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      Associação alerta para a saúde mental dos funcionários dos lares em circuito fechado

      As orientações para a gestão de circuito fechado nos lares de idosos devem ser transparentes e a sua implementação deve ser sujeita a fiscalização, permitindo a deslocação do pessoal entre o local de trabalho e de alojamento para garantir o descanso dos funcionários da linha da frente. Este é o pedido principal apresentado às autoridades pelo Sindicato dos Assistentes Sociais de Macau relativamente ao bem-estar dos cuidadores que estão a trabalhar em circuito fechado em instalações de serviços sociais há mais de três semanas.

      Após o insucesso em obter uma resposta oficial do Instituto de Acção Social (IAS) à carta enviada pela associação no final do mês passado, o Sindicato dos Assistentes Sociais (MSWU, na sigla inglês) realizou uma conferência de imprensa ontem para chamar a atenção pública da situação dos funcionários nos lares em questão.

      O circuito fechado não tem data prevista para terminar, havendo uma carência de espaço adequado para descanso e com trabalho sobrecarregado, o que resultou já num impacto negativo para a saúde física e psicológica do pessoal da linha da frente, alertou a presidente da associação, Wong Mei Ian. A responsável reiterou que não se estão a opor ao circuito fechado, mas sim preocupados com o facto de os colegas não terem apoio suficiente e tratamento adequado e justo.

      “O problema é novamente terem as condições de descanso devidas, por exemplo, espaço separado do local de trabalho, garantia de privacidade e respeito do espaço individual. Os colegas também têm de cuidar da sua saúde física e mental, para poderem cuidar dos utentes de lares”, salientou a presidente, prosseguindo que “o IAS tem a responsabilidade de prestar apoio aos funcionários que estão a servir nas instalações nesta altura difícil”.

      De acordo com a MSWU, apesar de o IAS ter estipulado “as orientações para a gestão em circuito fechado nas instalações e alojamento de serviços sociais em resposta de emergência para a situação epidémica da Covid-19 em grande escala”, nem todos os assistentes sociais e outros funcionários nos lares têm conhecimento e foram informados sobre os seus direitos.

      Segundo a informação da associação, as orientações estabelecem que o pessoal pode pernoitar em local designado fora dos lares, mas tem de ser transportado por veículos fixos entre os dois locais. Contudo, Wong Mei Ian destacou que não tem recebido relatos de colegas sobre qualquer avanço na implementação dessa medida de “dois locais”, considerando que, mesmo que a referida política não seja perfeita, pelo menos pode proporcionar um local de descanso fora do local de trabalho, o que é “extremamente importante” para aliviar o cansaço dos profissionais.

      Entretanto, a MSWU espera que as autoridades possam considerar e avançar a implementação o mais rápido possível do mecanismo de trabalho por turnos no circuito fechado. “O sector médico também está a cumprir o circuito fechado por turnos, dividido em duas ou mais equipas, entrando na gestão de circuito fechado por um período, e depois podem sair e regressar a casa depois de fazer uma quarentena. O sector de acção social não pode fazer isso porquê? Só pode sair quando atingir o objectivo de zero casos? Porque têm de sacrificar totalmente a necessidade de se reunirem com a família?”, questionou.

       

      SEM CONSIDERAÇÃO DAS NECESSIDADES DO PESSOAL

      Na ocasião, duas assistentes sociais da linha da frente foram convidadas pela associação para prestar testemunhas da situação nos lares. Nos relatos, as duas profissionais, que não quiseram ser identificadas, queixaram-se que a implementação do circuito fechado foi demasiado precipitada e confusa. “Parece que quando o Governo estipulou as medidas e tomou a decisão não teve nenhuma consideração sobre a necessidade dos funcionários no circuito fechado”.

      “Tudo foi muito de repente”, começou por dizer a primeira assistente social. “No início não tínhamos um espaço apropriado para dormir, usámos as salas de actividades e quartos vazios, dormimos em cima de papelões. O IAS não preparou nada para nós. Posteriormente, após algumas queixas, o IAS e os lares forneceram alguns colchões, mas são muito sujos, muitos colegas têm problemas na pele ou alergias”.

      Na mesma linha, o local de descanso era o espaço público dos lares, pelo que os utentes poderiam ter de ocupar estes espaços quando o pessoal da linha da frente lá estivesse a descansar. A cuidadora realçou que alguns utentes portadores de demência podem não conseguir controlar o seu comportamento e emoção, batendo à porta e gritando, o que também afectou o descanso do pessoal.

      “Também temos a nossa família, já passaram 18 dias. No espaço de descanso posso ouvir todas as noites os colegas a chorar, há colegas que precisam de pedir medicamentos que ajudam o sono”, referiu a assistente social, confessando ainda que alguns utentes idosos estão igualmente a sofrer depressão. “Chegam perto de nós e choram por duas horas a questionar porque é que a família não pode vir visitar, não acreditam que o Governo faça essa decisão dessa forma”.

      A outra assistente social criticou a entrada imediata no circuito fechado e aponta que as autoridades não tinham um plano bem contemplado para a medida. “Alguns colegas nem tiveram tempo para preparar os bens pessoais, sem roupa interior para trocar. Nem estávamos mentalmente preparados, apenas ficámos muito tristes”, frisou.

      A jovem mostrou-se desesperada e duvidosa em relação à organização do Governo ao ver que as medidas lançadas na sociedade não estão a ser acompanhadas em termos de empenho com o que está a ser feito no circuito fechado nos lares. Além disso, a profissional sentiu-se revoltada com algumas declarações das autoridades. “O Governo disse que os nossos colegas estão com muita vontade e vão ficar nos lares, mas esta não é a nossa voz. Ninguém perguntou a nossa opinião e o nosso sentimento”, disse.

      Enfatizando que alguns cuidadores tinham expressado o desejo de regressar a casa para reunir com a família, o que não está relacionado com o seu profissionalismo, mas sim com a necessidade pessoal como um ser humano, as duas assistentes sociais exortam o Governo a enfrentar os problemas levantados pela gestão de circuito fechado, prestar mais apoios psicológicos e responder activamente e com empatia aos pedidos dos trabalhadores da linha da frente.

      Por outro lado, a MSWU denunciou que, conforme as orientações do IAS, o circuito fechado não é absolutamente obrigatório para todos os cuidadores das instalações de serviços sociais uma vez que está prevista uma lista para informar o IAS sobre os profissionais que não conseguem ou recusam o circuito fechado. Quanto a esta matéria, a maioria do pessoal não foi informado do seu interesse e direito de escolha.