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      Uma estratégia para a cooperação

      Quem por África passou, ou tem seguido a imprensa internacional nos últimos anos, sabe o destaque que um país em particular tem tido no desenvolvimento do continente: a dimensão dos investimentos chineses, as características dos seus empréstimos e a dureza das suas negociações têm feito manchete do Cairo ao Cabo, e para lá do Mediterrâneo.

      Por isso mesmo nos merece a maior atenção a política de cooperação, investimento e desenvolvimento que o Japão tem prosseguido no continente africano. Tóquio tem intensificado os seus esforços nas parcerias com países africanos, procurando conter (e competir com) a influência da China, focando-se nas áreas onde tem uma vantagem competitiva, como as energias renováveis, face ao domínio chinês no financiamento e construção de infraestruturas.

      O Japão fornece cerca de 80% das turbinas geotérmicas a nível global, e a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), financia 17% da capacidade geotérmica mundial, incluindo em África e na América Latina. Graças aos empréstimos a juros baixos e a longo prazo da JICA, e à tecnologia japonesa que o arquipélago exporta, países como o Quénia estão na vanguarda da produção de energia geotérmica em África.

      Na sétima Ticad (Conferência Internacional de Tóquio para o Desenvolvimento Africano), realizada em Yokohama em 2019, Shinzo Abe anunciou um impulso ao investimento do setor privado japonês em África em 20 mil MUSD, almejando tornar-se um parceiro de desenvolvimento sólido e alternativo. A Ticad 2022, na Tunísia, em agosto, fará o ponto de situação desta estratégia. A este investimento privado, o Japão alia financiamento, empréstimos e subvenções favoráveis.

      Se a escala e termos dos empréstimos chineses têm suscitado acusações de serem “debt-traps” – ações benéficas apenas na aparência, mas que condenam os beneficiários a enormes sacrifícios para conseguirem reembolsar as dívidas crescentes – a estratégica japonesa nos países em desenvolvimento é mais rigorosa e cautelosa, e os termos frequentemente mais favoráveis, com taxas de juro mais reduzidas, pagas a longo prazo, e com períodos de carência alargados.

      Faríamos bem em estudar esta estratégia no nosso próprio diálogo com África. Com o lançamento do Global Gateway, estratégia europeia de investimento que fará face à Nova Rota da Seda chinesa, podemos tirar lições do sucesso japonês em penetrar certos mercados que a China não consegue alcançar – onde temos vantagens competitivas e onde nos podemos especializar. Se a construção e o financiamento massivo estão já saturados por empresas e corporações estatais chinesas, as energias renováveis, a tecnologia verde e azul, as parcerias nos oceanos, a produção agrícola e outros setores onde a Europa tem a primazia (e Portugal cada vez mais relevância) podem e devem ser essenciais nas relações entre os dois continentes. E da mesma forma que os nipónicos usam a sua experiência asiática no apoio ao desenvolvimento em África, também nós podemos usar o nosso know-how em África e na América do Sul para chegarmos à Ásia. O espaço para investimento europeu é vasto e os retornos significativos.

       

      Vítor Sereno

      Diplomata

      Texto originalmente publicado no Diário As Beiras