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      Chegada da Genting pode mexer com a indústria do jogo

      No concurso público para a atribuição das novas concessões de jogo, há seis vagas para sete concorrentes. Além das seis sociedades que actualmente operam os casinos de Macau, também a GMM – empresa ligada ao grupo malaio Genting – decidiu apresentar uma proposta. A possibilidade de a GMM ser uma das escolhidas em detrimento de uma das incumbentes é real e, se se verificar, esta mudança de paradigma poderá mexer com a indústria que é o pilar da economia de Macau.

       

      A GMM, empresa ligada ao grupo malaio Genting, pode provocar uma surpresa no concurso público para a atribuição das licenças de jogo. Aliás, segundo alguns analistas ouvidos pelo PONTO FINAL, a possibilidade é forte. A saída de uma das operadoras e a entrada da GMM poderá alterar o paradigma da indústria do jogo da região.

      A nova lei do jogo estipula que haja, no máximo, seis concessionárias de jogo a operar os casinos da região. Todas as seis incumbentes – Wynn Resorts (Macau), S.A.; Venetian Macau S.A.; Melco Resorts (Macau) S.A.; SJM Resorts, S.A.; MGM Grand Paradise S.A.; Galaxy Casino, S.A. – apresentaram as suas propostas ao concurso público internacional. A juntar-se às seis operadoras actuais surgiu a GMM, que tem como trunfo a experiência no segmento não-jogo e na gestão de ‘resorts’ integrados.

       

      O QUE IMPLICARIA A ENTRADA DA GENTING?

       

      A PONTO FINAL, António Lobo Vilela explica o que implicaria a entrada da Genting no panorama no que toca às propriedades e aos trabalhadores da operadora incumbente que lhe cedesse o lugar. O professor de Direito do Jogo na Universidade de Macau (UM) e antigo assessor do secretário para a Economia e Finanças salienta que “as propriedades, com exceção dos casinos – que revertem para a RAEM no final dos contratos – continuam propriedade da concorrente preterida ou de entidades terceiras, conforme o caso”. Ou seja, a concorrente preterida poderá continuar a explorar os hotéis e os centros comerciais à volta do casino.

      Quanto aos trabalhadores dos casinos, Lobo Vilela esclarece que “seriam certamente absorvidos pela concorrente que ficasse a explorar jogo nos casinos da concorrente preterida”. “Seria do seu interesse ter mão-de-obra para iniciar a exploração de jogos de fortuna ou azar em casino de imediato e sem interrupções”, comenta.

      Questionado sobre a possibilidade real de a GMM tomar o lugar de uma das concessionárias actuais, o autor do livro “Macau Gaming Law” indica apenas que, uma vez que estamos perante um concurso público em que as concessões são adjudicadas às concorrentes consideradas idóneas, dotadas de capacidade financeira, que apresentem as condições mais vantajosas para a RAEM na exploração e operação adequadas dos jogos de fortuna ou azar em casino, isso significa que “todas as concorrentes concorrem em pé de igualdade, vencendo as que apresentarem as condições mais vantajosas”. “A questão que se coloca é como determinar essas condições mais vantajosas”, nota.

       

      GENTING “TEM POTENCIAL”

       

      Carlos Lobo, jurista que esteve ligado ao processo de liberalização do sector do jogo em Macau, diz que a Genting “tem potencial para tomar o lugar de uma das actuais operadoras”, uma vez que “eles têm muita força em áreas que foram consideradas importantes pelo Governo”.

      Recorde-se que o Governo quer que as operadoras se foquem ainda mais no segmento não-jogo e, por isso, as sociedades interessadas no concurso tiveram de apresentar planos detalhados sobre vários projectos e actividades não relacionadas com jogo, desde as convenções e exposições, entretenimento, eventos desportivos, artes e cultura, saúde e bem-estar, gastronomia e turismo comunitário, entre outros.

      Tal como Lobo Vilela, também Carlos Lobo explica que os casinos da concessionária cessante passariam para a GMM, sendo que a operadora que saísse poderia manter as suas propriedades não-jogo.

      Assim, na opinião do analista, há dois temas “extremamente complicados” caso se confirme a mudança: “Por um lado, o que fazer com os funcionários estritamente ligados ao jogo, e, por outro, como operar num empreendimento onde não se controla a área não-jogo”. Estas duas questões poderão “mexer com a vida de milhares de pessoas – empregados e as suas famílias”, alerta. Além disso, faria com que fosse difícil garantir que operações continuassem saudáveis, “porque certamente a operadora que perde a concessão não ficaria contente em ver outros a operar dentro dos seus empreendimentos”.

      Ben Lee, analista da consultora de jogo IGamix, concorda: “Acredito que existe uma hipótese real de a Genting conseguir um lugar, fazendo com que as outras seis fiquem reduzidas a cinco lugares. Ben Lee diz que pode haver fusões entre as concessionárias actuais, por exemplo, a Wynn com a Galaxy ou a MGM com a SJM. O consultor diz mesmo que esta seria a opção ideal para Macau: “Ficaríamos com uma nova operadora com experiência em parques temáticos e com uma base de dados pan-asiática”. Ben Lee também é da opinião de que isto “vai agitar a indústria”.

