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      Início Opinião Uma cidade que se lê há 200 anos

      Uma cidade que se lê há 200 anos

      Em 1986, em Portugal, correu o país uma campanha promovida pelo Conselho de Imprensa. A mensagem era simples e, também por isso, ficou (comigo, pelo menos): “Ler jornais é saber mais”. Naquele tempo, os jornais eram, ainda, o grande meio de transmissão de conhecimento(s), do mais fútil ao mais importante, mesmo que esta distinção se esbatesse tantas vezes ao ponto de o que era mais importante ser tratado da maneira mais fútil (o que ainda acontece e com cada vez maior frequência, como os assuntos da política, por exemplo, serem tratados com a profundidade de uma rivalidade futebolística ou a complexidade de um pobre enredo de intrigas e arrufos de casebre).

      Na definição de Alfredo da Cunha, pioneiro historiador da imprensa portuguesa e antigo director do Diário de Notícias, um jornal é “esse grande livro de todos os dias e quase todas as horas, em cujas páginas volantes colabora por mil formas a reportagem de todo o mundo”. É um trabalho, percebe-se, exaustivo e sempre incompleto, bem como extenuante – mesmo se movido por um grande entusiasmo.

      “Quem nunca entrou nas salas da redacção dum jornal não forma a menor ideia do que é semelhante engrenagem”, observava, na sua edição de 13 de Dezembro de 1942, a Gazeta do Sul. Como ler jornais, significava, de facto, saber mais, este semanário que se publicava no Montijo tratava de explicar aos seus leitores como era essa coisa de os escrever: “Ouve-se o sussurro constante das máquinas em laboração; gente que sai, gente que entra, gente que pergunta, que pergunta sempre; montões de cartas para responder, de assuntos para estudar, de casos para referir; pessoas que vêm pedir a citação especial e o reclamo das suas pessoas; outras que trazem reclamações e queixas e lamúrias; e os despeitados, e os descontentes, e os insatisfeitos, e os que querem justiça para os outros e benevolência para eles; e o tipógrafo que apresenta as provas e quer a revisão depressa, e as ‘maquettes’, e mais original para as diversas secções; e, com tudo isto, as horas a passarem, os dias a correrem, e a engrenagem continuamente emperrada com tantos obstáculos, com tamanhos empecilhos”.

      Fica-se com uma ideia do que, na verdade era a redacção de um jornal, “uma formidável oficina do espírito, onde em lugar de se cansar o braço se queima o cérebro, onde em vez de se esgotar o músculo se liquidam os nervos, onde em vez de se destruir a fibra se inutiliza todo o organismo a-pouco-e-pouco”.

      Para quê este sacrifício? É que, no fim, “o jornal segue e o jornal sai; e o leitor, muitas vezes entre dois bocejos e dois gestos de desacordo, olha-o, corre-o de alto a baixo, passa-lhe a vista por cima e murmura com desfastio: Isto hoje vem muito pobre, sem qualquer coisa de interessante…”

      Era assim no Montijo, em 1942, e é assim em Macau, em 2022. Há já 200 anos, na verdade, a idade que o primeiro dos jornais de Macau (e o primeiro jornal moderno da China) completou no passado dia 12. É um legado de que os portugueses se podem orgulhar.

      A tipografia foi trazida da Europa para Macau ainda no século XVI. Devido à proibição da publicação de jornais nos territórios portugueses em África e no Oriente, foi preciso esperar pela Revolução Liberal de 1820, com esses ecos a alcançarem Macau só dois anos depois, com o aparecimento de “A Abelha da China”.

      Uma década mais tarde, em 1833, outro marco importante: surge “Za Wen Pian”, o primeiro jornal em chinês de tipografia moderna, tanto em Macau com em toda a China. Foi fundado por Robert Morrison, o primeiro pastor protestante a entrar na China, e a quem se deve a primeira edição completa da Bíblia em chinês.

      Além de missionários, passaram por Macau reformadores que mudaram a China e que aproveitaram, no território, o ambiente de relativa liberdade (comparando com o continente chinês), e, principalmente, esse grande instrumento de difusão de ideias que era a imprensa.

      Como nota o historiador Wu Zhiliang, diversos intelectuais chineses “estiveram em Macau a apreender ideias ocidentais e exercer actividades de imprensa com vista a promover o pensamento reformador, impulsionando assim a modernização da velha China”. Foi o caso de Lin Zexu, Kang Youwei, Liang Qichao, Kang Guangren, Zheng Guanyin ou Sun Yat-sen, o “pai” da república chinesa, que assinou diversos artigos no jornal “Echo Macaense” (1893), o primeiro jornal bilingue de Macau (português e chinês).

      É inquestionável o papel de Macau na transformação da “velha China”, também através da imprensa. Todavia, hoje, com as draconianas leis de segurança nacional, supõe-se que todas estas actividades recairiam no âmbito das terríveis “influências” e “interferências externas”.

      Nestes duzentos anos que passaram desde a publicação do primeiro número de “A Abelha da China”, Macau tornou-se diferente por causa dessas páginas e de todas as que se seguiram. Aos poucos, a cidade foi entrando nas colunas de texto que se foram formando, e no dia seguinte ela era já outra, porque se via reflectida como que num espelho, ainda que, por vezes, a sua imagem fosse distorcida. Mas essa consciência de si, mesmo que deformada, nunca deixa de ter impacto e importância; nunca perde a referência e o sentido de ser, vital para qualquer organismo, como também é a cidade.

      Duzentos anos depois, ainda sobram perguntas por responder acerca da “A Abelha da China” e da história que inaugurou, até sobre os seus protagonistas e fundadores. Como o brasileiro, da Baía, Paulino da Silva Barbosa, uma figura algo obscurecida pelo desinteresse da historiografia, ao qual nem próprio jornal foi imune. Na obra “Ephemerides commemorativas da Historia de Macau e das relações da China com os povos christãos” (1868), por exemplo, A. Marques Pereira nada diz sobre o nascimento do primeiro jornal de Macau, mas reserva uma entrada para o dia em que surge o primeiro jornal da colónia britânica de Hong Kong.

      Poderá ter sido um típico caso de quando a história é escrita pelos vencedores, coisa que os redactores de “A Abelha da China” não foram, mas só em certo (e estrito, limitado pelo tempo) sentido, porque o seu exemplo ficou muito para lá do seu último dia de publicação. Ainda aqui estamos.