chamada “Terra Amarela”, devido à cor do solo, precisamente a aldeia de Liangjiahe, e fá-lo com entusiasmo. Aquele é considerado o berço da civilização chinesa e é também o lugar onde Mao Zedong e outros revolucionários – incluindo o pai de Xi e camarada de Mao, Xi Zhongxun, que ali serviu mas que haveria de ser vítima de uma purga política em 1962 – se refugiaram durante a revolução. A “Terra Amarela” está, portanto, carregada de simbolismo e o futuro presidente da China soube valer-se disso, como nota Bougon: «Observemos, por ora, que a passagem de Xi por esta região lhe permite ligar profundamente a grande história (a história imperial), a história revolucionária e a sua história familiar.» (pg.49) 

      Os primeiros tempos foram difíceis, mas finalmente Xi consegue integrar-se por completo nas massas e sente-se realizado. Este aspecto, nota, Bougon, é ainda hoje fundamental na narrativa de poder do presidente chinês e no modo como olha para as novas gerações de quadros do partido. Xi: «Aos 15 anos, quando cheguei à Terra Amarela, estava perdido, indeciso; aos 22, quando regressei, os meus objectivos na vida eram claros, tinha confiança em mim próprio. Enquanto servidor do Estado, os planaltos do norte da província de Shaanxi são as minhas raízes. Foi lá que nasceu o meu ideal inabalável: dedicar-me ao povo. Aonde quer que vá, serei sempre um filho da Terra Amarela.» (pg.51) Esta, acrescenta Bougon, é «uma forma profunda de enraizamento que coloca Xi Jinping na esteira de Mao. Tal como o Grande Timoneiro, ele pode orgulhar-se de ter um conhecimento profundo da China pobre e rural», algo que vê como um «enorme trunfo». (p.52)

      Bougon nota que Xi continua a acreditar que «quadros políticos puros e honestos, próximos das massas, podem salvar o partido e impedi-lo de se afundar como se afundou o Partido Comunista da União Soviética. Xi está convencido disso e seria errado pensar que é puro cinismo. Ele acredita que apenas um regresso ao maoísmo original pode assegurar o futuro da China». (p.55)

      Na cabeça de Xi recupera e compila uma série e momentos marcantes e pistas na caminhada e na postura daquele que haveria de tornar-se o líder supremo da RPC. Quando tenta olhar para o futuro, é mais um livro de perguntas que de respostas. No capítulo intitulado «O xi-ismo» o autor questiona-se: «Existirá um ‘xi-ismo’ como houve outrora um maoísmo, essa versão sínica do marxismo-leninismo que inflamou uma parte da juventude ocidental?» (p.149). É sabido que Xi já inscreveu o seu pensamento na Constituição chinesa, à imagem de Mao Zedong e Deng Xiaoping, desta feita sob o mote «Pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo chinês para uma nova era”. Mas «onde situar Xi Jinping na batalha das ideias para preparar o futuro da China?», indaga Bougon. «Ele não está totalmente à direita, onde se defende a mudança constitucional, nem totalmente à esquerda, onde se reúnem os saudados do maoísmo autoritário. Como todos os homens políticos, observamo-lo a esquivar-se, a remendar, a procurar equilíbrios, fazendo promessas a uns e a outros. Não há nada que o identifique como autor de uma síntese coerente especificamente sua». (p. 154-155) Na análise de Bougon e dos teóricos que cita, como Jiang Shigong, se algo aparece como coerente é a liderança interna forte e severa de Xi, em contraste com a do seu antecessor Hu Jintao. 

      Na cabeça de Xi termina, mais uma vez, com vários pontos de interrogação e algum cepticismo em relação a esta “nova era” da China. Bougon cita vários sinólogos que apontam as fragilidades do regime e lista os seus sinais de fraqueza: «a fuga dos ricos para fora do país, a repressão política, a falta de fé no sistema entre muitos dos fiéis, uma economia esgotada e a corrupção (…)». (p.157). Para o autor, tudo dependerá da capacidade de Xi Jinping para conseguir que o PCC não se deixe ultrapassar por uma sociedade em mudança, combinando aquilo a que chama neo-autoritarismo e inovação tecnológica, e investindo cada vez mais na fusão e indistinção entre Partido e Estado. «Se for bem-sucedido, isso virá a ser, ousamos dizê-lo, a ditadura perfeita do século XXI. Xi Jinping tem a determinação, o instinto político, a cultura e os antecedentes para chegar lá». (p.160).