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      Residentes desesperados e em altos níveis de stress, tentam sair de Macau o mais rápido possível

      Para visitar a família e amigos três anos depois ou simplesmente para voltarem definitivamente para os seus países de origem, diversos residentes de Macau estão a adiantar ou a comprar viagens com receio que a pandemia lhes possa presentear com uma zona vermelha ou amarela ou, na pior das hipóteses, com um confinamento geral do território.

      São diversos os residentes de Macau que por estes dias têm envidado esforços para tentar adiantar a sua tão desejada viagem de regresso ao país que os viu nascer. Uns com a intenção de visitar a família e amigos, três anos depois. Outros porque decidiram que é hora de regressar definitivamente e agarrar outras oportunidades.

      Entre testes de ácido nucleico, malas de última hora e outras burocracias, quatro residentes acederam a conversar com o nosso jornal, mas o PONTO FINAL sabe de muitos mais casos, que não quiseram, nem sequer, dar o seu testemunho. Ao abrigo do anonimato, por temerem represálias, todos levantam dúvidas sobre a forma como as autoridades estão a combater a pandemia de Covid-19 no território, numa altura em que a taxa de vacinação é de cerca de 90% e com uma maioria de casos de infecção assintomática com variante Ómicron, altamente transmissível mas muito menos letal que as anteriores variantes do SARS-CoV-2.

      “Sentimo-nos totalmente à mercê de decisões totalmente aleatórias”, começou por dizer H., um professor universitário de nacionalidade francesa que encerra a ligação com Macau no final deste mês.

      O académico, que viveu diversos anos no território,defende que Macau “é o mais claro exemplo da diferença entre eficácia e eficiência”, e explica porquê. “O combate à pandemia em Macau é bastante eficaz, mas nada eficiente. Eficácia significa conseguir o resultado esperado, já eficiência significa conseguir o resultado esperado com o melhor aproveitamento possível. Se quero livrar-me de um insecto que está na minha cozinha, posso buscar ser eficaz e dinamitar a cozinha. Oinsecto morre, mas provavelmente a cozinha fica toda destruída. Agora, se puser um pouco de insecticida nos cantinhos, vou atingir a eficácia, pois o insecto vai morrer e vou poder continuar a usufruir deste cómodo da casa”, exemplificou o francês.

      O. é arquitecta. Há muito que ansiava uma ida a Portugal para “abraçar a família e ver os amigos”. “São três anos de muita saudade”, confessou, admitindo que se sente “mal” e “em perigo” no território, por esta altura. “É um misto de sensações. A ideia que dá é que quem governa não governa com sensatez. Fica sempre a sensação de que andamos a viver no exagero. Repare que, quase três anos depois, a forma de encarar a pandemia é a forma do desconhecido, do medo, do pavor”, notou.

      Para a portuguesa, que sublinha gostar muito de Macau, terra onde se sente bem a viver, o território “ainda não aprendeu a viver com o vírus”. “Pior, Macau continua a fugir do vírus ao contrário do resto do mundo. Penso que mais do que ficarmos doentes, começamos é a ficar altamente preocupados com o facto de que, de repente, podemos ficar completamente encerrados em casa, mesmo apresentando testes negativos atrás de testes negativos.”

      A mulher sugere mesmo que “até médica e cientificamente falando, a estratégia adoptada pelas autoridades da RAEM é muito duvidosa”. “Em Macau, não se morre de Covid-19, mas também não se vive”, desabafou.

      Quer sair de Macau para limpar a cabeça e visitar a família, mas vê-se de mãos atadas por diversas razões. L. é macaense e funcionária pública. Tem vivido em constante nervosismo e ansiedade nas últimas duas semanas. “Os voos estão caríssimos. Não há opções nas datas pretendidas. E nós estamos aqui em suspenso sem saber como será o dia seguinte. Posso acordar e, simplesmente, estou numa zona amarela ou vermelha”, afirmou ao nosso jornal.

      E, de repente, “tudo acaba”. “A escola dos meus filhos chega ao fim de um dia para o outro. Num dia estão todos lá, no outro estão a despedir-se num zoom de cinco minutos. Não há cerimónias de graduação e despedida. A minha filha estava no espectáculo do Macau Glee Club que era suposto ter acontecido no passado dia 26 de Junho. Esteve semanas a aprender e a treinar dança para um evento que nem se sabe se irá acontecer. Para já, foi suspenso”, referiu, confessando que sente uma grande desilusão pela tristeza dos próprios filhos.

      Em stress constante. É assim que a advogada K. tem vivido as últimas semanas em Macau. “Entre testes, massivos ou rápidos, conferências de imprensa, polícia na rua com altifalantes em punho a mandar as pessoas para casa ao abrigo de leis que não existem e uma vontade enorme de, ao fim de muito tempo, não perder os voos comprados, e bem caros, tudo tem sido um grande stress”, confidenciou.

      A causídica admitiu ao PONTO FINAL que a vida passou a ter “um misto de emoções que nos leva a pensar que o medo de contrair o vírus não é tão grande como o medo de ficar infectado em Macau. Todo o mundo inteiro já sabe que o vírus para as pessoas vacinadas não é mais do que uma constipação e que não é necessária tanta coisa. Se pode ser grave? Pode. Se pode ser atenuado com medidas como a vacinação obrigatória? Sim, pode. Segundo dados de hoje, dos mais de 500 infectados apenas 20% têm a vacinação completa – penso que isso é demonstrativo de alguma coisa”, concluiu.

      PONTO FINAL