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      Britânicos em Macau lamentam morte da Rainha Isabel II  

      Em conversa com o PONTO FINAL, três personalidades da comunidade britânica radicada no território consideram ser “uma perda irreparável”. Eileen Stow, recentemente agraciada com a Ordem do Império Britânico, fala em “humilde monarca” e “a melhor diplomata da História”. Já o cônsul honorário britânico e também professor universitário Glenn McCartney considera difícil encontrar palavras para descrever o que sente. A empresária Suzanne Watkinson tem “orgulho na incrível folha de serviço” da rainha ao longo dos anos. O Governo de Macau também lamentou o falecimento da rainha, destacando a sua dedicação “pelo povo do Reino Unido”.

       

      A Rainha Isabel II do Reino Unido morreu, na passada quinta-feira, aos 96 anos no Castelo de Balmoral, na Escócia. As redes sociais da família real deram conta do falecimento. “A rainha morreu pacificamente em Balmoral esta tarde [tarde de quinta-feira passada]. O Rei e a Rainha Consorte permanecerão em Balmoral esta noite e voltarão a Londres amanhã [sexta-feira]”, acrescentou a mensagem, numa referência a Carlos e Camila.

      Em Macau, o Chefe do Executivo lamentou também o falecimento da rainha. “A Rainha Isabel II, muito respeita e amada pelo povo do Reino Unido, dedicou toda a sua vida ao seu país e ao seu povo. Em representação do Governo da RAEM, e em seu nome, o Chefe do Executivo manifesta a sua profunda consternação pela morte da Rainha Isabel II e expressa as mais sinceras condolências ao Rei do Reino Unido, Carlos III, e à família real e ao povo do Reino Unido”, pode ler-se num comunicado do Executivo.

      Na RAEM, personalidades da comunidade britânica radicada no território afirmaram o seu lamento pela morte da monarca. Eileen Stow, proprietária da pastelaria Lord Stow’s, confessou-se “um pouco desorientada” com a notícia da morte da monarca inglesa. “Claro que iria acontecer, até devido aos seus 96 anos, mas esperamos sempre que não aconteça”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

      A britânica, que recebeu em 2021 das mãos do então Príncipe Carlos – agora Rei Carlos III – a Ordem do Império Britânico, considera que agora “começará uma nova era”, mas, ao mesmo tempo, assume que “não há ninguém que a substitua”. “É simplesmente a melhor diplomata da História. Era uma pessoa muito querida, não só para os britânicos, mas muitas outras pessoas. Repare que vários amigos portugueses e chineses já me deram as condolências pelo seu desaparecimento”, notou Eileen Stow, que deseja agora que o filho Carlos a “surpreenda da melhor forma possível”. “Não é nada fácil substituir a figura querida e humilde da mãe, que esteve no trono durante 70 anos. Carlos passou por algumas coisas que o tornaram pouco popular. Deverá, certamente, passar por um desafio em breve que será o dossier da independência da Escócia. Bom, acho que todos devem dar-lhe uma oportunidade.”

      O actual cônsul honorário britânico em Macau mostrou-se “chocado” com a morte de Isabel II. Glenn McCartney cresceu e viveu a sua vida sempre com a monarca a reinar. “É uma tristeza enorme. Neste momento, é muito difícil encontrar palavras para descrever o que sinto”, desabafou.

      O também professor da Universidade de Macau, agraciado pela própria Isabel II em 2016 igualmente com a Ordem do Império Britânico, considera o desaparecimento da monarca “uma grande e sentida perda”, evitando, ainda, falar sobre o futuro com Carlos III sentado no trono britânico. “Agora estou mais preocupado em pensar na rainha. Certamente haverá tempo para pensar no futuro e nos desafios que se apresentam. O momento, hoje, é de grande reflexão”, considera, referindo que durante a próxima semana estará disponível, para quem quiser assinar, um livro de condolências na Capela Morrison, a capela protestante situada dentro do Cemitério Protestante, ao lado da Casa Garden.

      Suzanne Watkinson considera que, aos 96 anos, com uma saúde frágil, “a sua morte não foi inesperada”. “O que sucedeu, certamente, e pelo menos em mim, foi uma profunda sensação de perda”, considerou.

      A  directora-executiva da Ambiente Properties lembrou até a própria mãe, que tem 90 anos e está actualmente a viver em Macau. “Ela e eu assistimos ao noticiário da BBC às 4h da manhã, e sentimos uma mistura de tristeza e orgulho na incrível folha de serviço da rainha ao longo dos anos”.

      Para Suzanne, como muitos britânicos, a rainha foi o único Chefe de Estado do Reino Unido que conheceram a vida inteira e aponta Isabel II como um exemplo a seguir. “Apesar do desafio dentro da própria família ao longo dos anos – os dramas de divórcio dos seus filhos, a morte da Princesa Diana, a perda de parte de seu Castelo de Windsor, descrito por ela como seu ‘annus horribilis’, a perda de seu marido durante os tempos difíceis da Covid-19 – Sua Majestade continuou a ser uma presença constante e reconfortante quando tanta coisa ao redor estava a mudar constantemente”, afirmou a mulher, que acrescentou que Isabel II “foi uma fonte de orgulho em todo o Reino Unido e da Commonwealth, tendo sido imensamente respeitada, como um ícone positivo”.