       

      ENTRADA DA GENTING SERIA “ECONOMICAMENTE INJUSTIFICÁVEL”

       

      Manuela António é da opinião de que devem continuar as actuais seis concessionárias. A advogada ligada ao sector do jogo desde 2001 começa por dizer que, teoricamente, é possível que a GMM tire o lugar a uma das concessionárias a operar actualmente. “Mas, em termos práticos, não faz sentido”, atira.

      Para a causídica, “não há nada que se possa apontar” às actuais operadoras: “Temos seis concessionárias que, sem excepção, nos últimos 20 anos transformaram radicalmente Macau, que se tornou numa cidade conhecida mundialmente. Contribuíram para o aumento das receitas de forma brutal e criaram condições para que os outros mercados se desenvolvessem extraordinariamente”. Manuela António destaca os projectos de diversificação do turismo, a nível da construção hoteleira, restauração, espectáculos, congressos internacionais e desporto, por exemplo.

      “Seria economicamente injustificável porque elas fizeram muitíssimo mais do que o que o Governo fez. O Governo foi sempre a reboque das seis operadoras”, atira, sublinhando que “não há justificação económica que melhore Macau trazendo um novo operador”.

      Além disso, a advogada lembra que, caso o Governo decidisse dar o lugar de concessionária à GMM, o grupo teria vários problemas de ordem burocrática e de recursos humanos para o desenvolvimento dos seus projectos. Recorde-se que, de acordo com a nova lei do jogo, as concessões dos casinos passam a ser válidas por dez anos. Anteriormente as licenças eram de 20 anos. “As concessionárias actuais conhecem o mercado, conhecem as dificuldades, estão implantadas, têm a mão-de-obra, têm tudo. Esta não tem nada, a não ser as salas de jogo. Como é que ela se vai implantar aqui com as dificuldades burocráticas todas?”, questiona.

      Na opinião de Manuela António, nem as tensões entre a China e os EUA servem de desculpa para retirar uma concessionária americana, trocando-a pela malaia. “Estamos a falar de negócios e do desenvolvimento económico de Macau. E qual [das operadoras americanas] vai afastar? Houve alguma que não tenha cumprido os objectivos? Não houve nenhuma”, nota.

       

      AS MAIS-VALIAS DA GENTING

       

      A proposta da GMM foi apresentada na sede da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) no último dia 14 de Setembro. Na altura, a candidatura foi apresentada pelo advogado Bruno Nunes e por uma representante da empresa de apelido Chan, que admitiu à imprensa estar confiante na obtenção de uma licença de jogo na RAEM, esperando “trazer um novo estímulo a Macau através da sua participação”.

      A representante salientou que o grupo liderado por Lim Kok Thay é uma empresa de entretenimento integrado com operações em todo o mundo, incluindo Las Vegas, Nova Iorque, Reino Unido, Malásia e Singapura, sendo a maior empresa de lazer e entretenimento do Reino Unido e tendo recentemente expandido o negócio para o Egipto.

      A empresa também participou na construção da estação de esqui em Zhangjiakou, da província de Hebei, durante os Jogos Olímpicos do Inverno na China. A Genting detém também uma participação de 50% no Hotel Treasure Island, actualmente em construção em Macau.

      Num artigo publicado na semana passada pela Reuters, Terry Ng, analista da Daiwa, indicou que o forte historial de Genting no segmento não-jogo – incluindo a exploração de dois dos maiores parques temáticos do Sudeste asiático – seria um grande atractivo para Pequim, que tem vindo a incitar Macau a diversificar a sua economia, afastando-a do jogo e atraindo turistas estrangeiros.

      O grupo tem sido bem-sucedido na geração de receitas não relacionadas com jogos. Em 2019, cerca de 35% das receitas totais na sua propriedade em Singapura provinham do segmento não-jogo, enquanto que em Macau o segmento não-jogo equivalia a menos de 20% das receitas. Além disso, a Genting poderá também aproveitar as tensões nas relações entre os EUA e a China, olhando para a possibilidade de as autoridades quererem retirar uma das operadoras americanas. A opinião foi partilhada por Ben Lee, que sublinhou: “Esta é provavelmente a oportunidade certa para Pequim remover uma concessionária americana, se não mesmo duas”.

      O PONTO FINAL tentou obter uma reacção junto das operadoras norte-americanas a operar casinos em Macau – Wynn, MGM e Sands China – mas não obteve resposta.

      A Genting “pode oferecer ao Governo de Macau tudo o que eles disseram expressamente querer”, em oposição ao que podem oferecer as incumbentes, que se concentram predominantemente no mercado VIP do interior da China, disse Samuel Yin Shao Yang, analista do Maybank.

      O banco de investimento Nomura realçou que, apesar de partir atrás das outras sociedades, a GMM traz ao concurso novas valências que podem ser úteis face ao contexto que a indústria enfrenta actualmente. “A Genting tem como trunfo a vasta experiência em resorts integrados destinados a uma clientela familiar, rumo que o Governo da RAEM quer para a indústria, privilegiando a diversificação que desloque o actual foco excessivo no jogo das actuais concessionárias”, lia-se num comunicado divulgado na altura da apresentação das propostas. Por outro lado, analistas da JP Morgan indicaram na altura que era improvável a entrada em cena da GMM devido à recente falência da Genting Hong Kong.