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      InícioOpiniãoA China e o Neo-Eurosianismo

      A China e o Neo-Eurosianismo

      Da perspectiva chinesa, a ameaça real à China resultante dos desígnios expansionistas da Rússia baseados no Neo-Eurasianismo é relativamente baixa num futuro previsível. Moscovo salientou que a Parceria da Grande Eurásia deveria ser construída em conjunto pela China e pela Rússia, mostrando desse modo que quer usar este novo conceito para enfraquecer a posição dominante da China. Pequim, por outro lado, enfatiza a necessidade de consultas exaustivas nesse processo de construção conjunta, tornando assim as contradições imperceptíveis. Isto revela que entre a China e a Rússia são maiores os pontos de consonância do que as diferenças.

      Além disso, uma vez combinadas a Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota e a Parceria da Grande Eurásia, a China e a Rússia têm vindo a reforçar a cooperação bilateral baseada em interesses comuns, nomeadamente em aspectos ligados à promoção do desenvolvimento do corredor de transportes da Eurásia e do desenvolvimento coordenado da economia regional. A isto acresce, em matéria de geopolítica, que embora exista uma contradição entre a China e a Rússia sobre quem é o país dominante nesta região, num futuro previsível, esta contradição não é grave o suficiente para afectar a situação global da cooperação entre os dois países.

      Nos primeiros tempos, quando o conceito de Eurasianismo foi introduzido na geopolítica e política externa da Rússia, a Rússia considerava o Japão como um parceiro viável na Ásia Oriental. Contudo, devido à cooperação e intercâmbio entre a China e os Estados Unidos em acontecimentos que se tornaram históricos, designadamente no período de lua-de-mel entre Pequim e Washington na década de 1970, a Rússia passou a recear a China, considerando o seu desenvolvimento e, mais tarde, a Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, ameaças potenciais ao Eurasianismo russo.

      É então que, nos últimos anos, Putin passa a defender um alinhamento entre a Parceria da Grande Eurásia e a Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, devendo esta ser vista como uma primeira fase de construção daquela. Acto contínuo, uma vez já em curso uma cooperação aprofundada entre as duas iniciativas, o promotor do Neo-Eurasianismo russo, Alexander Dugin, fez uma nova interpretação da geopolítica e das estratégias diplomáticas de Moscovo à luz daquele conceito. Numa palestra que proferiu na China em 2018, Dugin disse que a China não era um país com Poder Marítimo, mas sim, juntamente com a Rússia, o núcleo central do Poder Continental.

      Actualmente, os conteúdos básicos da estratégia diplomática russa para Leste são os seguintes: aprofundar a cooperação sino-russa; desenvolver e criar um novo espaço para a cooperação política e económica euro-asiática; procurar oportunidades para expandir a cooperação com países do Leste e do Sul da Ásia. Uma vez que o principal objectivo da Parceria da Grande Eurásia passa pela promoção da cooperação económica na região eurasiática, os seus efeitos manifestam-se também em primeiro lugar no campo económico.

      Num futuro previsível, na perspectiva da China, a Rússia é um parceiro fiável em matéria de cooperação económica, comercial e energética, e também como contrapeso aos Estados Unidos. Mas as relações bilaterais não atingiram um nível que permita considerar os dois países Aliados. A China sempre prosseguiu uma política externa independente de não-alinhamento. Para a China, a Rússia é um parceiro estratégico para coordenação de políticas, numa nova era caracterizada por amplos interesses comuns e uma boa base para cooperação. Simultaneamente, a Rússia é uma força importante de apoio aos esforços da China tendentes à construção de um novo modelo de relações internacionais.

      No que diz respeito à guerra na Ucrânia, a posição de Pequim é neutra. Na realidade, a China está mais preocupada com a sua própria reunificação e com conflitos fronteiriços. Nesta guerra, ambos os lados do conflito são parceiros importantes da China. A China defende a integridade territorial e a soberania de todos os países, adere aos princípios da paz, cooperação e desenvolvimento, e mantém uma atitude neutra. No entanto, a guerra em curso trouxe também instabilidade ao desenvolvimento da Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, razão pela qual a China está mais interessada do que nunca em acalmar as tensões e manter uma estrita adesão aos princípios da cooperação pacífica.

       

      Edmund Li Sheng

      Director do Centro de Estudos Russos da Universidade de Macau