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      Morreu Paula Rego, pintora aclamada internacionalmente que chegou a ser madrinha da ARTFEM

      A pintora Paula Rego, uma das mais aclamadas e premiadas artistas portuguesas a nível internacional, morreu na manhã de ontem em Londres, aos 87 anos. Paula Rego foi, em 2018, madrinha da primeira Bienal Internacional de Mulheres Artistas de Macau (ARTFEM). Ao PONTO FINAL, Carlos Marreiros, mentor da ARTFEM, descreveu Paula Rego como “uma das maiores pintoras portuguesas contemporâneas; não só como mulher, mas entre todos”.

       

      Paula Rego, aclamada artista portuguesa a nível internacional, morreu na manhã de ontem, em Londres. Tinha 87 anos. De acordo com o galerista Rui Brito, a artista “morreu calmamente em casa, junto dos filhos”.

      Na exposição “Lusografia”, que é inaugurada hoje no hotel Artyzen Grand Lapa Macau, estará exposta uma obra de Paula Rego. Em 2018, Paula Rego chegou a ser a madrinha da primeira Bienal Internacional de Mulheres Artistas de Macau (ARTFEM).

      Carlos Marreiros, mentor da ARTFEM, lamentou a morte da artista portuguesa e, ao PONTO FINAL, descreveu-a como “uma das maiores pintoras portuguesas contemporâneas; não só como mulher, mas entre todos”. “Foi uma grande pintora que soube registar a beleza das inquietações – das dúvidas da vida – nas suas telas, gravuras e cerâmicas”, salientou.

      O arquitecto contou que, em 2018, encontrou-se com Paula Rego em Londres para a convidar a ser madrinha da ARTFEM. “Recebeu-me como se fosse um colega, ela que é mestre e eu aprendiz”, recordou, lembrando que, na altura, Paula Rego quis mesmo vir a Macau a propósito da bienal feminina. No entanto, o estado avançado da idade já não o permitiu. “Ficou esta imagem da Paula Rego debilitada fisicamente mas com uma grande alma. Ela sorri com os lábios e com os dentes. Com as mãos, desenha sonhos e inquietações no ar”, concluiu Carlos Marreiros

       

      A VIDA E A OBRA DE UMA DAS MAIS PREMIADAS ARTISTAS PORTUGUESAS

       

      A obra da pintora raras vezes deixa um espectador indiferente, apreciadores ou não da estética do seu trabalho, marcado pela realidade da condição feminina, pelas injustiças sociais e pela recusa da opressão em todas as suas formas.

      O valor internacional da sua obra evidenciou-se sobretudo em 2015 com a venda, num leilão, em Londres, da obra “The Cadet and his Sister” (1988), por 1,6 milhões de euros, tornando-se um novo recorde da artista portuguesa.

      A data da obra assinala um importante acontecimento na vida pessoal da pintora na década de 1980, pela morte do marido, o também artista Victor Willing (1928-1988), vítima de esclerose múltipla. Esse ano foi igualmente importante na carreira de Paula Rego, pois passou a ser representada pela galeria Marlborough Fine Art, em Londres, e distinguida com uma grande retrospectiva do seu trabalho pela Serpentine Gallery, na capital britânica.

      Em 2021, conseguiu tornar real um dos seus maiores sonhos como artista: expor no museu Tate Britain, em Londres, uma casa de exposições que sempre viu como um baluarte masculino. Ali apresentou uma exposição retrospectiva – com mais de 100 obras dos seus 60 anos de carreira – um feito simbólico que Paula Rego conquistou, já que sempre se tinha sentido discriminada por não poder ali levar a sua obra, sendo mulher e estrangeira.

