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      Política de ‘zero casos’ deixa “última geração” com pouca esperança no Governo

       

      Cici, funcionária numa empresa estatal em Pequim, começou activamente à procura de formas de emigrar durante o bloqueio de Xangai, que ficou marcado pela escassez de alimentos e isolamento de casos de covid-19 em condições degradantes.

       

      “Não foi tanto pelo bloqueio em si, mas mais pela forma como o Governo actua”, explicou Cici, funcionária numa empresa estatal em Pequim, à agência Lusa. “E, visto que a actual liderança política se deve manter, o melhor é começar a pensar num plano B”, apontou.

      Xi Jinping, o mais forte líder chinês das últimas décadas, reverteu várias das reformas políticas implementadas nas últimas décadas na China, que visavam evitar os excessos que marcaram o reinado do fundador da República Popular, Mao Zedong (1949 – 1976).

      Sob a direcção de Xi, o Partido Comunista Chinês voltou a penetrar na vida política, social e económica da China, enquanto o poder político se centrou na sua figura. Este mês, Xi deve voltar a quebrar com a tradição política das últimas décadas, ao obter um terceiro mandato como secretário-geral do PCC, no 20º Congresso do Partido, que arranca no dia 16.

      A insistência na política de ‘zero casos’ de covid-19, assumida como um triunfo político pelo líder chinês, levou as autoridades a impor medidas de confinamento cada vez mais extremas e frequentes, apesar do crescente custo económico e social.

      O bloqueio de Xangai, a mais próspera e cosmopolita cidade da China, durou quase dois meses e ficou marcado por cenas de violência e fome, alertando muitos chineses para a capacidade do Estado em abolir subitamente liberdades ou direitos individuais, tidos até então como garantidos. “Senti-me sem esperança”, contou à Lusa uma residente na cidade, que recusou ser identificada. “Um grupo de pessoas que nem sequer têm educação passou, de repente, a ter o poder de decidir sobre a minha liberdade”, disse, sobre os comités de bairros locais, o nível mais baixo da burocracia chinesa, que está encarregue de implementar as medidas de prevenção epidémica. “É insuportável”, observou outro residente. “O sofrimento faz parte da vida, mas, agora, para além do sofrimento, temos uma coleira colocada no pescoço que dita como devemos viver as nossas vidas”.

      O século XXI foi sobretudo de triunfos para o Partido Comunista Chinês: duas décadas de acelerado crescimento económico arrancaram centenas de milhões de chineses da pobreza e converteram a China numa potência capaz de disputar a liderança global com os Estados Unidos.

      Mas, ao crescente custo económico e social das medidas de confinamento acrescenta-se uma crise no setor imobiliário, que ameaça pôr termo a décadas de crescimento. Face a um mercado de capitais exíguo, o sector concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70%, segundo diferentes estimativas. O investimento em imobiliário por si só representa cerca de 15% do PIB do país.

      É difícil de avaliar o nível de descontentamento popular na China, devido à ausência de estudos de opinião ou imprensa livre no país, mas muitos jovens chineses tornaram-se recentemente mais vocais nas críticas ao regime. “Como é possível 1,4 mil milhões de pessoas dependerem das decisões de um homem só, sem terem voto na matéria”, questionou à Lusa Xiu Zi, residente em Pequim, numa referência à centralização de poder por Xi Jinping.

      A falta de confiança face ao futuro reflecte-se na queda acentuada da taxa de natalidade. Este indicador caiu, no ano passado, para 7,52 nascimentos por 1.000 pessoas, a menor desde que começaram os registos em 1949, segundo dados do Governo chinês.

      Este sentimento deu origem ao tema #ÚltimaGeração, popularizado por um vídeo que se tornou viral nas redes sociais chinesas, antes de ser censurado. No vídeo, vários agentes da polícia vestidos com equipamentos de protecção são vistos a ameaçar os moradores de um bairro em Xangai. Caso eles não cumprissem com as regras do confinamento imposto na cidade, “três gerações” dos seus descendentes seriam punidos. Em resposta ao aviso, um homem responde: “Desculpe, mas nós somos a última geração, obrigado!”. Lusa

       

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      Redacção do Ponto Final Macau