      O futuro está aí. Suzanne acredita que Isabel II “será lembrada pela dignidade e graça, pelo amor pela família, pelo amor por Corgis e corridas de cavalos, pelo seu sentido de humor, pelas roupas coloridas e chapéus a combinar, e, acima de tudo, pelos 70 anos de dedicação e compromisso o país”.

      A mulher acredita que Carlos III está preparado para suceder à mãe. “Deve ser o rei em espera há mais tempo [risos]. Se não estiver preparado agora, aos 73 anos, nunca mais vai estar. O que penso é que se ele conseguir ter o charme e carisma da mãe, será fácil, mas se for um rei apagado, as coisas podem não correr tão bem”, vaticinou, desejando-lhe “as maiores felicidades”.

       

      A IMPORTÂNCIA DOS BRITÂNICOS EM MACAU

       

      A comunidade britânica sempre esteve presente em Macau, com bastante influência até à fundação de Hong Kong. O jornalista João Guedes explicou ao nosso jornal que os ingleses, em pleno século XIX, “só não tinham influência ao nível da governação e em questões militares, mas dominavam todo o comércio e, em geral, a actividade económica”. “Manteve uma boa relação com a comunidade chinesa com quem fazia negócio. Repare que as comunidades viviam cada uma na sua ‘ilha’ um pouco à semelhança do que ainda acontece nos dias de hoje”, notou.

      A comunidade inglesa dominava o tráfico do ópio nesta região e permaneceu em Macau até 1841, altura em que os britânicos ocuparam Hong Kong. “Depois da debandada da comunidade britânica, Macau esteve a dois passos de desaparecer e foi durando com muita dificuldade até 1849, quando Ferreira do Amaral chegou ao território”, observou João Guedes.

      Depois, mais tarde, já em pleno século XX e sob o reinado de Isabel II, os britânicos voltaram a Macau muito por culpa da II Guerra Mundial e da ocupação japonesa de Hong Kong. “Ninguém assume isso, mas o Governo português até fez uma artimanha nos registos para equiparar os ingleses aos portugueses durante o período da guerra, para que pudessem se refugiar em Macau sem problemas de maior”, revelou.

      João Guedes aproveitou a conversa com o nosso jornal para também lamentar o desaparecimento da monarca. “Acho que, desta vez, é mesmo o fim de uma era. Isabel II esteve demasiado tempo no poder para que alguém a possa considerar irrelevante para a História mundial. Marcou Inglaterra, mas também marcou o mundo”, considerou o jornalista que não vê o papel de Carlos III fácil. “Com a morte de Isabel pode acontecer algo, em breve, ao Reino Unido. Carlos não é, nem de longe nem de perto, a mãe dele. Não tem esse carisma, essa popularidade. Por todas as razões e mais algumas, na minha óptica, ele deveria ter renunciado ao torno, beneficiando o filho William”.

      Para além de Eileen Stow e Glenn McCartney, também James Mirrless, prémio Nobel da Economia em 1996 e antigo professor da Universidade de Macau, bem como o magnata do jogo Stanley Ho, foram agraciados pela coroa britânica.

       

      ÚLTIMOS ANOS DE GRANDE FRAGILIDADE

       

      Recorde-se que Isabel II encontrava-se em estado debilitado há algum tempo, tanto que os sinais do declínio da saúde eram evidentes, desde o uso regular de bengala ou de um carro de golfe numa visita ao festival de jardinagem Chelsea Flower Show, em Maio, ao pedido ao filho Carlos e neto William para conduzirem em nome dela a abertura oficial do Parlamento, também em Maio.

      A rainha voltou a aparecer publicamente no início de Junho, durante as celebrações do Jubileu de Diamante, e no final do mesmo mês, quando tomou parte na Cerimónia das Chaves no Palácio de Holyroodhouse, em Edimburgo, quando iniciou as tradicionais férias de Verão na Escócia.

      No início da semana passada, o Palácio de Buckingham invocou “problemas de mobilidade” para determinar que as audiências na terça-feira com o primeiro ministro cessante Boris Johnson e a sucessora, Liz Truss, tivessem lugar em Balmoral, a cerca de 800 quilómetros.

      Em fotografias tornadas públicas, a rainha aparece sorridente, apoiada numa bengala, a cumprimentar Truss, a 15.ª chefe de governo em 70 anos de reinado, mas com a sua mão a revelar um tom arroxeado preocupante.

      A rainha chegou a pernoitar num hospital em Londres há quase um ano para testes não especificados, mas manteve-se sempre activa, mesmo quando padeceu de Covid-19 em Fevereiro deste ano. Nos últimos 20 anos, sabe-se que Isabel II fez uma operação ao joelho em 2003, foi hospitalizada devido a uma gastroenterite em 2013 e foi operada a cataratas num dos olhos em 2018.

       

      PONTO FINAL