      Acabou por ser a maior a mais completa exposição de Paula Rego no Reino Unido, incluindo, além da pintura, esculturas, colagens e desenhos, desde os anos 1950, até aos mais recentes, incluindo a série “Mulher Cão”, dos anos 1990, e “Aborto”, uma das que mais impacto político e social tiveram em Portugal, produzida durante a campanha pela despenalização do procedimento no país. O Presidente da República, Marcelo rebelo de Sousa, visitou a exposição, na altura, e considerou-a “única e irrepetível”.

      Já este ano, a sua obra foi alvo de outro reconhecimento por parte da curadoria-geral de um dos certames mais importantes de arte contemporânea do mundo: A Bienal de Arte de Veneza, com o tema “The Milk of Dreams”, que privilegiou o trabalho de artistas mulheres.

      Em 2020, o Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém, em Lisboa, assinalou o 85.º aniversário de Paula Rego com uma exposição de obras da pintora, com os trabalhos criados pela artista para o Palácio de Belém, a pedido do antigo Presidente da República Jorge Sampaio.

      Maria Paula Figueiroa Rego, nascida em Lisboa a 26 de Janeiro de 1935, numa família de tradição republicana e liberal, começou a desenhar ainda criança, um talento que lhe foi reconhecido pelos professores da St. Julian´s School, em Carcavelos, e partiu para a capital britânica com 17 anos, para estudar na Slade School of Fine Art.

      Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer pesquisa sobre contos infantis, em 1975, e em Londres viria a conhecer o futuro marido, o artista inglês Victor Willing, cuja obra Paula Rego exibiu por várias vezes na Casa das Histórias, em Cascais.

      A Casa das Histórias, que abriu em Cascais em 2009, num projecto do arquitecto Eduardo Souto de Moura, detém um acervo significativo de obras da autora, e tem vindo a apresentar exposições sobre o seu trabalho ou de outros, sobretudo portugueses, com quem tem afinidades.

      Na pintura de Paula Rego surgem diversas imagens típicas da infância, por vezes fetichistas e até traumáticas, relacionadas com a violência, e os animais são frequentemente os protagonistas da sua linguagem pictórica.

      Nas últimas décadas, a pintora abordou temas políticos, como o abuso de poder, e sociais, como o aborto – entre outros, do universo feminino, e o seu trabalho foi influenciado pelos contos populares, e também pela literatura, nomeadamente a escrita de Eça de Queirós, que a levou a pintar quadros inspirados em livros como “A Relíquia” e “O Primo Basílio”.

      Em 2010, foi ordenada Dama Oficial da Ordem do Império Britânico pela rainha Isabel II e, em Lisboa, recebeu o Prémio Personalidade Portuguesa do Ano atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

      Para incentivar os jovens estudantes a desenhar, em 2016 foi criado o Prémio Paula Rego, galardão anual para atribuir a estudantes da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

      Paula Rego recebeu, em 1995, as insígnias de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2004 a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, e em 2011 o doutoramento ‘honoris causa’ da Universidade de Lisboa, título que possui de várias universidades no Reino Unido, como as de Oxford e Roehampton.

      Em 2019, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura. A sua obra está representada em múltiplas colecções públicas, a nível nacional e internacional.

      O documentário “Paula Rego: Secrets and Stories”, do realizador Nick Willing, filho da pintora e de Victor Willing, estreou-se a 25 de Março de 2017, pela BBC, no Reino Unido, e depois em Portugal, em Abril do mesmo ano.

      Neste filme, Willing relata a vida da mãe de forma intimista, como mulher e artista, o relacionamento com o pai, a grande dedicação à arte e as fases de dificuldades sofridas, por falta de meios financeiros para cuidar da família, até ao progressivo reconhecimento em Portugal e no Reino Unido.

      Em Novembro de 2021, também a Galeria 111, que representou a pintora em Portugal desde o início da carreira, organizou uma exposição em sua homenagem, e da “relação de amizade e cumplicidade”, que titulou “Saudades”, com 27 obras que revisitam o seu percurso artístico desde os anos 1980 até trabalhos mais recentes, provenientes do atelier da pintora, em Londres.

       

      com Lusa