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      InícioGrande ChinaAldeia onde Xi Jinping passou adolescência exibe “espetáculo de um homem só”

      Aldeia onde Xi Jinping passou adolescência exibe “espetáculo de um homem só”

      À entrada da aldeia Liangjiahe, no árido noroeste chinês, três dezenas de polícias fardados ouvem uma guia contar as proezas do Presidente Xi Jinping, durante um dos períodos mais brutais na história recente da China.

       

      Os polícias seguem depois um trajecto de centenas de metros, onde examinam um poço e um sistema que converte estrume em gás metano, alegadamente construídos por Xi, durante os anos de adolescência.

      “Viemos estudar o Pensamento de Xi Jinping”, explicou à agência Lusa um funcionário público da província de Shandong, a quase mil quilómetros dali. Um segundo grupo, composto por 40 funcionários do município de Pequim, viajou 11 horas de comboio. Outros viajaram oito horas de camioneta, a partir da província de Hubei.

      Nas paredes da gruta onde Xi passou a sua adolescência estão afixadas fotografias suas e edições dos anos 1960 do jornal oficial do Partido Comunista Chinês (PCC). Garrafas térmicas, lâmpadas de querosene e uma cama espartana dão ao local um ar autêntico.

      Xi chegou a Liangjiahe em 1969, seguindo um fluxo de jovens urbanos para as aldeias do interior, para “aprenderem com os camponeses”, parte da Revolução Cultural, a radical campanha de massas lançada pelo fundador da República Popular, Mao Zedong, que mergulhou o país numa década de caos e isolamento. O líder chinês tinha então 15 anos. O seu pai, classificado de “revisionista infiltrado”, foi enviado para trabalhar numa fábrica de tratores, antes de ser preso. A sua irmã mais velha, Xi Heping, suicidou-se.

      Nas ruas da capital chinesa, Xi passou a ser vítima dos abusos dos guardas vermelhos, os jovens radicais que constituíam “a vanguarda da Revolução Cultural”, antes de ser enviado para Liangjiahe.

      Alfred L. Chan, autor da biografia Xi Jinping: Political Career, Governance, and Leadership, 1953-2018, admitiu à Lusa que as atrocidades cometidas durante aquele período deixaram uma “tremenda cicatriz psicológica” no líder chinês, mas que os valores revolucionários maoistas foram “cruciais” na sua formação política. “Como se costuma dizer: a faca afia-se contra a pedra; as pessoas fortalecem-se nas adversidades”, comentou Xi Jinping, anos mais tarde, sobre a sua adolescência. “Aquele período na aldeia deu-me forças para reagir perante os obstáculos”.

      Situado a 80 quilómetros da cidade de Yan’an, o bastião do Partido Comunista Chinês durante a guerra civil chinesa, a aldeia tornou-se um destino obrigatório para funcionários públicos chineses e os quase 90 milhões de membros do PCC. Todos os funcionários que diariamente acorrem a Liangjiahe envergam um crachá com a inscrição “em formação”.

      A proibição ao culto à personalidade foi incluída na Constituição do PCC em 1982. A “liderança coletiva” foi também cimentada pelos líderes chineses nas décadas seguintes e um limite de dois mandatos presidenciais foi incluído na Constituição do país, para evitar os perigos do poder absoluto, após as políticas desastrosas de Mao Zedong.

      Uma separação entre o Partido e o Estado, visando reduzir a influência dos quadros do PCC, ideologicamente orientados, em decisões técnicas das agências governamentais, foi também promovida.

      Desde que ascendeu ao poder, no entanto, Xi Jinping reverteu várias dessas reformas políticas e é hoje o núcleo da política chinesa. Sob a sua liderança, o PCC assumiu controlo absoluto sobre a sociedade, ensino ou imprensa.

      Este mês, Xi deve voltar a quebrar com a tradição política das últimas décadas, ao obter um terceiro mandato como secretário-geral do PCC, no 20º Congresso do Partido, que arranca no dia 16. “Um aluno dedicado de Mao e igualmente ansioso por deixar a sua marca na História, Xi trabalhou para estabelecer um poder absoluto”, escreveu Cai Xia, ex-professora na Escola Central do Partido Comunista, exilada nos Estados Unidos, num artigo recentemente publicado na revista Foreign Affairs. “Como as reformas anteriores falharam em colocar travões e contrapesos reais sobre o líder do Partido, ele conseguiu”, apontou. “Agora, como no período de Mao, a China é um espectáculo de um homem só”.

       

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau