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      InícioOpiniãoMacau em estado de sítio (parte III)

      Macau em estado de sítio (parte III)

      Na entrevista do governador Henrique Correia da Silva ao jornal “O Século”, fica clara a ideia de que os incidentes que ficariam conhecidos como “a greve de 1922” tinham sido mais do que uma mera questão de ordem pública interna, como o ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, fizera crer na Câmara dos Deputados.

      A sublinhar a gravidade do que o governador descrevia como uma insurreição organizada contra a soberania portuguesa estava a revelação, na entrevista, de que Correia da Silva participara em negociações com o governo de Cantão, liderado pelo Partido Nacionalista (“Kuomintang”).

      Conforme adiantava Correia da Silva, o comissário dos negócios estrangeiros do Partido Nacionalista apresentou um protesto formal pelos tumultos de Macau logo no dia 31 de Maio. O governador contestava o que entendia ser a “forma menos verdadeira” como os acontecimentos eram relatados, tendo respondido, a 3 de Junho, com um ofício que foi traduzido para inglês e chinês, e difundido em todo o Extremo-Oriente, dando conta dos “factos tal como se tinham passado”. Nesse documento, Correia da Silva defendia “a correcção e legítimo direito em que se tinham mantido as autoridades portuguesas”.

      A “greve de 1922” começava a encaixar-se na realidade que relacionava Macau, a China e as potências estrangeiras, um contexto de tensão, medições de força, esforços diplomáticos e, sobretudo, jogos de sombra que levavam, por exemplo, nacionalistas associarem-se aos comunistas.

      Em Maio de 1922, e nos meses seguintes, tudo isso esteve patente em Macau, tudo isso se manifestou – viu a luz do dia. Como aconteceu nos protestos contra as autoridades portuguesas, com “os pendões içados, que eram os distintivos das associações secretas”, narraria Correia da Silva, já na qualidade de ministro das Colónias, em 1925, na Câmara dos Deputados.

      Nessa sessão, do dia 4 de Junho, o ex-governador recordaria mais contornos do que acontecera há uns três anos, quando, afirma, “era perfeita a subversão da autoridade da colónia, era a anarquia”.

      Correia da Silva acrescentaria também como, em “consequência imediata do acto, deu-se o êxodo de 50.000 ou 60.000 chineses de Macau, deu-se a greve geral – a única de que tenho conhecimento que vingasse –, deu-se a paralisação completa da vida da colónia, e quando lá cheguei o aspecto da cidade era tudo quanto havia de mais triste” (o governador tinha sido “apanhado” em Hong Kong pelos tumultos que começaram a 28 de Maio; na então colónia britânica, Correia da Silva esperava uma ligação a Lisboa, onde sua mãe estava gravemente doente).

      “Quem conhece a risonha terra de Macau”, evocava o então ministro das Colónias na Câmara dos Deputados, “e via as suas ruas desertas, as casas fechadas, enfim o aspecto fúnebre, não podia deixar de se confranger”. O cenário era o que se poderia imaginar após uma situação inédita, em que, nas palavras de Correia da Silva, “a força fez fogo, matando muitos homens, ferindo outros”.

      O antigo governador assumia que “talvez tenha responsabilidade no prolongamento desse aspecto fúnebre, sobretudo se se comparar o procedimento que então tive com o procedimento que havia sido seguido, semanas antes, numa sublevação em Hong Kong”.

      Com efeito, noutro sinal de que o que viria a acontecer em Macau fazia parte de um plano mais vasto, em Hong Kong e Cantão, ainda em 1922, houve igualmente protestos de marinheiros exigindo melhores salários.

      “Nessa colónia [Hong Kong]”, recordava Correia da Silva, “arrastava-se, havia meses, uma greve de marítimos que prejudicava altamente o comércio da colónia, e degenerando essa greve numa greve geral contra os europeus”. Mas o governo britânico de Hong Kong, observava, “capitulou, submetendo-se às exigências feitas”.
      Para Correia da Silva, a Inglaterra podia dar-se a complacências, uma espécie de luxo, “porque é poderosíssima, e ainda porque em Hong Kong está enraizada a vida inglesa”. Nada mudaria, no fundo. “Porém, se nós transigíssemos, se aceitássemos a humilhação, perdia-se por completo o nosso prestígio na colónia, e, portanto, tinha-se de resistir”.

      Assim, defendia, havia um motivo forte para os sacrifícios que se seguiram aos tumultos de 1922. “A população portuguesa de Macau sujeitou-se, desde o mais alto até ao último, a todas as privações. Foram as donas das casas que fizeram os serviços dos criados, os soldados que se fizeram padeiros, mas não se capitulou, tendo-se os chineses convencido de que os portugueses, para serem donos de Macau, não precisavam dos seus trabalhos”.

      Mas mais do que estas achegas sobre o que se tinha desenrolado em Maio, Junho e meses seguintes de 1922, Correia da Silva fizera na Câmara dos Deputados uma verdadeira resenha histórica dos principais acontecimentos e questões que tinham conduzido Macau àquele momento. (continua)

      Hugo Pinto
      Jornalista