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      InícioOpiniãoUma visita sem incidentes

      Uma visita sem incidentes

      O catálogo das imagens marcantes de Macau nas últimas décadas da administração portuguesa não fica completo sem o aparato que se montava de cada vez que o território era visitado por um alto dignitário, sobretudo quando ocupante do Palácio de Belém. Eram ocasiões de gala e a cidade vestia-se a propósito.

      Mário Soares foi talvez o único que pareceu sentir-se em casa. Numa terra onde a larguíssima maioria da população não sabia sequer apontar quem era o governador, o socialista bonacheirão teve direito a arruadas de todo o tipo, não apenas aquelas que eram movidas exclusivamente pela curiosidade.

      Mas ao contrário do que esses tempos podem sugerir, Macau nem sempre foi um ponto obrigatório na agenda de chefes de estado e governantes portugueses. O afastamento relativamente ao poder central, tanto geográfico e físico, como também simbólico, foi uma marca de Macau enquanto estabelecimento português, desde os seus primórdios. Longe da vista significava, também, longe do coração, algo que a máquina propagandística do Estado Novo procurou contrariar, colocando as colónias no centro da sua acção política e comunicativa.

      No que a Macau diz respeito, o ponto alto desse programa foi a visita, entre 18 de Junho e 1 Julho de 1952, do ministro do Ultramar, Manuel Sarmento Rodrigues. Foi a primeira vez que um representante do poder executivo português se deslocou a Macau, proporcionando “horas inesquecíveis de intensa fé patriótica, originando uma onda de vibração, individual e colectiva, poucas vezes registada nesta parcela de Portugal”.

      A extasiada prosa abre um extenso volume (“Visita do Ministro do Ultramar a Macau em Junho de 1952”, Repartição Central dos Serviços Económicos, Secção de Propaganda, Publicidade e Turismo – mais de trezentas páginas) publicado em Macau para assinalar a visita. Não era para admirar. O entusiasmado tom tinha sido afinado ainda em Portugal, onde a antecipação do périplo de Sarmento Rodrigues pelas “províncias do Oriente” seguiu em crescendo.

      Em Março de 1952, no Boletim Geral do Ultramar, dava-se conta dos preparativos da viagem e assinalava-se o “largo alcance político, particularmente de valor no período de agitação nacionalista em diversas paragens, e a que o Mundo assiste preocupado”.

      Na verdade, a situação era particularmente grave quando analisada a partir de Lisboa e dos gabinetes do Estado Novo. Como resumia Redondo Júnior, um dos jornalistas que acompanhou a deslocação de Sarmento Rodrigues e escreveu um livro sobre a experiência (“Tai Hei”, 1952), “não podia ser-me indiferente o problema transcendente com que se debate o mundo asiático e, ao partir de Lisboa, estava bem presente no meu espírito a situação da Índia portuguesa, incrustada numa União Indiana que expulsara, não havia muito, os ingleses do Triângulo Industânico; de Timor, em íntimo contacto com uma indonésia de recente independência; e de Macau, com um cordão umbilical ligado à grande China, convulsionada pela revolução de Mao Tse-tung”.

      A censura que limitava os horizontes portugueses não deixava entrever mais do que o óbvio (às vezes, nem isso), e, assim, não se fazia uma generalizada ideia do que, na realidade, poderia significar para Macau a China estar “convulsionada pela revolução” maoista.

      No território, o ano de 1952 ficara marcado, logo desde o seu início, por incidentes fronteiriços que tinham como pano de fundo o reforço do embargo comercial contra os regimes comunistas – a República Popular da China e seus maiores aliados, a Coreia do Norte e o Vietname do Norte. Crescia, ao mesmo tempo, a pressão sobre Portugal e Macau devido a denúncias de violações ao embargo contra Pequim.

      Nos relatórios secretos que produziam (citados pelo investigador Moisés Silva Fernandes em “Os Incidentes das Portas do Cerco de 1952”, de 2005), as autoridades norte-americanas registavam como eram “evidentes as declarações evasivas e, por vezes, deliberadamente falsas do governador e das pessoas que lhe eram próximas, agindo com má-fé na tentativa de esconder o facto de Macau comercializar materiais estratégicos com os comunistas chineses”.

      Depois da proibição oficial do comércio do ópio, em 1945/46, a concessão do ouro tornara-se o principal monopólio do território, sendo controlado pela chamada elite sino-macaense formada por Pedro José Lobo, director da Repartição Central dos Serviços Económicos (com o poder de atribuir licenças de importação), e os empresários Ho Yin e Y. C. Liang.

      Entre as primeiras medidas da administração portuguesa de Macau liderada por Joaquim Marques Esparteiro, que assumiu funções em Novembro de 1951, esteve o aumento da taxa de importação do ouro e o reforço da fiscalização dessa actividade, através de um diploma legislativo que determinava a criação de uma Comissão Coordenadora do Comércio que fosse independente da tal elite local. A medida não foi bem recebida na China, onde se entendia que Portugal estava a seguir uma orientação política ditada pelos norte-americanos.

      Moisés Silva Fernandes destaca dois sinais do descontentamento chinês: o primeiro foi uma reunião, em Guangzhou, sobre Macau, na qual se defenderam atitudes hostis contra a administração portuguesa; o segundo foi a detenção de Álvaro Salgado, chefe dos serviços de informações do comando da guarnição militar, por parte do Exército de Libertação Popular, sob o pretexto de que a embarcação em que seguia se tinha aproximado da ilha de D. João, entre Macau e Coloane.

      Sem que nada mudasse relativamente à nova legislação comercial, sucederam-se conflitos na fronteira das Portas do Cerco, com sentinelas chinesas a abrirem fogo sobre embarcações de pesca acusadas de violar águas territoriais chinesas.

      Para as autoridades portuguesas, não passavam de provocações, que se verificaram inclusivamente durante a visita de Sarmento Rodrigues e continuaram depois da partida do ministro do Ultramar. Com efeito, os piores confrontos (3 mortos; um do lado português – um soldado moçambicano –, e dois do lado chinês) registaram-se nos últimos dias de Julho de 1952, criando o pânico entre a população e até o refúgio de muitos em Hong Kong.

      No entanto, na comemoração oficial da visita de Sarmento Rodrigues a Macau não constou qualquer incidente de maior. Contrariedades, apenas “uma notícia rádio-telegráfica [que] preocupou a população de Macau”, lê-se no já referido volume sobre a visita. Era um tufão que “pairava precisamente na rota que o ‘Gonçalo Velho’ devia seguir, motivo porque o navio de guerra português aportou a Manila e depois de deixar aquele porto filipino fundeou no Golfo de Lingayen ao largo da Ilha de Luzon. Na manhã seguinte o ‘Gonçalo Velho’ navegava a caminho de Macau”. Por causa do tufão, o ministro português chegou com quatro dias de atraso. Em quatro séculos, não era nada.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista