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      Imigração chinesa no Brasil completa 210 anos. Primeiros saíram de Macau  

      Cerca de 400 chineses, oriundos de Macau, desembarcaram no Rio de Janeiro em 1812. O propósito era o de plantarem chá-verde na então colónia portuguesa. Já depois da independência, a mão-de-obra chinesa era vista no Brasil como uma transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre, considera o historiador Silvio Cezar de Souza Lima, em trabalho académico.

       

      Numa altura em que se comemoram os 200 anos da independência do Brasil, também se completam 210 anos de imigração chinesa no Brasil. Em 1812, quando o Brasil ainda era uma colónia portuguesa, o navio Vulcano, oriundo de Macau, desembarcou no Rio de Janeiro com cerca de 400 chineses plantadores de chá-verde, recordou a efeméride, esta semana, a edição portuguesa online do Diário do Povo.

      Contudo, ao contrário do que sucedera anos depois, em 1874, nos Açores com as plantações de chá Gorreana – actualmente a única plantação de chá na Europa –, o cultivo do chá-verde no Brasil, planeado por D. João VI para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, foi um fracasso. Ainda assim, a mão-de-obra chinesa não era de descartar, pelo que a ida de trabalho braçal chinês para as lavouras brasileiras foi bem-vinda.

      Anos depois de decretada a independência do país, em 1870, o Governo imperial emitiu um decreto que garantia, por 10 anos, a ida de milhares de chineses para o Brasil, num esquema estimulado, não só pelas autoridades, como pela elite agrária durante quase todo o século XIX.

      Citando o historiador Silvio Cezar de Souza Lima, o Diário do Povo escreve que o académico brasileiro, especialista em História do Brasil Imperial, considera “que a mão-de-obra chinesa era vista no Brasil como uma transição entre o trabalho escravo e o livre, que seria depois substituído, gradualmente, pelo trabalhador vindo da Europa”. Talvez por isso, sugere ainda o académico da Fundação Oswaldo Cruz, “tanto abolicionistas como conservadores opuseram-se ao decreto de 1870”.

      Vinte anos depois, em 1890, o Brasil aboliu a escravatura, o que restringiu, significativamente, a ida de migrantes oriundos de África e da Ásia. A decisão foi, no entanto, revertida em 1892, mas o especialista da Fundação Oswaldo Cruz defende que “é de extrema relevância o facto de o Estado iniciar uma política que dificultava a imigração de não-brancos (negros e asiáticos, principalmente), enquanto incentivava a imigração de europeus”. Pelo meio, em 1882, o Brasil criou a Companhia de Comércio e Imigração Chinesa.

      Dados estatísticos da altura mostram que, ao longo de todo o século XIX, cerca de três mil chineses chegaram ao Brasil, um número considerado, no entanto, significativamente menor que a presença chinesa noutros países da América do Sul. Territórios como o Peru ou Cuba receberam muitos nacionais chineses, especialmente, no período entre 1849 e 1876.

       

      DUAS GERAÇÕES, O MESMO SENTIMENTO

       

      Durante o século XX, com a guerra civil na China, primeiro, e com a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial, depois, milhares de chineses escolheram o Brasil como porto de abrigo, principalmente no período compreendido entre 1930 e 1970. “Mudávamos muito de região, por causa da guerra civil. Não consegui estudar lá”, contou Rubens Chang Chung Lin à Folha de São Paulo em 2020.

      Rubens, que veio para o Brasil em 1950, aos oito anos de idade, contou ao maior jornal da América do Sul que o seu pai, sem conhecer chineses no Brasil, pretendia instalar uma fábrica de papel no país. A família passou pelo Paraná e Paraíba antes de se estabelecer definitivamente em São Paulo, hoje o maior centro de imigrantes chineses no Brasil.

      Dados actuais estimam que cerca de 130 mil chineses e descendentes moram em São Paulo, de um total de cerca de 200 mil em todo o país. “Quando decidimos vir, a minha família comprou muitos livros sobre o Brasil. Mas eram livros de viagens e, quando chegámos ao Paraná, não tinha nada a ver”, confidenciou. “Mas tenho excelentes memórias da minha infância no Brasil”, assume, acrescentando que, após 70 anos, sente-se “mais brasileiro do que chinês”.

      Por seu turno, Paloma Luo, filha de pais chineses que emigraram na década de 1990, contou, recentemente, ao Diário de Penambuco que o seu sentimento é o mesmo de Rubens, apesar da grande diferença de idades. Contudo, a jovem não se encaixa 100% no Brasil nem 100% na China, um problema que afecta muitos migrantes. “Sinto-me mais brasileira”, assumiu a mulher, que fala e escreve tanto em chinês como em português. “Não me encaixo totalmente na cultura brasileira, mas também não me encaixo na cultura chinesa. Tenho as duas culturas incorporadas, de forma híbrida”, revelou ao Diário de Penambuco, declarações que agora o chinês Diário do Povo cita.

      No passado dia 15 de Agosto foi comemorado o Dia Nacional da Imigração Chinesa, que passou a ser comemorado pela diáspora chinesa desde 2018. A efeméride começou a ser celebrada para pontuar a chegada de 107 migrantes chineses a São Paulo, a maior cidade do Brasil. As autoridades do Governo Federal, liderado, na altura, por Michel Temer, consideraram que a comunidade tem tido “uma contribuição inestimável para a cultura, economia e desenvolvimento do país”.

       

      PONTO FINAL